Depois de A Cara que Mereces, e sobretudo depois de O Meu Querido Mês de Agosto, que lhe granjeou admiração aquém e além-fronteiras, Miguel Gomes apresenta Tabu, a sua terceira longa-metragem, uma película que, sem a pretensão historicista de recontar o passado colonial português, acaba por reproduzir com acuidade a vida numa certa ideia de sociedade que não mais existe.

Tabu é um filme dividido em duas partes. Na primeira, a câmara de Miguel Gomes vai saltitando entre as mundividências de duas vizinhas num prédio lisboeta, Pilar (Teresa Madruga) e Aurora (Laura Soveral e Ana Moreira), e da criada negra desta, Santa (Isabel Cardoso). A relação entre as duas mulheres adensa-se aos poucos, na medida certa do comportamento de Aurora, conduzido pelas consequências psicológicas de uma atormentada história pessoal. Mas se Aurora é o centro da história, Pilar é a chave. Mulher simples e de temperamento calmo, preenche a sua vida com acções caritativas e de envolvimento em causas sociais, com as quais combate os seus medos e a sua funesta solidão.

Aurora reconhece essas qualidades em Pilar e toma-a por pessoa da sua confiança, transformando-a numa válvula de escape de Santa, cuja empedernida mentalidade acaba por obstaculizar a relação entre ambas. Aurora encerra em si as memórias de um passado distante, de um passado desligado da realidade de um prédio suburbano da capital, metamorfoseado num presente que os seus sonhos teimam em ofuscar, conduzindo-a aos poucos ao delírio e, finalmente, à morte.

É na segunda parte da sua obra que Tabu mais inova. Toda ela é narrada pelo grande amor (amor adúltero) da vida de Aurora, Gianluca Ventura (Carloto Cotta e Henrique Espírito Santo), nela não havendo espaço nem para uma palavra em diálogo. Como um livro cheio de pó esquecido no cimo de uma estante intangível, Tabu faz gala ao dissecar a atormentada memória de Aurora, num recuo com meio século que inadvertidamente nos transporta para um outro mundo. Para todo um mundo com regras próprias, para uma sociedade ferreamente hierarquizada, costumeira, dona e senhora do seu próprio ritmo. E, no meio de tudo isto, o classicismo de uma história de amor, sabiamente contada, assomada a partir do preto e branco da tela, mas colorida na mente de cada um de nós.

A fase complementar do filme surge reconfortante na forma, nela pairando todavia uma permanente e inextricável aura de tragédia, um epílogo que se adivinha triste e nebuloso desde o início. Afinal de contas, qual fado português, ou não fosse este também um olhar sobre um tipo de sociedade que permanece marcante para o imaginário colectivo nacional e cujas feridas não fecharam ainda totalmente.

Tabu é um objecto envolvente, indubitável merecedor das distinções internacionais que tem recebido: na última edição da Berlinale foi escolhido para o prémio FIPRESCI e para o prémio Alfred Bauer para filme mais inovador, e foi esta semana galardoado com o prémio Lady Harimaguada de Prata e com o Prémio do Público no Festival de Las Palmas. Não surpreende se mais vierem a caminho.

7.5/10

Ficha Técnica:

Título original: Tabu

Realizado por: Miguel Gomes

Escrito por: Miguel Gomes e Mariana Cardoso

Elenco: Teresa Madruga, Laura Soveral, Ana Moreira, Henrique Espírito Santo, Carloto Cotta

Género: Drama

Duração: 118 minutos

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.