O humor diferenciado tem sido uma aposta das últimas grelhas da RTP. Os mais recentes sucessos serão o 5 para a Meia Noite, que regressa em breve, e O Último a Sair, formato totalmente inovador na televisão portuguesa e além fronteiras. Esta noite, o humor voltou ao ecrã do serviço público e, embora não num formato especialmente original, veio preencher a falta de momentos de stand up que se faz sentir na televisão em português.

Programas televisivos com público ao vivo e números de stand up não são novos. Já os vimos na SIC, com Levanta-te e Ri, que lançou alguns dos nomes que hoje associamos ao humor. Vimos na RTP2, com Sempre em Pé, de Luís Filipe Borges. Mas já não víamos há muito tempo, e a falta de uma certa resistência, como a que é precisa para usar a passadeira que esteve sempre em palco na 1ª Maratona de Humor, fez-se sentir. Alguns dos nomes que já estamos habituados a ver. Os temas que estamos habituados a ouvir. Os alvos que, de tanto serem abatidos, já nem sequer estão vivos. Onde está a elasticidade do humor em português?

A iniciativa isolada de uma programa assim é uma boa ideia do canal público. Seria uma excelente ideia se não fosse isolada. Um programa idêntico mas com continuidade iria beneficiar certamente de uma maior qualidade dos textos e das actuações e da presença de nomes maiores da área. Sobretudo estimularia a dinâmica do stand up em Portugal, que parece não ter poiso certo.

Não se pode dizer que tenha sido um manjar de graça, este programa. Teve os seus momentos. Nilton e Óscar Branco voltaram a falar-nos dos portugueses – não me lembro de ter ouvido piadas sobre isto -, vários recorreram ao escatológico e visceral – porque é que cócó põe as pessoas a rir?

Dizer que foi mau é exagerar. Há o bom trabalho de António Raminhos, João Seabra e a surpresa de Marta Gautier, que sabem que o stand up é texto e presença. Há uma aura que é preciso captar. Os seus textos contínuos possibilitam a empatia com o público, os outros, são piadas mais ou menos iluminadas que tanto se podem contar de seguida num auditório como se contam no elevador, entre o 1º e o 5º andar, aos vizinhos com quem o tópico meteorológico já não resulta.

Nalgumas das actuações da noite é impressionante o trabalho de preparação da actuação. O texto não é a actuação e, Marta Gautier, estreante recente no humor, aproveita-se disso. As variações de tom de voz, a linguagem corporal são um bom exemplo (considerado por muitos exagerado) dos limites que não têm necessariamente que existir num momento de stand up.

Novos talentos em cima de uma passadeira: não foi péssimo. Portugal não tem um circuito de stand up, não tem, em quantidade, locais onde se possa assistir com frequência a monólogos com graça e com a pressão de um público presente, como têm outros países onde este género mantém maior tradição. A realidade é que este falta em quantidade afecta a qualidade daquilo a que se assiste e, pior, premeia os pântanos de águas estagnadas: são sempre os mesmos. É pena que, sem sítios onde se possa começar e amadurecer textos, timings e empatia com o público, as primeiras experiências de muitos sejam televisivas. O estilo revisteiro e as piadas com nível incomodativo alteram sim a expressão facial, mas não é de riso que estou a falar. Há actuações que desenvolvem o sentimento de vergonha alheia e a imagem da boca aberta de incredulidade.

A 1ª Maratona de Humor quase bateu o record de Carlos Lopes. É continuar a treinar.

* Texto ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico por opção do Autor