Wuxia é um género literário e cinematográfico que mistura fantasia e artes marciais. Wu significa “marcial” ou “militar” e xia, significa “honrado” ou “herói”. Com uma origem que se perde no tempo, as histórias Wuxia contam as lendas de guerreiros de artes marciais, que com um grande sentido de honra, muito estudo e supressão dos seus próprios sentimentos em nome de um bem superior, conseguem ultrapassar todas as adversidades. Heróis de Outrora, Heróis de Agora é uma retrospectiva cinematográfica de como o século XXI (2000-2010), foi repescar estas estórias milenares e as actualizou aos dias de hoje, sem desprezar os seus antigos valores.

A Batalha de Red Cliff baseia-se num acontecimento real, a batalha dos rochedos vermelhos ou a batalha de Chi bi que sucedeu entre 208 e 209 D.C., quando a Dinastia Han dava o seu último fôlego. Esta batalha foi essencial para a história chinesa pois antecede imediatamente o período dos três reinos, que dividiu a China antiga num Estado do Norte Wei e os estados do sul Shu Han e Wu a leste. A batalha histórica está imortalizada no Romance dos Três Reinos, um relato parte histórico, parte ficcional, que é considerada uma das quatro grandes obras literárias clássicas da China escritas entre os séculos XIV e XVIII. As outras três obras: Water Margin (Shui hu Zhuan), Journey to the west (Xī yóu jì) e Dream of Red Chamber (Hóng lóu mèng), também têm sido sistematicamente alvo de adaptações para séries de televisão e para a tela.

Em 2011, foi anunciado que Neil Gaiman estaria a preparar o argumento de Journey to the West, com James Cameron como consultor, num projecto de 300 milhões de dólares. No entanto, é o relato da batalha épica em Red Cliff, cuja geografia é hoje um mistério, sabendo-se apenas que a batalha foi travada algures no banco do rio Yangtse, que tem sido alvo de maior número de adaptações cinematográficas. Apenas no novo milénio podem ser citados, por exemplo, The Lost Bladesman, com o mestre de wushu Donnie Yen e Os Três Reinos: O Renascer do Dragão, com outra grande estrela asiática, Andy Lau. A história deste evento é tão rica e os seus personagens tão emblemáticos que dava para fazer um novo filme sobre cada um deles e, mesmo assim, ainda existiriam outros temas por explorar: camaradagem, lealdade, traição, estratégia bélica, formar de alianças, romances proibidos, casamentos arranjados…

Com um orçamento de 80 milhões de dólares, A Batalha de Red Cliff, foi à data o filme mais caro de sempre na China. Este filme, realizado por John Woo compreende 280 minutos de película, cortada em duas partes, que estrearam em 2008 e 2009, rendendo, aproximadamente 250 milhões de dólares por toda a Ásia.

A Batalha de Red Cliff  inicia-se com o Primeiro-ministro Cao Cao (Fengyi Zhang) a convencer o jovem e fraco Imperador Xian (Wang Ning) a ceder-lhe o controlo dos exércitos para combater os rebeldes estados do sul. Depois de sucessivas campanhas militares no norte do país, Cao Cao está determinado a conquistar os reinos do sul e assim granjear o poder absoluto sobre toda a China. Os seus argumentos constituem um logro, pois nem Liu Bei (Yong You), governante do Estado de Shu Han nem Su Quan (Chen Chang) do Estado de Wu, têm qualquer plano para derrubar o imperador do estado norte. No entanto, são parentes distantes de Xian e podem, como tal, um dia reivindicar o trono, pelo que Cao Cao se apressa a manipular o jovem impressionável a ceder-lhe o poder do maior exército alguma vez visto. Cao Cao reúne, após sucessivos êxitos militares, um exército de centenas de milhar que pode mesmo ascender aos 800 mil homens, por entre os seus próprios soldados e de outros territórios que se renderam ao seu jugo. Liu Bei é o primeiro a ser atacado e após um primeiro golpe devastador compreende, com a ajuda do seu principal estratega Zhuge Liang (Takeshi Kaneshiro), que o único modo de impedir o sucesso absoluto de Cao Cao é aliar-se ao outro líder no sul, Zu Quan.

A Batalha de Red Cliff é o clímax de uma longa, intrincada estória de sucessão pela China. John Woo perde a urgência que se lhe conheceu em títulos iniciais e apresenta uma estória com um bom ritmo, sem pressas. Uma das críticas que se podem apresentar a filmes anteriores como The Lost Bladesman, ainda que este tenha por foco o herói Guan Yu, é a assunção de que o público conhece o tema. Em A Batalha de Red Cliff as personagens vão seguindo-se no ecrã, sendo convenientemente apresentadas, o que deixa uma margem menor para que nos percamos na narrativa. O filme tem muito pouco de realidade mas apresenta as personagens icónicas de Romance dos Três Reinos, que ajudam a explicar grande parte da popularidade do filme.

