Pejada do lânguido saudosismo luso, A Naifa foi ao CCC (Centro Cultural e de Congressos) de Caldas da Rainha, no passado sábado, para apresentar o seu mais recente trabalho, o umbrático Não se deitam comigo corações obedientes, e a nova formação, com Sandra Baptista, no baixo, e Samuel Palitos, na bateria.

Perante uma sala agradavelmente composta, um copo meio cheio, talvez por ser a segunda vez que brindam os caldenses com a sua visita, talvez pelo custo pouco convidativo do ingresso, o colectivo fundado por Aguardela, que miscigena o indie electrónico com a melancolia cativante do imaginário tradicional, arrebatou, candidamente, os presentes, muito mais uma partilha da intimidade do que uma obrigatória formalidade.

Munidos de um soberbo efeito de luz e cores, que acentuou, largamente, a ambiência envolvente da banda, abriram as comportas da nostalgia com Uma Falha no Programa, seguindo-se Émulos, ambas faixas constituintes da nova gravação, ambos poemas de Margarida Vale de Gato, sendo de exultar, também, Cat People, que arrancou alguns sorrisos sórdidos aos mais incautos.

Após apresentação peremptória, o revivalismo substituiu o inédito, revisitando lugares comuns da banda, como Dona de muitas casas ou Filha de duas mães, do álbum Uma Inocente Inclinação Para o Mal, entoados tanto por Maria Antónia Mendes, que estava “feliz por se encontrar no meio de tantos beijinhos e gente bonita”, como pelo público que, apesar de pouco dialogante, permaneceu sempre atento às didascálias, aplaudindo, efusivo.

Fora do repertório habitual, uma dedicatória a João Aguardela, sob a forma de Amália, arranjado o tema Libertação para uma guitarra, um baixo e uma lágrima. A noite continuou densa, com os antigos Skipping e Música, sem esquecer o célebre Monotone. Entre as investidas do passado, mais espaço para demonstrar o novo rosto, maturo, do projecto nascido em 2004, ouvindo-se Aniversário ou De cara a la Pared, o primeiro de quatro encores, contando, ainda, com um remake da canção Subida aos Céus, dos Três Tristes Tigres, e, para finalizar, Señoritas, já com todos de pé, em êxtase.

O cadenciar embriagante da guitarra portuguesa, mergulhada na objectividade crua do pop alternativo não tem lugar numa sala fechada, de lugares sentados, merece ser ouvida de braços no ar, em pé, a falar alto e aos pulos. No entanto, a hipnose das luzes e o transe rítmico d’A Naifa fazem brotar a mais verdadeira melancolia lusitana, dos bairros inóspitos de Alfama, do copo de três, da sardinha na brasa. Porque a palavra saudade só existe em português.

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945