No segundo dia de filmes da 5ª edição do 8 ½ Festa do Cinema Italiano, o grande destaque foi mesmo Napoli 24, um documentário que une o trabalho de diversos realizadores napolitanos para oferecer uma arrojada, heterógenea e esclarecedora visão da reconhecida cidade do sul de Itália.

Com um Espaço Nimas bem composto para assistir à sessão, tempo ainda de conferir a biografia de um dos maiores ladrões de bancos da História Italiana: Vallanzasca – Gli Angeli del Male -, de Michele Placido, explora as peripécias do perverso criminoso milanês, o mais temido da década de 1970.

No Cinema Monumental, ocasião para compreender o espírito de um homem que descobre ter um filho adolescente: Scialla!, integrado na Secção Competitiva.

NAPOLI 24 – 8/10

Com uma cultura muito enraizada, os habitantes de Nápoles mostram a sua face neste documentário dedicado a esta cidade do Sul de Itália. Napoli 24, como o próprio nome sugere, reúne 24 grandes realizadores italianos que, em pequenas curtas de três minutos, retratam as várias facetas deste povo fiel às suas origens.

Sem encenações nem artificialismos, o filme deixa a cidade expressar-se por si mesma, enquanto se caminha pelas suas ruas e os bairros. Sem tabus, não se distorce nem se altera a realidade, mas observa-se a beleza e a pobreza de uma forma crua e despida de preconceitos.

O documentário congrega os diversos aspetos caraterísticos e edificadores da cidade, nomeadamente a paixão pela música, a arte, os tumultos nas ruas, as memórias da revolução e do antigo rei de Bourbon, a devoção religiosa, o comércio em torno das figuras dos santos e das flores que adornam os cemitérios, os bairros sociais, as drogas, o lixo, a riqueza das praias, o acolhimento de uma multiplicidade de etnias no seio da cidade, os casamentos avantajados e os restaurantes cheios de pessoas, que já são consideradas família pelo o dono que as recebe.

Dos 24 pequenos filmes que constituem o documentário, destacam-se quatro que impressionaram tanto pela negativa como pela positiva. As duas primeiras curtas não transmitiram com sucesso a sua mensagem, apesar de simbolicamente representarem um tema forte para a cidade Napolitana.

O primeiro mini filme introduz o documentário, apresentando o porto de Nápoles e a ligação do povo com o mar. Apesar da narração forte que presta homenagem à Revolução Napolitana, os planos fixos e pouco conclusivos, não conseguiram transmitir essa parte histórica tão marcante.

A segunda curta retrata o tumulto da cidade. Ouvem-se tiros, gritos e palavras de ordem através de uma janela, que se encontra virada para a rua onde ocorre o tumulto. Neste caso, a curta peca por mostrar apenas um plano totalmente estático de uma janela, que vai perdendo o seu significado passado uns longos minutos de exposição.

As outras duas curtas impressionaram por terem conseguido captar a essência da cidade. Uma delas dedicada à música equipara o batimento da vara de um cego com o som das teclas de um piano. O pianista é comparado a um cego que toca as notas sem ver a pauta. A música une esses dois indivíduos, que aparentemente são diferentes, numa igreja majestosa. Os planos são visualmente magníficos e cada pormenor da cena possui uma carga simbólica magnífica.

Outra que impressionou pelo ponto de vista documental, foi a curta dedicada aos cemitérios e ao culto dos mortos. Tradicionalmente, os napolitanos zelam pelos corpos dos seus familiares durante 20 meses. Esta curta mostra a revolta das mães e filhas contra uma lei que inibe a continuação desse ritual. A força da mulher napolitana é revelada de forma brilhante através das vozes sofredoras de protesto.

O documentário com uma estrutura sólida e surpreendente contou com a participação de vários realizadores, entre eles Guido Lombardi e Paolo Sorrentino, que estão em destaque nesta edição da Festa do Cinema Italiano.

