Estreou a 29 de março e pelo Teatro da Cornucópia, em Lisboa, ficará até 29 de abril. A partir de Lope de Vega, Luís Miguel Cintra encena Fingido e Verdadeiro ou O Martírio de S. Gens, actor – o padroeiro dos que pisam os palcos dando vida a outras personagens.

Regressemos ao século III, mais precisamente à Roma Imperial liderada por Diocleciano. Aí encontramos Gens, um dos mais aclamados atores e dramaturgos da época. Antes de chegarmos à história do protagonista da peça, percorremos o caminho do imperador para o trono, antes soldado, a quem a profecia de Camila, uma vendedora de pão, previu que se transformaria no Augusto Supremose matasse um javali”. Um javali muito característico.

É já sentado no trono que Diocleciano conhece a fama de Gens, ator, e lhe pede que crie espetáculos para si. O dramaturgo interceta a sua história de amor e a ficção e o resultado não é dos melhores. A realidade e a ficção misturam-se com um final lastimoso, mas que acaba por passar despercebido ao Imperador que se deixa enganar pelos jogos entre o verdadeiro e o fingido. Perante o ‘sucesso’ da peça, Diocleciano pede a Gens um desafiante trabalho.

Gens terá de imitar um cristão. Durante o trabalho de ator, o dramaturgo acaba por se ver ele próprio a acreditar num deus que antes desvalorizava. A fé instaura-se e o jogo de aparências torna-se cada vez mais complicado de jogar. Numa terra onde a religião católica é mal vista, Gens terá de provar que mais do que representar, vive o que põe em palco. Independentemente das consequências, que um dia o transformariam no Santo do dia 25 de agosto, o mártir S. Gens, também conhecido como o padroeiro dos atores.

Luís Miguel Cintra joga com um texto que nos põe ele próprio a pensar sobre o que realmente será verdade e aquilo que não passará de uma aparência. Para além disso, o encenador põe abaixo as formalidades dramatúrgicas e transforma a peça num trabalho que é uma mistura entre o trabalho de ator dos próprios atores e o trabalho de ator das personagens.

O teatro como que olha para dentro de si próprio e deixa-nos num lugar de desconforto perante o que vemos: será mesmo verdade isto que eles estão a fazer, porque motivo é que os atores comentam a própria peça que estão a construir, esta personagem ‘bate bem da cabeça’? Tudo isto é conseguido com uma genialidade ímpar, que não nos deixa desligar nunca da peça. O nosso lugar enquanto espectador é posto em causa, mas não abdicamos nunca dele.

Toda esta desconstrução funciona porque está apoiada num regime de humor muito característico: o da ironia trabalhada e que põe em causa aquilo que à partida daríamos como certo. Ao longo de toda a peça, é impossível soltar uma gargalhada, seja pelo (quase) nonsence da cena em si ou de algum pormenor que a constitua, seja por um comentário dos actores face àquilo que eles próprios veem ser posto em cena.

O trabalho de interpretação é sólido: os atores sabem a cada momento se são eles próprios, se são a personagem ou se são a personagem a fazer de outra personagem. São os pormenores que nesta peça fazem toda a diferença. Lançam os dados para o jogo entre o parecer e o ser e deixam-nos em dúvida, não perante eles, mas perante a categorização entre parecer e ser daquilo que vemos.

Fingido e Verdadeiro ou O Martírio de S. Gens, actor é um trabalho denso de descoberta, põe-nos a questionar aspetos sobre o teatro e a representação. É um espetáculo que, mais do que homenagear um mártir da religião e da arte dramática, homenageia o próprio teatro e a arte que se faz em cima dos palcos. Misturar as peças do puzzle para depois juntá-las todas e nos fazer aperceber da beleza do conjunto.