Onde estavas quando criei o mundo? é a nova produção em cena na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II. Numa encenação de João Mota, Manuela Couto interpreta o monodrama escrito por Artur Ribeiro.

Eu nunca quis ter filhos“, assim inicia uma mulher, agora na posição de arguida, as suas alegações finais. Se à partida desconhecemos o porquê de esta se encontrar perante o tribunal, à medida que a história nos é contada por ela, identificamos o seu crime: a morte do próprio filho.

Apesar da sua frase inicial, percebemos que esta mulher se adaptou à maternidade, não fosse o ser humano um ser que se molda às situações. Devido a um acidente de viação, o seu filho, na altura envolvido em drogas e no álcool, fica paraplégico e devido a uma complicação acaba por perder também a fala. Perante o estado do filho e de um desabafo anterior deste sobre a morte, esta mulher só vê uma solução para o fim do sofrimento de ambos: a morte.

Para além destas alegações finais, somos também levados como que num flashback ao quarto onde o filho se encontra acamado. Vamos construindo, à medida que a história nos é contada, o curso dos acontecimentos e compreendendo a alma desta mulher e as suas motivações.

O texto é a grande surpresa desta peça. O discurso da arguida aborda a vida, a morte, a eutanásia, a felicidade, a religião e as relações humanas, numa síntese complexa e fluída. Sentimo-nos agarrados às palavras da mulher que se defende em tribunal e espantamo-nos com os caminhos que as palavras tomam. Os vários desvios da defesa da mulher são percursos bem construídos que nos colocam também a nós a pensar.

O texto tem a capacidade de nos colocar no papel de juízes e pensar “o que teria feito se fosse comigo?”. Embora a lei nos diga que tal ação é um crime, ficamos a pensar se o facto de ele ter sido cometido como ato de piedade (e último recurso) não garante à mãe legitimidade de acção perante um filho que sofre a cada minuto que passa. No final, seremos nós a decidir o julgamento daquela mulher que nos expôs a sua vida como num livro aberto.

A interpretação de Manuela Couto deixa-nos um tanto ou quanto confusos quanto à sua eficácia: se durante as alegações finais temos ritmo, fluidez, raciocínio, energia e variedade na interpretação, nos flashbacks do quarto a ação torna-se pesada e lenta. Ficamos, nas cenas passadas neste último espaço, cingidos a uma mulher deprimida que se restringe a sentar-se e dizer um texto ou tanto ou quanto à parte da realidade, com pouca expressão de sentimentos, quando à sua frente estaria um filho a sofrer.

Outro dos aspetos que contribui para esta baixa de expectativas em relação às cenas do quarto prende-se com as transições de cena. Se na primeira transição o efeito parece esteticamente interessante, a sua repetição constante ao longo das restantes transições da peça acaba por nos fazer perder o interesse face àquilo que vemos e ouvimos: a mesma música melancólica, a mesma projeção fazendo alusão a ligações cerebrais. A peça torna-se, a este nível, expectável.

Apesar destes pontos menos positivos, Onde estavas quando criei o mundo? é uma peça que merece ser vista e apreciada, nem que seja pela riqueza estupenda do texto que nos põe a pensar sobre questões essenciais da nossa existência e nos coloca perante uma pergunta poderosa: “o que aconteceria se fosse comigo? Teria eu morto o meu próprio filho?”

Para ver, até 13 de maio de quarta a sábado às 21:15 e aos domingos às 16:15.

httpv://www.youtube.com/watch?v=hMK19r_LojY

Fotografias: Rita Sousa Vieira