No terceiro dia do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano destacam-se cinco filmes da programação. Dois dos quais inspirados em obras literárias, nomeadamente Il Primo Uomo, baseado no livro póstumo de Albert Camus e Afirma Pereira, uma transposição cinematográfica do romance de Antonio Tabucchi.

Qui Finisce L’Italia foi o filme selecionado para o Il Documentario, que percorre a viagem de Pasolini de 1959, sendo um road movie pela Itália contemporânea.

Na secção Focus dedicada a Paolo Sorrentino assistiu-se a Il Divo, a obra-prima do realizador, que retrata o enigmático primeiro-ministro Giulio Andreotti, figura emblemática na política italiana.

Integrado na secção competitiva está Corpo Celeste, o primeiro filme de Alice Rohrwacher, que documenta os rituais religiosos de uma pequena aldeia de Itália na perspetiva de uma imigrante adolescente.

AFIRMA PEREIRA – 9/10

Afirma Pereira, realizado por Roberto Faenza, é uma adaptação cinematográfica da obra literária de Antonio Tabucchi, Sostiene Pereira, de 1994. Numa sessão dedicada a homenagear o escritor recentemente desaparecido, a visualização do filme foi precedida pela leitura de uma passagem do livro.

Com uma sala lotada para assitir à afamada película, esta narra a história de Pereira, editor da secção cultural de um jornal da Lisboa salazarista, que procura colaboradores para redigir óbitos antecipados de escritores reconhecidos. Pereira, um homem viúvo e solitário, cada vez mais preocupado em refletir  sobre a morte, contrata Monteiro Rossi, um jovem de quem tinha apreciado um artigo relativo à temática em causa.

Pereira, dono de uma vida pacata e monótona, desmembrada e enfadonha, cujo único propósito é a dedicação à literatura, vê-se embrenhado numa teia construída pela opressão do regime ditatorial, quando descobre que o jovem Rossi estava envolvido em actividades revolucionárias. Se a alienação política era apanágio do jornalista, incapaz de interferir em tais assuntos, a vivência com o revolucionário fá-lo questionar toda a estruturação da sociedade.

 Um filme dinâmico, intenso e marcante, rastilho para uma reflexão sobre os problemas com que hoje nos debatemos.

IL DIVO 8/10

Prémio especial do Júri de Cannes, Il Divo retrata os últimos anos políticos de um dos homens mais temidos de Itália, Giulio Andreotti. O realizador consegue nesta obra fundir no mesmo filme o relato político com um toque cómico e provocador.

O tom irónico em torno da figura de Andreotti foi conseguido com mestria através da introdução de vários elementos na narração, como a música, os close up e os planos prolongados e dinâmicos, que acompanham o movimento das personagens.

É de congratular a forma exímia como o actor Toni Servillo encarna o papel do manipulador, mas sereno Andreotti. Ele consegue reproduzir os gestos, a postura quase anedótica e o olhar inexpressivo do político, conjugando a passividade de um homem débil com o caráter frio e desumano da sua personalidade.

Apesar do político não ter sido punido pelos crimes que cometera, Sorrentino apresenta uma implacável crítica contra os seus atos corruptos. Andreotti no final do filme, em pensamento, assume finalmente a sua culpa. Será este o homem mais astuto e cruel da política italiana ou um dos homens mais caluniados da História?

CORPO CELESTE  – 7/10

O filme desconcertante de Alice Rohrwacher, integrado na Competição, abalou as Instituições religiosas de Itália, devido à sua abordagem realista e crítica à Igreja.

Corpo Celeste retrata o quotidiano de uma comunidade religiosa numa pacata aldeia italiana, segundo o olhar atento de uma adolescente à descoberta do sentido da religião.

A realizadora consegue com excelência denunciar as preocupações supérfulas da população, a falta de conhecimento do Evangelho e a ganância do pároco em angariar eleitores, bem como obter uma posição mais abastada na Igreja.

E no final, a pergunta permanece sem resposta: Aonde está a fé?

IL PRIMO UOMO – O PRIMEIRO HOMEM – 8,5/10

Soberbo, belo, intenso. Numa coprodução entre França, Itália e Argélia, Gianni Amelio adapta ao cinema o livro póstumo de Albert Camus que retrata uma viagem de cariz autobiográfico do próprio autor.

Regressemos à Argélia dos anos 50, onde franceses e árabes se debatem pela liderança do país. Ao país regressa Jacques Cormery, um dos mais reconhecidos escritores da época. O filme viaja ao passado e retrata o crescimento do escritor, proveniente de uma família humilde e que a inteligência vai levar mais longe.

Toda a ação da infância é mostrada de uma forma bela, a um ritmo fluido e que dá vontade de acompanhar. Sentimos uma identificação natural com a criança que foi Cormery e vamos percebendo a sua identificação para com o país, que no presente é posta em causa.

Depois voltamos ao presente e a um território em que as diferenças culturais se transformaram numa guerra entre povos. A Argélia é um país onde todos lutam pelo valor de uma pátria em que acreditam, independentemente do que isso possa trazer. Cormery, que estava ausente em França, é encarado como um estrangeiro, contudo o escritor cresceu argelino e sente-se argelino. Jacques Cormery vai ter de provar aos outros, mas acima de tudo a si próprio, a sua ligação à terra que o viu crescer.

A nível estético, o filme não merece outra palavra que não seja genial. Todas as cenas são compostas de uma beleza visual como há em poucos. A forma crua e real que traz vai desde a infância à guerra que se encontra em aberto nos anos 50. Cada cena é pensada e filmada ao pormenor, com detalhes que mostram a excelência do filme.

A isto se junta uma história poderosa, forte, arrebatadora, a que o próprio Camus nos habitou. Il Primo Uomo – O Primeiro Homem é uma história sobre os valores da pátria, sobre a importância de agir consoante aquilo que se acredita, de ir em frente apesar dos obstáculos.

Neste quadro de dimensões apoteóticas que é o filme, o final tem o toque de génio que conclui esta película. Aberto, sem futuro decidido, deixado à consideração de quem o observa. Um final onde seremos nós a puxar os nossos valores e a agir como Cormery.

Falar deste filme e avaliá-lo é quase como uma ato de lhe retirar importância. Il Primo Uomo – O Primeiro Homem fala por si próprio, dá-se a mostrar. Um filme grande que conta um período da História pouco aprofundado mas cujos moldes ainda é possível hoje trazer para o mundo contemporâneo.

Na segunda-feira, dia 16 de Abril, a Festa do Cinema Italiano continua com uma seleção de grandes filmes. Estará em destaque no Espaço Nimas o documentário Altra Europa, que se debruça sobre três personagens emblemáticas que opinam sobre a Itália e a Europa e na Cinemateca, o filme de Pietro Marcello, Il Silenzio di Pelesjan que apresenta o retrato do mestre arménio Pelechian , integrado na secção Focus.

Artigo escrito por: Daniel Veloso, Sara Alves e Wilson Ledo