Quarto dia do 8 ½  Festa do Cinema Italiano: dois filmes em destaque. Com uma plateia bem composta, e no cenário aprazível do Espaço Nimas, altura de assistir a Altra Europa, de Rossella Shillaci, um documentário pesado e doloroso, que se centra numa das mais delicadas e obscuras questões da sociedade italiana: a hostilidade relativamente à imigração.

Algumas horas mais tarde, um pouco a baixo, na Cinemateca Portuguesa, espaço para a apresentação do mais recente trabalho de Pietro Marcello, jovem realizador italiano: Il Silenzio di Pelesjan, um tributo ao conceituado cineasta arménio.

ALTRA EUROPA – 9/10

Um documentário que espelha, em Turim, o tratamento recebido por refugiados provenientes da Eritreia, Somália e Sudão. Imigrantes legais, com estatuto de refugiado político, que veem os seus direitos violados e desrespeitados pelas autoridades italianas.

Duas componentes se mesclam neste revelador trabalho: por um lado, o menosprezo das instituições turinenses face aos problemas dos refugiados, encaminhados para edifícios degradados sem saneamento básico ou precauções higiénicas, e por outro, o sentimento dos habitantes da cidade relativamente a estas comunidades.

Homens, mulheres e crianças fugidos à violenta guerra dos seus países, procurando uma vida melhor, um emprego, uma casa. Os acessos são restringidos, os seus problemas menorizados, o apoio social escasseia. O mecanismo de integração é um fantasma. Vizinhos turinenses hostis, amedrontados com os grupos de imigrantes, fecham os filhos em casa. E os imigrantes, renegados e esquecidos, só pedem uma oportunidade. “Não somos animais, também somos gente”, diria um.

No fim de contas, um documentário que faz sobressair um dos “podres” dos italianos: a sua frieza e excessiva desconfiança em relação às populações nómadas. “It’s not worth the trouble to come to Italy”, afirmava um sudanês, desanimado.

IL SILENZIO DI PELESJAN – 6.5/10

Numa viagem pelo imaginário de Artavazd Peleshyan – um dos mais conceituados realizadores da escola soviética -, Pietro Marcello, o jovem cineasta italiano, propõe-nos uma fugaz passagem por uma série de obras do artista arménio.

Aquele que começou por ser um desenhador industrial, tímido e embaraçado, chegado a Moscovo em 1963, viria a ser um dos mais prestigiados alunos da VGIK, a reputada escola de cinema soviética, realizador de películas como O Início, comemoração do 50º Aniversário da Revolução de Outubro, ou As Estações, trabalho que o lançaria para a ribalta.

Sem uma participação ativa no documentário, Peleshyan remete-se ao silêncio, um sepulcral silêncio que combate com as imagens e as ideias dos seus filmes. Porque, como afirmaria “o cinema pode conhecer o tempo, mas eu não sei o que ele quer”.

Absorto e pacato, Peleshyan é homenageado pelo seu magnificente e longo trabalho, produzido no século XX, e que serviria de influência a muitos cineastas contemporâneos. O seu legado ainda é reconhecido.

Para terça-feira, os destaques do 8 ½ Festa do Cinema Italiano vão para a estreia de Sette Opere di Misericordia, integrado na secção Competitiva. Ainda no Espaço Nimas, o trabalho de Pietro Marcello é exibido, com os filmes La Bocca del Lupo e Il Passagio della Linea. Na Cinemateca Portuguesa, tempo para A Árvore dos Tamancos de Ermanno Olmi, um dos homenageados desta quinta edição.