Que as músicas carregam em si histórias, isso já é certo e sabido. Mas Luísa Sobral tem uma forma especial de as contar. E ontem, no Centro Cultural de Belém em Lisboa, a sala esteve disposta a ouvi-la.

Pouco passava das nove horas da noite quando o palco, decorado a rigor, se foi compondo. Luísa e os seus músicos foram recebidos com fortes aplausos num dia que depois a cantora confessaria que lhe era especial: “É a segunda vez que toco em Lisboa, num ano, e hoje [dia 14 de Abril] faz um ano que lançámos este álbum [The Cherry on My Cake]”.

O concerto arrancou com a música I Would Love To, que conta a história de uma Luísa que se sacrificaria e faria qualquer coisa que não gostasse se a pessoa por quem está apaixonada lhe pedisse. Foi um com toque de timidez e suavidade que a artista portuguesa abriu aquele que viria a ser um grande concerto. O público gostou, retribuiu e deixou-se ficar, expectante para a segunda música, Déjà Vu.

Porém, foi na terceira música que Luísa Sobral se abriu mais ao público, se tornou mais extrovertida. Foi também  nesta música que o público começou a interagir mais com a banda. Mr and Mrs Brown relata a rotina de um casal com diferenças muito acentuadas, mas que gosta muito um do outro. Uma relação que está destinada a ser para sempre, cantou Luísa.

Na sua voz doce, falou-nos de valter hugo mãe e do livro que a fez contactar o autor. Filho de mil homens levou Luísa a enviar um e-mail ao autor e confessar-lhe que gostava da sua escrita, o qual respondeu que gostava das suas canções. Então, em jeito de desafio, Luísa Sobral pediu a valter hugo mãe para escrever um pequeno texto para ler num dos concertos. E assim foi. Numa sala silenciosa mas atenta, a cantora leu as palavras do escritor sobre uma Clementina que vivia dentro de cada um de nós. E depois, numa leva de graciosidade, presenteou o público com uma das suas músicas mais conhecidas: Clementine. Os cenários acompanhavam a música, o público entoava a letra e Luísa deixava-se levar pelo ambiente acolhedor e intimista.

Mais descontraída, falou-nos do Sr. Vinho. Decidiu escrever esta música como resposta aos argumentos do pai que confessava, diversas vezes, que ela não sabia cantar fado. Então, Luísa escreveu sobre três personagens do fado português. “Podia ter ficado traumatizada com o que o meu pai disse e não ter sido cantora. Mas aqui estou e ainda criei o meu próprio fado”, rematou, rindo. E de facto criou. É de lembrar que Luísa Sobral começou no programa Ídolos, da SIC, em 2003, com apenas 16 anos. Mais tarde, rumou a Nova Iorque para se formar na música e de certa forma ganhar alguma experiência. Voltou a Portugal de malas cheias e coração ainda mais. Inspirou-se, recriou-se e agora é uma das melhores cantoras portuguesas dos últimos anos.

http://www.youtube.com/watch?v=vs1PUNzWy3M&ob=av2e

Not There Yet, o single do The Cherry on My Cake, chegou a meio do concerto e era esperado por muitos espectadores que, ao som das primeiras notas, mostraram o seu agrado, aplaudindo os músicos. De seguida, foi a vez de Luísa e o pianista, João Salcedo fazerem um dueto. You Won’t Take Long encantou o público. Inspirador, profundo, emocionante. Assim foram estes breves minutos, que deram ao concerto um toque muito especial.

Uma das características de Luísa Sobral é a sua inegável versatilidade. Com orgulho, falou-nos do avô poeta e da vontade que teve em musicar um dos seus poemas. A Minha Estrela foi cantado e contado apenas para Lisboa e ficou marcado por uma presença especial: Salvador Sobral, o irmão de Luísa, também conhecido do programa Ídolos e que, desde que começou a cantar, a acompanha nos duetos. E surpreendentemente ou não, também ele tem uma voz doce, suave, melodiosa. Foi um momento da noite que nos revelou um pouco mais da artista e da sua vida e família.

Quanto a Oversize, esta foi escrita quando Luísa acreditava no amor à distância. “Depois experimentei o amor à distância e deixei de acreditar”, contou. O que distinguiu esta música das outras foi um simples instrumento que às vezes ignoramos: uma caixa de música. Assim, uma música triste acabou por abraçar todos os espectadores que ouviam atentos a sua história. Uma música triste mas com muito significado.

E quem conhece os concertos de Luísa Sobral sabe que estes também são feitos com uma pitada de humor. “Chegou a vez de relembrarmos a marca dos meus concertos no ano passado”. De repente, Luísa Sobral encarna Britney Spears e canta Toxic, um momento cómico e que o público adorou, acompanhando-a na música.

Sempre de forma muito expressiva, falou do Engraxador. A primeira música escrita em português foi ouvida numa turma da primária e, depois, foi pedido aos alunos para desenharem o que para eles era o Engraxador. Um momento terno, devo dizer. Enquanto cantava os desenhos das crianças passavam como pano de fundo e, através deles, foi possível encontrar várias histórias e expectativas.

Outro grande momento foi quando a artista apresentou os músicos e, emocionada, confessou-nos porque é que eles eram especiais. É sempre engraçado quando uma amizade também subsiste nos palcos, não é verdade?

http://www.youtube.com/watch?v=RafH4PLjOw4

Antes do encore foi a vez de se ouvir  Don’t Let Me Down e Xico, este último um grande sucesso da cantora que acabou com o Grande Auditório do CCB a aplaudir de pé aquele concerto fantástico. E, surpresa, Luísa regressou para o encore, mas a primeira música foi cantada de um camarote iluminado por um pequeno candeeiro. Um momento lindo, pequeno mas, ainda assim, encantador.

E, para fechar em grande, Luísa Sobral mergulhou nos covers e no bom humor e presenteou-nos com uma versão de Não és Homem Para Mim, de Romana. O público não esperava e, como é evidente, não pôde deixar de aplaudir a ironia da cantora e a forma como ela tornou aquela música em algo engraçado de se ouvir. Por fim, Why Should I, uma música de Luísa que, como já nos habituou, fala de coisas sérias num tom divertido, descontraído e bonito.

Há muita coisa para dizer desta cantora. Versatilidade é o seu ponto forte e a doçura na voz também está sempre presente. Foi um concerto fantástico, uma viagem por várias histórias, percorrida como se virássemos as páginas de um livro. Agora, é esperar que Luísa Sobral se inspire novamente e regresse aos palcos o mais rápido possível.

*Fotografias: Gonçalo Simões

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945