O nome de Angelina Jolie não seria certamente o primeiro a vir à cabeça se tivéssemos de imaginar um realizador para um filme sobre a guerra da Bósnia. Mau grado uma breve e relativamente despercebida incursão pelo documentário em 2007, não eram conhecidas à senhora Pitt, para o bem ou para o malparticulares aptidões por detrás da câmara. Até agora.

À primeira vista, um filme como este Na Terra de Sangue e Mel pareceria um convite aberto a um habitué do cinema europeu, familiarizado com a temática, um nativo talvez, cuja experiência pessoal facilmente se pudesse assumir como pedra de toque para um relato deste tipo – ou não fossem os Balcãs uma prolífica zona de talentos cinematográficos.

Assim, e pela mão de Jolie, In the Land of Blood and Honey surpreende, mas cai em duas fragilidades: uma vontade a todo o custo em mostrar os principais horrores da guerra, numa espécie de “best-of” de atrocidades e, por outro lado, o risco que incorre ao poder ser interpretado (não significa que muitos assim o façam, efetivamente) como manobra promocional da faceta humanitarista de Jolie enquanto Embaixadora da Boa Vontade da ONU, estatuto tão na moda entre o estrelato hollywoodesco.

Na verdade, estas últimas linhas até poderão recair em alguma injustiça porquanto, afinal de contas, Jolie lidera um projeto seu mas constituído por atores e técnicos locais e falado nas variantes linguísticas do serbo-croata, imprimindo um apropriado cunho realista ao filme.

 In the Land of Blood and Honey mobiliza a plateia atirando-a para uma catarse emocional coletiva, unindo as vivências individuais do filme em prol de um seguidismo comum. Este é um daqueles filmes que, a espaços, transforma toda uma plateia num só indivíduo. Isto é algo que se pressente na sala de cinema, algo que só uma arte destas pode proporcionar a este nível. O cinema tem este dom: o dom de, a espaços, nos relembrar que somos parte de uma comunidade humana repleta de imperfeições, de ódios recalcados, de antagonismos exacerbados que desembocam em atos de barbárie movidos pelo fanatismo cego e assassino.

A falta de credibilidade da maioria das personagens e da história de amor entre um oficial sérvio e uma muçulmana – banalização que Jolie procura espremer mas sem grandes resultados – não retira, no entanto, um pingo de honestidade aos sentimentos propalados ao longo do filme, bem como à mensagem que pretende transmitir, afinal aquilo que a impeliu para a cadeira da realização.

A mensagem universal está lá e passa com distinção. Jolie não fez por menos, choca propositadamente, a sua câmara não tem pejo em mostrar o lado mais negro desse animal que é o Homem, deixando a sua luta pessoal pelo intervencionismo humanitário a pairar sobre o filme como um placard publicitário. Pena que não haja neste filme «cinema» suficiente para que fosse erróneo afirmar que, com metade do tempo que tem, não seria muito mais do que um documentário com o selo de uma Amnistia Internacional ou de uma Cruz Vermelha.

Em suma, trata-se fundamentalmente de um exercício artístico ainda questionável, mas com a louvável e indiscutível virtude de colocar quem hoje é adulto e já esqueceu esta guerra (ou quem é demasiado novo para se recordar) a refletir no nosso papel enquanto seres humanos com responsabilidades sociais cada vez mais globais, cidadãos de uma Europa que, com sangrenta regularidade, discute o seu destino.

 

6.5/10

Ficha Técnica:

Título original: In the Land of Blood and Honey

Realizado por: Angelina Jolie

Escrito por: Angelina Jolie

Elenco: Zana Marjanovic, Goran Kostic, Rade Serbedzija, Dzana Pinjo, Alma Terzic, Nikola Djuricko

Género: Drama/Guerra

Duração: 127 minutos