Tony Leung Chiu Wai, como o vice-rei Zhou Yu, apenas surge mais de metade do filme decorrida mas é a sua estrela. Zhou You é um homem muito especial, esposo da mulher mais bela de toda a China Xiao Qiao, muito bem representada pela graciosa modelo Chiling Li. Um mestre estratega, um excelente espadachim, um virtuoso da música. Há algo que ele não saiba fazer? Ele é tão-somente, uma das peças vitais da trama. Ele tem o poder de convencer o seu rei, o jovem Sun Quan a aliar-se a Liu Bei e formar um exército numa missão suicida contra os 800 mil soldados de Cao Cao. Por sua vez, Zhuge Liang (Takeshi Kaneshiro), tem a aparência de um jovem mas o conhecimento comparável ao de um velho militar. A sua percepção das pessoas que o rodeiam é a essência do seu encantamento. Ele entende claramente como deverá manipular as peças do jogo para que estas efectuem os movimentos a que se propõe. Depois temos o desfilar de personagens fascinantes como Gan Xing (Shidô Nakamura), um ex-pirata com menor apreço pela disciplina mas, não obstante, um excelente guerreiro; Guan You (Ba Sen Zha Bu) um dos melhores combatentes que alguma vez viveram e que criou a arma Guan Dao, uma espécie de lança com uma lâmina similar a uma meia-lua e Zhao Yun (Jun Hu), um general com um sentido de lealdade inquestionável.

A Batalha de Red Cliff é um somatório de tudo o que é John Woo. Temos temas recorrentes como a lealdade e a camaradagem masculina, esta última sempre amplificada pelo realizador. Em quase todos os seus filmes existe um bromance, uma amizade masculina bastante intensa que roça quase o homoerótico. Note-se a cena em que Zhou Yu e Zhuge Liang, iniciam uma competição musical entre si, as personagens que os rodeiam cessam de existir, são os rostos de Leung e Kaneshiro que persistem no ecrã, numa luta de vontades. Esta questão é retomada noutras cenas como a do nascimento de um potro ou a da fazedura de sandálias. Um homem só é fraco mas quando se une, num espirito de camaradagem e confiança a outros, torna-se imbatível. Outros apontamentos incluem a utilização de pombas brancas, que Woo já utilizou em filmes anteriores como Missão Impossível II e A Outra Face, como simbolismo da alma a deixar o corpo, a pureza e a esperança. Além disso, temos oportunidade de ver os close-ups tão queridos do cinema americano, a coreografia das cenas de combate, efeitos de câmara lenta e a utilização de imagens digitais inseridas em pós-produção sobre um cenário verde para completar a imagem que vemos no ecrã. As suas mulheres também são fortes, Zhao Wei, uma das melhores actrizes chinesas, é uma Sun Shangxiang forte e obstinada e Chiling Lin, interpreta uma Xiao Qiao pura, mas com todo o poder para manobrar um homem a seu belo prazer. Conquanto a cinematografia de Yue Lu e Li Zhang não seja comparável à do início do milénio, da qual o expoente máximo se pode encontrar nas obras wuxia de Zhang Yimou, em A Batalha de Red Cliff o pigmento não é indispensável para se contar a estória. A complementar uma narrativa equilibrada está o elenco internacional de grande qualidade, que inclui actores chineses, taiwaneses, japoneses e mongóis. A câmara tira bastante partido da presença de Tony Leung e Takeshi Kaneshiro, dois actores mais do que estabelecidos e sex symbols asiáticos, sendo que o argumento reúne bastantes ocasiões para uma reunião tão escaldante.

A Batalha de Red Cliff é um prelúdio para o grande confronto reservado para o final deste épico. Após diversos testes de Cao Cao, em termos de estratégia militar e simples exibições de força, que no início conseguem rechaçar os heróis, A Batalha de Red Cliff termina num impasse. Encurralados em Red Cliff, Zhou Yu e Zhuge Liang debatem, (a câmara bruxuleia alternando pelos rostos), o seu destino. Atrás de si, poucos milhares de homens. À sua frente, no grande Yangtse, a maior força bélica alguma vez vista. Poderão almejar ter a esperança de vencer tal número de homens? Se conseguirem vencer, que equilíbrio para uma aliança forjada num período de guerra? Enquanto fitam o horizonte, existe uma única certeza. A batalha por Red Cliff, ainda mal se iniciou.

7/10


Ficha Técnica:
Título Original: Chi Bi
Realizador: John Woo
Argumentista: John Woo, Khan Chan, Cheng Kuo e Heyu Sheng
Elenco: Tony Leung Chiu Wai, Takeshi Kaneshiro, Fengyi Zhang, Chen Chang, Zhao Wei, Jun Hu, Shidô Nakamura, Chiling Lin, Yong You, Wang Ning e Ba Sen Zha Bu
Género: Acção, Drama, Aventura
Duração: 140 minutos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.