Patente no Museu Berardo até 24 de junho, a exposição Nikias Skapinakis. Presente e Passado. 2012-1950, dedicada ao artista português de ascendência grega, pretende ser a mais ampla mostra da sua obra.

Comissariada por Raquel Henriques da Silva, a exposição abrange os sessenta anos de produção e mais de 250 obras de Skapinakis, nascido em Lisboa, no ano de 1931. O texto de entrada, da autoria do próprio, explicita: “A responsabilidade do plano desta exposição cabe-me inteiramente. Não pretendi, aliás, apresentar uma retrospetiva – já que entendo que é o tempo que se encarrega do historial dos acontecimentos. Pretendi, antes, delinear uma escolha de obras, em função de conjuntos que pudessem resumir e tornar compreensível o meu trabalho de pintor. Pela primeira vez, sem interrupções, uma exposição abrange a minha intervenção, que parte, propositadamente, do presente para o passado.”

Desde logo, tanto as datas que acompanham o título da exposição como as denominações dos sete núcleos temáticos surgem cronologicamente invertidas, do ano mais recente ao mais antigo. Por outro lado, o percurso expositivo inicia-se com um painel de cerâmica, realizado em 2005 para o Metropolitano de Lisboa e, do lado oposto, com um imenso rolo de papel esboçado e por terminar, intitulado “Cortina Mirabolante”; a sucessão de linhas e formas deste último parece simbolizar o próprio trajeto artístico de Skapinakis, caracterizado pela procura não abstrata, mas sim metafísica da essência das coisas – procura essa que ainda decorre e talvez não tenha fim. Contudo, até que ponto a indagação das coisas não será, na verdade, uma indagação do interior do próprio criador?

Da mesma maneira, é com rolos – desta vez, de papel higiénico – desenhados que termina (ou começa?) esta viagem pela obra de Nikias Skapinakis. Com este fim, que é também um começo, é legitimado o teor experimental do seu trajeto, bastante evidente no conjunto final: “Desenho (2009-1958)”. Se na pintura é de destacar a sintetização da imagem em planos lisos de cores – ora garridas, ora soturnas –, o desenho, geralmente monocromático, impressiona pela qualidade e expressividade do traço.

Curiosamente, mesmo que o nome do pintor seja difícil de fixar, é com facilidade que recordaremos os seus retratos: desde os de ilustres intelectuais e artistas nacionais mergulhados na taciturnidade do período que antecedeu a Revolução dos Cravos e patentes no núcleo Para o Estudo da Melancolia em Portugal” (1974-1960), aos que recuperam temas da mitologia ocidental e ainda aos “retratos de ausência”, integrados no grupo Pessoas, Ninfas, Bichos, Manequins e Frutos (2002-1960).

No entanto, a presente mostra possibilita uma perceção bastante mais abrangente e diversa do percurso de Skapinakis – ainda que represente apenas 1/5 da sua extensíssima produção –, através de outros núcleos, correspondentes a etapas criativas distintas: “O Ponto Metafísico (2012-1954)”, “A Pintura Mirabolante (2010-1994)”, “Monocromatismo e Recuperação da Cor (2000-1989)”, “Parafiguração e Paisagens do Vale dos Reis (1987-1966)” e “Expressionismo Presencista (1965-1950)”.

Todos estes universos – as paisagens, os retratos, as naturezas-mortas, as mulheres, a Antiga Grécia, a abstração, a melancolia, as culturas de elite e popular, as cores e os mitos – compõem a vasta produção de Nikias Skapinakis que, perante essas influências, não se perde nelas, nem deixa de imprimir na tela o seu olhar sobre o mundo. Percamo-nos nós…

 

Interessa-me fundamentalmente o presente, mas analiso a sua diversidade cultural procurando destacar-me e compreender o passado. O passado é omnipresente na minha pintura e também respeita à literatura e até à música. Procuro, talvez enviesadamente, um sentido, um fio de Ariadne que evite perder-me no labirinto dos acontecimentos.

Nikias Skapinakis (2010)