Alheios a compromissos, exsurgem-se no seio de músicas asfixiadas numa complexa e diversa instrumentalidade. Criando uma fusão agreste e suave de géneros musicais, chegam-nos aos ouvidos de uma forma pouco basilar, demonstrando-nos todo o seu talento.

Nascidos em Lisboa, em inícios de 2003, os Mob Of God começaram por ser um projecto musical composto por quatro elementos. O, então, quarteto, composto por Nuno Tavares [guitarrista e 2ª voz], Ricardo Penedo [teclas], Pedro Torradas [baixo] e Bruno Gaspar [bateria], começou por juntar-se pontualmente, sem qualquer tipo de compromisso, por mero hobbie, para tocar para amigos, familiares e afins. Assim se estagnou a sua filosofia durante cinco anos, data em que a actual vocalista, Maria João Oliveira, chega ao grupo lisboeta.

Apesar de, ao fim de cinco anos de existência, não terem alimentado grandes ambições, o quarteto foi acumulando ideias e compondo algumas músicas. A chegada do novo elemento à banda acrescentou aquilo que lhes faltava para poder elevar a fasquia, acrescentando-lhes uma componente vocal bastante instruída. De facto, a voz de Maria João Oliveira é repleta de sensualidade e tem um timbre bastante próprio. Embelezando bastante as paisagens com que os Mob Of God poderiam sonhar, começou-se a esmiuçar a possibilidade de se edificar o primeiro EP do quinteto, aproveitando, para isso, já algum material que a banda foi produzindo ao longo da sua existência. Pode-se mesmo dizer que foi a chegada de Maria que impulsionou a banda para que esta atingisse o que conseguiu hoje.

Após, aproximadamente, um ano e meio a escrutinar acerca do lançamento do registo, eis que surge Zero Uno. O primeiro registo da banda parte, quase todo ele, da génese lírica de Maria. Contendo sete faixas, todas elas originais dos Mob Of God, o EP, que data de Novembro de 2010, traz-nos, a cada nota tocada, a cada palavra cuspida, a história de cada um dos elementos da banda.

 

Zero Uno é condimentado em duas línguas: língua portuguesa e língua inglesa. Pautado por um lirismo que vai alternando entre a língua camoniana e a língua de Shakespeare, o registo, é envolto duma sonoridade bastante única. Trespassando ao ouvinte a ideia de que a música não deve ser limitada por quaisquer fronteiras, este EP consegui fazer vincar o seu som como uma fonte de mensagens, sentimento, variedade, reflexão e, acima de tudo, de talento. Apologistas de que cada pessoa tem a sua própria interpretação do belo, fazem despertar emoções diferentes em cada ouvinte, não havendo, por isso, a possibilidade de avaliar com muito objectivamente cada peça musical que nos invade os tímpanos.

Cheio de desavenças com o passado, de maravilhas constatadas no presente e do incógnito presente que o futuro nos ditará, Zero Uno conta-nos, a cada faixa, uma história. História, essa, vivida por cada um dos elementos do quinteto. Trata-se de um puzzle musical de sete peças que é montado pelos elementos dos Mob Of God.

Nascendo num rio imerso de ruídos sentimentalistas, sob uma paisagem suave e calma, Zero Uno acaba por desaguar num oceano sonoro fustigado por ventos tempestuosos que se desmedem a cada palavra que é cuspida. A verdade é que o grupo lisboeta pretendia causar sensação e demonstrar pitada do seu brio já com o lançamento deste seu primeiro EP, mas acabou, em meu ver, por conseguir alcançar mais do que isso.

Deambulando-se por inúmeras influências de géneros musicais, torna-se quase impossível definir o estilo musical com que este registo é arquitectado. Influências que vão de A a Z demonstram o quão eclética consegue ser a banda e quão refinado é o seu conhecimento musical. É, a meu ver, este aspecto que cimenta os Mob Of God como uma banda digna de realce e que merece ter mais exposição do que aquela que lhe é conferida. Pintando-se paisagens musicais que elevam o ouvinte a sentir-se longe de tudo o que tenha ouvido até àquele momento, criam-se fusões entre fado e metal, entre 60’s e 70’s e, sobretudo, cria-se uma atmosfera que nos invade com o pesar dos 90’s (isto sem esquecer passagens pelo jazz, pela soul, pelo grunge, pelo rock alternativo e muito mais).

Maria João Oliveira, sempre com uma voz muito elegante e sensual, canta com acérrimo sentimental cada vocativo, ao som, quase sempre, de uma bateria que se destaca na génese instrumental. Com uma linha de baixo sempre a agradável, a voz de Maria é enfatizada na faixa inicial do registo, a calmíssima e bela Lust Condemns. Contando com pequenos tesouros sonoros como Lion Of Judah, que é, a par de El Sueño, uma das faixas mais antigas da banda, tendo sido a sua composição ainda nos tempos pré-Maria (isto embora posteriormente Maria tenha alterado alguns versos das composições líricas), Zero Uno toma rumos mais obscuros e mórbidos com a «pesada» El Sueño, uma música onde é evidenciado claramente as influências mais pesadas, as influências metal. Contanto com mais de sete minutos, os próprios Mob Of God dizem que foi a música mais complicada de gravar em estúdio, devido à sua complexidade. De facto, trata-se de um arrojo musical que é envolto de algumas artimanhas que tornam a sua audição mais padronizada, é, em meu ver, a música mais complicada de se ouvir do quinteto lisboeta. Do ponto de vista lírico, o clímax do álbum é, na língua de Shakespeare, He spoke from a tree. Uma música que é condimentada com um lirismo absolutamente soberbo, com versos como «And he spoke from a tree ; “shiver for me, shiver for me” ; The crowd spoke from above ; “Shiver for what? Shiver for what?” ; Our guidance is driving all us insane ; “We all got your back, we just can’t your name» a servir de mote.

Contendo cinco faixas em inglês, o registo é (ainda mais) embelezado por duas músicas em língua portuguesa. São, elas, Ao passar e Fuga em nós. Com um registo musical intimamente aproximado ao fado, ambas retratam o lado mais calmo e introspectivo dos Mob Of God. Talvez tenha sido por isso que tenham enveredado por cantar na língua de Camões, pelo sentimento que banha as músicas. A música não é uma coisa estática, varia consoante o estado de espírito dos artistas. Acerbados por uma certa nostalgia, evidente nas composições líricas, decidiram saudar, por isso, o «blues português». Composições líricas bastante elaboradas acabam por funcionar muito bem com uma sonoridade, uma vez mais, bastante própria. Apesar de todo o sentimento e características do fado estarem lá, o quinteto decidiu conferir uma paisagem em parte inóspita às suas músicas, exemplo maior disso será a Ao Passar. Fuga em nós é, talvez, a música de todo o álbum que é menos conseguida, isto, visando a componente vocal. Quando Maria tem de prolongar a sua nota vocal, o som aparece-nos algo estranho, talvez devido à produção do registo, que não foi das melhores. Contudo, trata-se de um bom momento musical.

Zero Uno acaba por ser uma pérola (das grandes) no panorama musical português, e quem o ouve sente inteiramente isso.

Já este ano, os Mob Of God disseram estar a investir num novo projecto musical. Com este Zero Uno a servir de presságio, é expectável que se fique já à partida com água na boca. Continuando a produzir músicas avulsas como The Wreckage, continuamos na ânsia da espera que nasça o irmão de Zero Uno.

 httpv://www.youtube.com/watch?v=-DxMEwjhbHE