A exposição do BESphoto 2012 está patente no Museu Berardo desde 14 de março, decorrendo até ao dia 27 de abril. A mostra exibe obras inéditas dos fotógrafos Duarte Amaral Netto, Mauro Pinto, Rosângela Rennó e o coletivo Cia de Foto, os quais foram selecionados para participar na 8ª edição do Prémio BESphoto 2012 que distingue artistas dedicados à fotografia. Desde a 7ª edição (2011), a iniciativa passou a contemplar criadores de toda a comunidade lusófona.

Da autoria do português Duarte Amaral Netto (n. 1976), a série Z (2012) foi inspirada num conjunto de negativos de um parente que, no início da década de 30, viajara à Alemanha para fazer um curso de planador. A partir deles e alterando a datação da ocorrência de modo a fazê-la coincidir com o despoletar da Segunda Guerra Mundial, Netto forjou a história de Z, um português que fica retido na Alemanha, durante os primeiros meses do conflito. As fotografias documentam a vida fictícia de Z neste período e a narrativa engendrada predispõe o olhar do espetador perante as mesmas; a sua interpretação depende e procede do texto que as introduz (a mera referência à guerra ativa uma série de imagens e memórias, mesmo que tenham sido mediadas por documentários, filmes ou livros). Duarte Amaral Netto explora, neste trabalho, a fotografia enquanto médium que detém o poder de construir realidades alternativas.

Natural em Moçambique, Mauro Pinto (n. 1974) apresenta o conjunto Dá licença (2012), cujas fotografias resultam de um projeto desenvolvido no Bairro da Mafalala, em Maputo, onde viveram pessoas que lutaram pela independência daquele país. Os singulares e coloridos interiores das casas são captados de ângulos semelhantes e encontram-se inabitados, de modo a enfatizar o carácter antropológico e analítico do trabalho e, consequentemente, a imparcialidade do fotógrafo. Donde o título Dá licença, expressão utilizada por quem pede para entrar no espaço íntimo de uma família, do qual restam apenas a mobília e os diversos objetos; contudo, os mesmos não deixam de nos contar algo sobre a vida daquelas pessoas.

Surgido em 2003, o coletivo brasileiro Cia de Foto expõe Agora (2011), uma série que reflete sobre a luz e a sombra, polos fundamentais da fotografia e aqui moldados pela paisagem, pela arquitetura ou pela posterior edição. Se a claridade oferece possibilidades de significação, também a escuridão conserva essa faculdade; da mesma forma, em Agora as figuras não são captadas em movimento, mas, pelo contrário, numa ação suspensa, desde a cortina na janela aberta às pessoas sentadas num banco de jardim. Os indivíduos encontram-se num estado de absorção e parecem estar à espera de alguma coisa ou de alguém.

A brasileira Rosângela Rennó (n. 1962) concebeu o conjunto Lanterna Mágica (2012), constituído por fotografias antigas de florestas tropicais e de navios, bem como por quatro projetores do final do século XIX e início do século XX. Em todas as imagens surge uma marca circular a negro, ao centro, consequência do uso de uma fonte de luz intensa por parte de Rennó. Por outro lado, o título da série alude à origem arqueológica do cinema; o próprio nome da máquina transporta-nos para o encantamento que a mesma suscitava aquando da sua invenção. Desta forma, a fotógrafa pretende chamar a atenção para as vertentes fantástica ou “fantasmagórica” (ao invés da documental) e estranha (em vez de banal) da fotografia e do cinema que atualmente enfrentam um momento crítico, em virtude da sua democratização.

O espaço expositivo divide-se em quatro salas, cada uma das quais é dedicada à obra de um fotógrafo e, dessa forma, reflete os respetivos propósitos. Neste sentido, destaca-se a sala em que é mostrada a série de Mauro Pinto, onde as fotografias estão dispostas em “caixas” negras que lhes conferem destaque visual e a luz incide de forma pouco usual.

Através destas obras inéditas, os quatro candidatos ao Prémio BESphoto 2012 demonstraram a capacidade de questionar a fotografia enquanto atividade que oscila entre o testemunho e a arte e como meio crescentemente sofisticado, graças aos avanços da tecnologia. Por outro lado, os mesmos lograram a exploração de um potencial ilusionista que lhe é inerente até à contemporaneidade.

 

“como pode um piscar de dia

fragma

na noite

condensar assim

a vida?”

Arnaldo Antunes