Os Supernada, banda de Manel Cruz criada em 2002, apresentaram quinta-feira, no Lux, o seu primeiro álbum, Nada é Possível. A nostalgia que envolve o artista e todas as suas criações foi quase sempre substituída pela virilidade e pujança, com o público a prestar culto desde início.

O mito é o [super]nada que é tudo”. Aqui encontramo-nos com o verdadeiro génio de Manel Cruz. É impossível não fazer notar os fragmentos de Ornatos Violeta, Pluto ou Foge Foge Bandido que se alojam em Supernada – desde o futurismo, ao papel determinante dos sintetizadores e às inigualáveis voz, expressões e letras -, mas é inexplicável como, depois de tanto sumo que Manel Cruz já nos deu a beber, nos consegue sempre surpreender com rasgos inéditos de originalidade. As células cerebrais de Manel, está provado, renovam-se e multiplicam-se. E perduram.

Os bilhetes para o concerto foram reservados para quem adquirisse o álbum, em pré-venda exclusiva na Fnac. Não foi só pela “dimensão” da banda que a aposta – comum nos últimos meses – foi ganha, mas principalmente pelo valor simbólico que conseguiu acrescentar ao fazer acompanhar Nada é Possível de um livro ilustrado com fotografias, que, diga-se, é digno de colecionador. A fila de espera à porta é conclusiva.

Pouco depois das onze, quando a ansiedade já era demasiado evidente, a banda entra finalmente em palco. Ovo de Silêncio foi a primeira do alinhamento, mas foi Animais à Solta que rasgou com o protocolo e deu o mote inicial para uma noite de compasso acelerado e, por vezes, eletrizante. O experimentalismo tão característico de todos os projetos com o cunho de Manel Cruz sobressaiu a espaços, por exemplo na conhecida Sopa de Pedra, na qual este encosta um gravador ao microfone.

No final de Perigo de Explosão dá-se um dos momentos mais altos do concerto: a voz ao megafone dá a contagem final e a guitarra de Ruca acaba por explodir numa inconstância de sons desconcertantes. Aí o teclado e os sintetizadores provaram-se como peças vitais num projeto deste calibre, marcando o crescente de distorção que marca o álbum e se evidenciou no concerto.

As investidas “pornográficas” do público foram insistentes e duravam desde o início. O tronco nu de Manel Cruz é cliché mas sempre marcante, porque assinala o fim definitivo de qualquer réstia de cerimónia que possa existir em palco e catapulta toda a atmosfera da sala para momentos ininterruptos de êxtase. Entre várias manifestações de descontrolo do público, sempre retorquidas com classe e simpatia pela banda, foi protagonista a “Ó Manel, és do caralho!”, com direito a hat-trick e fortes palmas de concordância. E um forte abraço no final ao autor das interjeições.

O single Arte Quis Ser Vida, que tem rodado com frequência nas rádios, despertou obviamente muita exultação, só suplantada em Anedota, tema antigo que faz parte do leque de “hinos” de Supernada – momento em que  o vigor se confundiu com raiva e através dos poros se descomprimiu a alma. Letras Loucas termina o concerto. Para o encore, esperávamos mais algumas três ou quatro músicas, e de facto a noite merecia mais alguma Espuma – foi esta a única antes do adeus definitivo. É normal que o tempo pareça passar rápido demais em concertos deste nível.

Apesar da personalidade de um dos vultos mais importantes da música portuguesa merecer, invariavelmente, destaque, o concerto de ontem valeu essencialmente pelo entrosamento orquestral da banda: Ruca na guitarra, Eurico Amorim a tomar conta do teclado e do sintetizador, Francisco Fonseca na bateria e Miguel Ramos no baixo. Manel Cruz desdobrou-se entre a pandeireta, o gravador, o megafone e o kazoo, e chegou mesmo a acompanhar o baterista, mas é na sua pose apoteótica a segurar o microfone e o fio com o braço em riste que nos rendemos por completo.

Ficaram por tocar temas antigos como Novos Planos para Fugir, Irreal ou Tem Andado Gente à Tua Procura. Foi uma profunda desilusão não poder acompanhar Manel Cruz a cantar as três incontornáveis e arrebatadoras músicas, mas percebeu-se a opção clara da banda: em vez de ganharem, de forma fácil, a noite com estes três diamantes, preferiram tentar conquistar-nos com material novo, deixando-nos a matutar sobre a Perigo de Explosão ou Animais à Solta. Com uma lágrima no canto do olho pela falta de cereja no topo do bolo, compreendemos a decisão.

Texto por Francisco Morgado Gomes e Pedro Pereira
Fotos por Rita Sousa Vieira