Embarcados numa corrente de sensações sonoras, somos constantemente penetrados pelas letras loucas do homem do leme, Manel Cruz. Remando sob marés sonoras envolventes dos 90’s, a língua portuguesa é despida com grande mestria. O mito é o nada, a viagem dos Supernada.

Nascidos na cidade Invicta, em 2002 (e na mesma semana em que surge Pluto, projecto musical encabeçado pela figura icónica de Manel Cruz), os Supernada são um grupo musical composto por um quinteto: Miguel Ramos (baixista), Ruca (guitarrista e ex-baterista nos Pluto), Eurico Amorim (teclas), Francisco Fonseca (baterista) e a sua figura máxima, o incontornável Manel Cruz (vocalista).

A banda portuense formou-se dois anos depois da cisão de um dos grupos com mais sucesso de sempre da história musical portuguesa, grupo, esse, onde Manel Cruz ganhou fama e notoriedade. Falamos, claro, dos Ornatos Violeta, formados no longínquo ano de 1992. Na ressaca da histeria e do sucesso de Ornatos Violeta, Manel Cruz, o seu líder, tentava recomeçar tudo da estaca zero. Invade-me a memória uma entrevista concedida à Antena 3 por Manel Cruz onde este abecedava a sua tese acerca da sua carreira e, mais concretamente, da separação dos Ornatos. Dizia ele qualquer coisa como «Tudo é efémero, tudo tem um fim. Existe sempre um momento em que esse fim chega. Continuar com os Ornatos seria como fazer a segunda saga de um filme, coisas sem nexo. O que é melhor? Fazer vários filmes com os mesmos personagens e com a mesma história ou fazer vários filmes com diferentes histórias e personagens?», a partir destas palavras ganhamos uma nova visão acerca do seu génio e do porquê de algumas decisões na já sua longa carreira.

Desdobrando-se entre os Pluto e, mais tarde, o seu projecto musical a solo, Foge Foge Bandido, pouco tempo restou para que os Supernada pudessem dar-nos a provar da sua colheita. Com duas passagens fugazes pelo Santiago Alquimista e pelo Hard Club, no Porto, chegou-nos algum material que a banda ia produzindo no seu laboratório musical. Temas como À tua procura, Irreal, Meteorito, Sonho de Pedra ou Merda Química serviam de presságio para o que o grupo nortenho pudesse vir a edificar.

http://www.youtube.com/watch?v=gluys-U-_Ao

A legião de fãs de Manel Cruz ansiava por notícias deste grupo desde há muito. Com temas gravados que datam os tempos primordiais da banda, o quinteto optou por manter ocultas grande parte das suas preciosidades bem dentro da sua cista. Após dez anos sentados na fila dianteira, ansiando desmedidamente por notícias, eis que os Supernada decidem sair do seu laboratório musical e brindar-nos com Nada é Possível.

A nostalgia que serviu, quase sempre, de génese para a criação artística de Manel Cruz, é, aqui, muitas vezes, engolida pela pujança com que Manel fragmenta os seus vestígios da sua carreira. Notam-se pequenos fragmentos de Ornatos Violeta, Pluto e Foge Foge Bandido, mas é o lado cru, musculado e explosivo da sua música que exponenciam os Supernada como o projecto musical onde a vertente rock de Manel é mais vincada. Com saliências ousadas do alternative rock americano dos anos 90, o quinteto produz uma música levitante doseada com gases sonoros envoltos de pequenos detalhes, sobressaindo pormenores como, por exemplo, a introdução de pequenos martelinhos, que climatizam a atmosfera sonora de uma maneira bastante peculiar.

Com composições líricas excelsas radicadas em conjecturas que (e)levam o ouvinte a deambular-se por paisagens reinadas pela sensação que as palavras lhes despertam, Manel assume-se com um estro inigualável. Talento em estado bruto faz vincar a ideia de que um poema, ou uma música, não é o que está escrito, é, sim, o que a liberdade poética do ouvinte permita que seja. Extravasando sentimento ou, de certo modo, divertindo-se a arrumar palavras, Manel exsurge-se como egrégio vate.

Com uma sonoridade bastante alternative, fazendo lembrar o panorama alternativo do rock americano dos 90’s, a vertente instrumental consegue ganhar bastante protagonismo. Alicerçada, quase sempre, na importância da bateria e da tradicional guitarra, a sonoridade funde-se com o elóquio declamado por Manel Cruz e obtém-se um som extramente poderoso e cru. Musculada pelo êmbolo que se ergue entre a sua vertente explosiva, patenteada em, por exemplo, Invisível Mundo, e a sua vertente mais calma como em, por exemplo, Ovo de Silêncio, a sonoridade produzida pelos Supernada ergue-se em conjuntos de pequenos grandes pormenores. Repleta da importância dos sintetizadores, a sonoridade levanta voo numa atmosfera futurista ao comando da voz emblemática e icónica de Manel Cruz.

http://www.youtube.com/watch?v=a0vyQssO5fk&feature=relmfu

Nada é Possível é um álbum embriagado pela genialidade e sapiência de Manel Cruz, a que já estamos habituados, primando pela sua robustez lírica e sonora. Condimentado com autênticas obras-primas musicais como a Anedota, Perigo de Explosão, Espuma ou O meu livro, há quem admita que os Supernada são uma «evolução natural de Ornatos Violeta e/ou Pluto», o que, em meu ver, é estropiado pelos mesmos. Supernada é rock desnudo, cru e puro. Foram dez anos de espera para que a banda originária da cidade Invicta lançasse o seu primeiro trabalho, não foi uma espera curta. Mas uma foi uma espera que compensou (e de que maneira!).

Aniquilada a sua faceta embrionária, aquela que se prolongou por demasiado tempo, os Supernada pugnam, agora, por um lugar na poltrona da música nacional. Os fãs esperam novamente que a banda nortenha se isole no seu laboratório musical, no seu exílio, e condimentem outra obra-prima, quiçá num período de tempo menor.

Com este Nada, tudo é possível.