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A Morte da Revolução

É uma das maiores produções teatrais dos últimos tempos e reúne em palco 44 atores, encenados pelo consagrado Jorge Silva Melo.

A revolução francesa em palco é o que nos traz A Morte de Danton, uma coprodução entre os Artistas Unidos, Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura e o Teatro Nacional D. Maria II, no qual se encontra em cena até 22 de abril na Sala Garrett.

Várias cadeiras e mesas espalham-se pelo palco, criando um cenário que se metamorfoseia ao longo da ação. A luz é tímida ao longo de todo o espetáculo. O escuro impera. Começa a dança dos corpos que envergam sobretudos. Estamos perante uma revolução sem fim à vista.

Danton, um revolucionário considerado excessivamente moderado, é substituído por Robespierre, notoriamente defensor radical da igualdade entre todos os homens e da extinção de classes. Para O Incorruptível e para Saint-Just, afundar a França em sangue é uma opção a tomar para garantir a virtude desejada. Rolem as cabeças que tiverem de ser no caminho de transição entre a revolução e a república.

Danton é um dos nomes dessa revolução que devora os próprios filhos. Ele que se debateu pela igualdade, liberdade e fraternidade, vê-se agora apontado por Robespierre e Saint-Just como um traidor da pátria. Danton terá de morrer para que a revolução se cumpra.

Na multidão que avança, o que para é um obstáculo. Danton é agora encarado como esse obstáculo pelos radicais. Ele que está cansado da luta e que necessita de paz. Os ódios e as paixões individuais que não admitem o mais pequeno privilégio abrem guerra contra este, no seu ponto de vista, inimigo interno de França e da república. A sua morte será a salvação da revolução.

A vossa clemência está a assassinar a revolução. Danton, que lutou pela liberdade é agora o sacrificado da sua própria conquista. Acusado de alpinismo social num país e época em que a igualdade extrema era o paradigma dominante. Uma liberdade pela qual lutou e pela qual agora morrerá. Para Danton, descanso e sepultura são a mesma coisa. Por amor à pátria.

Danton é a prova de que quem deixa uma revolução a meio cava o seu túmulo. Matam-no porque têm medo. Colocam-se as dúvidas existenciais sobre a morte e conclui-se que é tão triste morrer. Não serve para nada.

A peça traz-nos um retrato fiel de uma época em que a estátua da liberdade ainda não estava pronta, em que o povo tem fome, em que os ideais chocam de forma violenta. Um retrato da natureza humana levada a uma situação extrema.

Embora a peça funcione como um todo, é importante destacar o trabalho de Miguel Borges, Pedro Gil e Elmano Sancho. Enquanto Danton, Miguel Borges traz-nos uma interpretação sólida com cenas que surpreendem pela intensidade nelas colocadas como a cena da destruição da cadeira. Pedro Gil consegue criar um Robespierre digno do título de O Incorruptível, com grande força nos vários monólogos que transmitem toda a ideologia que defende. Elmano Sancho surpreende com a frieza de Saint-Just, com especial foco para o momento em que defende uma revolução de terror e aponta para a morte dos inimigos da pátria como a única solução.

Falar desta peça e não destacar o trabalho de Jorge Silva Melo seria um erro crasso. A mestria e a experiência conjugam-se na encenação que, apesar dos 44 atores em cena, consegue criar quadros organizados.

A Morte de Danton é uma peça sobre mudança, sobre ideais levados ao extremo, sobre a coragem e a grandeza da alma humana. Considerado um dos clássicos da dramaturgia mundial, o texto assinado por Georg Büchner conjuga história e emoção. Uma homenagem ao teatro.

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