SCIALLA! – 6,5/10

Numa tradução para português, Scialla! seria algo como Relaxa!. O filme de Francesco Bruni, que integra a secção Competitiva do 8 ½ Festa do Cinema Italiano, traz ao longo da sua acção este espírito e permite a quem assiste relaxar com a história que nos é contada.

Bruno descobre que tem um filho de 15 anos, Luca, por quem terá de ficar responsável pois a mãe deste terá de partir para um trabalho importante. Mas o desafio torna-se ainda maior porque Luca é aquilo que se poderia chamar um espírito rebelde – pouco empenhado na escola e com toda a facilidade em meter-se em sarilhos. Durante o filme vamos percebendo a relação que se vai construindo entre ambos e as cedências de ambos para que consigam chegar a bom porto.

O bom e sofisticado humor é, sem qualquer dúvida, o ponto forte de Scialla!. Ao longo de todo o filme somos surpreendidos com situações caricatas e por traços de personalidade que nos fazem soltar uma boa gargalhada. Apesar de a história pouco se desenvolver, torna-se interessante acompanhar o percurso das personagens e ficar a conhecer melhor as suas personalidades.

Scialla! é um filme leve, fácil de ver, que consegue divertir e prender. Uma boa comédia faz sempre falta e este é certamente um filme para assistir nessas ocasiões. Depois há a banda sonora… prepare-se para sair da sala de cinema a cantarolar o refrão do tema principal.

VALLANZASCA – GLI ANGELI DEL MALE –  8,5/10

Vallanzasca,  apelido de Renato, um dos mais maquiavélicos bandidos italianos do século XX, é o nome do filme de Michele Placido integrado na secção Panorama, que transporta para o cinema a história verídica do ladrão milanês.

Se o ato de roubar é considerado um fenómeno socialmente adquirido, sem nenhum outro tipo de proveniência, Vallanzasca contraria categoricamente tal definição: o crime corre-lhe nos genes, nasceu com ele. Cometendo, desde criança, pequenos delitos no bairro onde reside – auxiliado por aqueles que eternamente o acompanhariam na actividade -, Renato será para sempre marcado pelo suicídio do seu irmão, Ennio, acusado de matar a esposa no final dos anos 50.

Vallanzasca torna-se um criminoso hábil e frio, sem escrúpulos. É um líder nato que, arrastando os mais próximos, concretiza os seus objetivos e garante a satisfação dos seus desejos: dinheiro em abundância, luxos, bebida, cocaína. Mas a ambição nunca conhece limites, e essa incomensurabilidade tem consequências: Renato é capturado vezes sem conta, sendo enviado para prisões de alta segurança, com apertada vigilância. No entanto, todos estes esforços se revelam insuficientes. Vallanzasca, o criminoso experiente, evade-se incessantemente dos estabelecimentos prisionais, prosseguindo o seu inconfundível registo de violentos e sangrentos assaltos.

Mas Renato é, ao mesmo tempo, um apaixonado, incapaz de resistir ao chamamento de uma mulher bonita. Bonacheirão e determinado, alia um romantismo envergonhado à frenética engrenagem criminal. Sem respeito nem mediações, Vallanzasca troça de toda a estrutura institucional, achincalhando juízes e guardas, polícias e inspectores. “Não sou má pessoa, tenho apenas o azar de o meu lado negro sobressair com facilidade“, diria, a certa altura, o criminoso. Um filme intenso e agressivo, combinado com um peculiar humor que emana das entranhas do protagonista, o bandido milanês mais procurado de Itália na década de 70, e que seria condenado a 4 prisões perpétuas.

Para Domingo, dia 15, a tónica será posta em Afirma Pereira, filme de Roberto Faenza integrado na Homenagem a Antonio Tabucchi, Corpo Celeste, de Alice Rohwacher presente na secção Competitiva, e Il Primo Uomo, de Gianni Amelio, inscrito na secção Panorama.

Artigo Escrito por: Daniel Veloso, Sara Alves e Wilson Ledo