Wuxia é um género literário e cinematográfico que mistura fantasia e artes marciais. Wu significa “marcial” ou “militar” e xia, significa “honrado” ou “herói”. Com uma origem que se perde no tempo, as histórias Wuxia contam as lendas de guerreiros de artes marciais, que com um grande sentido de honra, muito estudo e supressão dos seus próprios sentimentos em nome de um bem superior, conseguem ultrapassar todas as adversidades. Heróis de Outrora, Heróis de Agora é uma retrospectiva cinematográfica de como o século XXI (2000-2010), foi repescar estas estórias milenares e as actualizou aos dias de hoje, sem desprezar os seus antigos valores.

Heróis da Guerra é um filme de 2006 inspirado no romance histórico de Ken’ichi Sakemi, que foca parte do conflito entre os Estados Guerreiros chineses, no séc. IV A.C. Os sete Estados eram Qin, Chu, Qi, Yan, Han, Wei e Zhao. O romance de Sakemi Bokko fala de um herói que segue uma filosofia que prega o amor universal e, na qual, o altruísmo e a benevolência são as maiores qualidades.

Quando em 370 A.C. o Estado de Zhao lança um ataque à cidade de Liang, na senda pela conquista do Estado Yan, é feito um pedido de auxílio aos seguidores de Mozi. A resposta é o envio de um mohista Ge Li (Andy Lau), para ajudar a proteger a cidade do ataque iminente. O rei de Liang (Wang Zhinwen), o seu principal conselheiro e Tutor Real de Liang (Wu Ma), e o general Niu (Chin Siu-ho) estão dispostos a entregar a cidade ao inimigo, o general Xiang Yangzhang (Sung-kee Ahn), que conduz um exército de 100 mil homens. Do outro lado, encontram-se o jovem e desvalorizado príncipe Liang Shi (Si-won Choi) e a jovem chefe da cavalaria desejosa de provar o seu valor, Yi Yue (Fan Bingbing). A chegada de um único homem para os ajudar a enfrentar tal exército, não dá força à sua opinião de que permanecer em Liang, e lutar é a melhor opção. Com sabedoria e determinação, Ge Li prova o seu real valor e é-lhe dada a oportunidade de, pelo menos temporariamente, defender a cidade contra o Estado de Zhao. Segue-se pois, um cerco colossal às muralhas que protegem Liang, onde a única hipótese de vitória reside na união dos seus habitantes.

Sem estar a divulgar o final do filme e como muitas outras obras cinematográficas que lhe precederam, oriundos da China e não só, a lição bélica a retirar de Heróis da Guerra, é que a estratégia é mais importante que a força dos números. Quando a população se reúne em torno de um objectivo pode tornar qualquer fortaleza inexpugnável. No entanto, quando existe lugar à inveja e lutas de poder, a divisão será a fonte da catástrofe. Rico em batalhas como é Heróis de Guerra, oferece longas sequências de assalto às muralhas de Liang e de repulsão dos ataques pelos seus habitantes, a intriga está sempre presente. Ge Li, levanta dúvidas, logo de inicio ao rei e seus conselheiros línguas de verme, ao não retornar a pedra de jade oferecida como símbolo do pedido de auxílio. Além disso, é apenas um dos muitos que se esperavam. Pode Ge Li ser um estratega assim tão bom, para albergar tal confiança dos mohistas? Ou, esconde ele motivos ulteriores? Ge Li traz ainda um perigo adicional, aquele de uma filosofia baseada na paz e entreajuda entre os homens, tão contrária aos tiranos. Poder-se-ia dar o caso, de a população ouvir tais disparates e chegar a conclusões que em nada favorecem o seu senhor. Poderá, a palavra motim, nascer nos seus corações e formar-se nos seus lábios? A aceitação de Ge Li reside pois numa cumplicidade temporária, ao sabor dos ventos e na duplicidade. O que melhor convier aos grandes senhores estará sempre subjacente à sua conduta.

Depois temos uma população pobre, envolvida numa guerra que não é dela e que não compreende. Já têm tão pouco para sobreviver, por que têm de ser obrigados a lutar pelo pouco que têm quando a solução mais fácil está ali tão perto? Fugir. Salvar as suas vidas. Este é um dos conflitos mais mal resolvidos do filme. De facto, por que não fugir? A honra é assim tão importante? Por que não fugir, para lutar outro dia? Não é como se os habitantes de Liang tivessem muito por que lutar. O grande interesse reside apenas no rei de Liang, que necessita de alguém para governar e de fazer todos os possíveis para sair em segurança do confronto às suas portas, independentemente do resultado para outrem. O príncipe Liang Shi é um conjunto de emoções conflituantes, passando do mimado ao sério e honrado num curto espaço de tempo. Mas é Ge Li ou a chegada da guerra que produz tais mudanças?

Fan Bingbing é uma das maiores fraquezas de Heróis da Guerra, como chefe de cavalaria, ela é, a maior parte do tempo, uma frágil donzela em apuros enredada numa paixão infantil do que uma mulher de acção. Como alívio de tanta testosterona, mais valia ela ser uma servente do palácio do que fazer dela uma combatente sem acção. O próprio Ge Li é uma contradição andante. Prega o amor, mas faz do combate, a instantes, a sua bitola. E fala dele com a facilidade de quem nunca amou. Quando o descobre pode ser tarde demais. Mais, o tão sabedor Ge Li tem de ser recordado disto por um simples escravo. E é um personagem mais forte quando forjado na batalha onde o aço das espadas conflui e milhares de setas voam a seu lado. Na segunda metade do filme, passa por inepto, afectado que está nas suas convicções e enleado na atracção proibida por Yi Yue. A discórdia passa a seu lado, indiferente. Chega a uma altura em que o exagero, se torna cansativo. As tramóias são detectadas a quilómetros de distância e as afeições de Yi Yue distraem daquele que devia ser o foco principal do filme. Também as cenas de combate alternam em qualidade. Apesar de existir espaço para manobras extremamente inteligentes e bem transmitidas pela câmara de Jacob Cheung, que até nos fazem pensar que Liang se calhar até tem alguma hipótese, as imagens geradas por computador deixam algo a desejar. Ademais, as cenas ocorridas durante a noite, para quem não tiver visão nocturna… Não há milagres.

Heróis da Guerra demonstra pois as divisões internas, gerados pelos homens de poder e por espiões, ao mesmo tempo que se combate uma força exterior, pronta a esmagar qualquer ímpeto de resistência. Onde reside o mal no homem? Em que lado está o mal em época de grande aflição? O inimigo pode estar mais próximo do que se pode pensar. Ele pode estar entre nós.

6/10

Ficha Técnica:

Título Original: Mo gong

Realizador: Jacob Cheung

Argumentista: Jacob Cheung

Elenco: Andy Lau, Wang Zhinwen, Wu Ma, Chin Siu-ho, Sung-kee Ahn, Si-won Choi e Fan Bingbing

Género: Acção, Drama, Aventura

Duração: 133 minutos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.