A noite passada estava reservada para David Fonseca. Coimbra acolheu de braços abertos Rising, a primeira parte do duplo Seasons. Jogasse quem jogasse, desta vez, a noite pertenceu ao rei português da pop e dos sintetizadores.

Um Theatrix bem composto viu-se ontem recheado de fãs interessados em saber como soa o novo trabalho de David Fonseca ao vivo, que se apresenta num registo algo diferente de tudo aquilo antes por si experimentado. O músico já nos tinha revelado, progressivamente, de álbum para álbum, o seu gosto por sintetizadores, mas esta sua nova experiência é uma declaração a eles confessada. E que maior prova se não What Life Is For, que abriu o espetáculo numa autêntica dança de sintetizadores. O single, extremamente orelhudo e facilmente trauteável, serviu como perfeita introdução para o que a seguir viria.

O músico, após questionar o porquê da vida, leva-nos também a questionar de onde desencantou Armaggedon, a música que se seguiria. O riff é inconfundível, mas jamais pensaríamos poder ouvi-lo da guitarra de David Fonseca. O peso que este tema comporta é um risco que valeu a pena ser tomado, porque o resultado torna Armaggedon um dos melhores temas de Rising. Num jogo de luzes alternado entre o preto e o vermelho, vemos um público que, embora desconhecendo ainda o tema, começa a entrar no espírito desta diferente sonoridade.

It Feels Like Something toma então o comando, a proporcionar um dos momentos mais envolventes da noite, em forma de presente antecipado. Este é um tema intimista que nos relata o desejo de estar presente em determinado local e de vivenciar determinado momento. E tudo em It Feels Like Something funciona tão bem, de forma tão coordenada, que nos satisfaz essa necessidade comum, ao abrigo de pouco esforço.

Sabendo que o público se encontra ainda pouco familiarizado com este novo mundo, David Fonseca revisita um dos seus maiores sucessos, Kiss Me, Oh Kiss Me. A leviandade com que a conhecida canção nos absorve reflete-se no jogo de luzes que a acompanha. Num fundo pintado de azul, tal qual o oceano, os acordes desenrolam-se, até que, no êxtase do refrão, as luzes se tornam num branco imenso, tal qual ondas do mar a rebentar na areia – será esta apenas mera coincidência ou uma espécie de metáfora subtil?

Seguimos viagem com Under The Willow, a primeira faixa do novo álbum, que se constitui com todo o potencial para ser o próximo single. Tal como acontece em What Life Is For, sobretudo, os sintetizadores estão lá, e a sonoridade contagiante também está presente. O público adere com grande facilidade, em acenos de cabeça e palavras soltas, num roxo refletido na bem contextualizada bola de espelhos.

Em Heavy Heart, sentimos a falta da voz feminina de Catarina Salinas – vocalista dos Best Youth –, excelentemente presente na versão de estúdio, ao vivo substituída pelo músico. O que não permitiu, no entanto, prejudicar a atuação. Foi o tema que passou mais despercebido, mas resultou. O público consentiu de acordo com o ritmo e os sintetizadores deram o ar de sua graça, numa modesta revisitação aos anos 80.

Aqui percebemos a presença do antigo piano preto colocado no palco, quando David Fonseca se senta em frente a ele para dedicar alguns minutos a Beating Of The Drums, não sem antes ter uma pequena conversa com a plateia, como entertainer que é e pelo qual todos o conhecemos. Em tom descontraído, vai deslizando os dedos pelas teclas um pouco ao acaso, pelo meio de piadas e de brincadeiras algo aleatórias. Diz-nos que já deixou de perguntar a idade às pessoas, pois agora arranjou um novo método – bem mais original, diga-se. Ao tocar excertos de canções com várias décadas, tenta perceber qual a percentagem dos presentes que as conhecem, através da sua reação.

O calor começa a sentir-se e vemo-lo tirar o casaco, gesto indissociável dos assobios femininos. Aí, David confessa que nunca percebeu o porquê dos assobios, quando um miau faz muito mais sentido. É então que, quando a conversa chega ao fim, ouvimos as primeiras notas do prometido tema, aprovado pela generalidade dos espetadores.

Com A Cry 4 Love, uma das mais populares, David Fonseca foi “capitão de um barco” em piloto automático. Não precisou de muito para conquistar os presentes, que se deixaram levar pela maré contagiante do single retirado do penúltimo Between Waves.

O músico confidencia-nos que não aprecia saídas noturnas, o que torna aquela noite num privilégio acrescentado, dado o facto de se encontrar numa discoteca. A principal razão que o afasta é o género de música que habitualmente serve como pano de fundo nestes locais, como o exemplo que toca logo seguidamente. Num minuto apenas, cria uma versão diferente e absolutamente irresistível de Single Ladies, original de Beyoncé. Toda a música de discoteca fosse assim e David marcaria, certamente, presença frequente.

O assobio que se faz ouvir é inconfundível. Falamos, naturalmente, de Superstars, que provoca uma reação semelhante à que havíamos vivenciado com A Cry 4 Love. Aqui o trabalho da banda não é muito, pois o público faz questão de tratar do resto, e a “crazy dance” a ele pertenceu. Assistimos, assim, a uma das maiores ovações da noite.

O momento é merecido e, agora, muito mais calmo, com I See the World Through You em forma de ponte ininterrupta para Who Are U?. Todos as conhecem e todos as entoam, num uníssono melancólico que parece combinado.

We’re So Much Better Than This, uma das mais apetecíveis mas ainda desconhecidas de Rising, faz-se entoar em pleno recinto. A reação ainda não corresponde ao merecido, mas o momento é fantástico. Trata-se de uma sonoridade pesada e alternativa e que, ainda assim, soa particularmente bem.

Entre um afinar de instrumentos, alguém grita por Pixies, ao qual o músico reage afirmativamente. Mas a hora pertence a Stop 4 A Minute, que nos faz a mais demorada visita da noite e que, apesar de tudo, não nos faz querer parar, nem sequer por um minuto.

Tanto I Would Have Gone And Loved You Anyway como Whatever The Heart Desires, dois temas ainda bastante desconhecidos do público em geral, constituíram, apesar disso, alguns dos momentos mais interessantes do concerto, sobretudo o primeiro, que é, muito possivelmente, a melhor faixa de Rising, quando a segunda, não lhe ficando nada atrás, tem um poder igualmente irresistível.

Sentimos que o espetáculo tem mesmo de chegar ao fim quando David Fonseca se retira, ainda que por alguns segundos, apenas, retornando para a incontornável The 80’s, que anuncia ser uma canção calma, em óbvio tom irónico. O êxtase rebenta, de uma vez por todas. Seja músico, seja público, todos parecem rejuvenescer e ter 16 anos, de novo, como a música nos sugere.

Vemo-lo retirar-se novamente, o que nos faz concluir que, desta vez, é a sério, até que os vultos e os sintetizadores prometem uma, só mais uma. É What Life Is For que conclui o concerto, em forma de ciclo.

O desfecho é positivo, pecando o concerto apenas pelo natural e compreensivo desconhecimento do público em geral face ao novo álbum. Certamente que funcionará melhor dentro de alguns meses, e é para isso que cá estaremos, aguardando por mais um.

Texto por Tiago Mota

Fotos por Inês Antunes