We are all infected“: as palavras que ficam depois do último episódio de The Walking Dead. Desta vez, a expectativa não se mantém apenas mais uma semana. A segunda temporada acabou aqui, com esta perturbadora mensagem, e só teremos notícias dos sobreviventes no próximo outono, na estreia da terceira temporada.

AVISO: o artigo que se segue contém informações reveladoras do enredo da série.

Em retrospetiva, a série cresceu de um modo avassalador nos últimos 13 episódios. Na primeira temporada conhecemos um grupo de personagens tão díspar entre si que se tornava quase automático estereotipá-lo: o chefe, o traidor, o cobarde, a voz da razão ou o assassino de sangue frio; a todos foi atribuído um papel na luta pela sobrevivência. A fuga aos zombies sedentos de carne fresca tornou-se um exercício de resistência onde os mais fortes mantêm uma réstia de humanidade e os mais fracos sucumbem às leis da natureza e aos seus instintos, ficando para trás.

A segunda temporada começa com o desaparecimento de Sophia e a sua busca pelos bosques de Geórgia

Na breve primeira temporada (que contou apenas com seis episódios) o argumento centra-se essencialmente na fuga a um cenário pós-apocalíptico e aos vários passados e segredos escondidos em cada história, em cada vida. Sobretudo, uma fuga à verdade, que a cada passo se torna mais inegável: o  mundo acabou. A esperança esmorece até ao último momento e as expectativas de uma solução para a epidemia fatal são deitadas por terra aquando da chegada do grupo ao Centro de Controlo de Doenças. Ali depressa percebem que nem a fonte do vírus tinha sido identificada, nem a cura estava perto de ser descoberta. E num final fatalista e explosivo, o grupo, ou o que resta dele, prossegue viagem com uma réstia ínfima de esperança de encontrar respostas noutro lugar.

A segunda temporada surpreendeu bastante, pela fórmula que tão bem resultou na primeira ter sido substituída por um intimismo quase sufocante: o grupo encontrou um lugar onde se fixou até ao final da temporada. Em completa oposição à constante fuga do início da história, foi na quinta de um veterinário reformado e amargurado com o que restava do mundo que assistimos ao desabrochar das personagens que já conhecíamos.

Rick Grimes (Andrew Lincoln) trava uma dura batalha para conseguir chefiar o grupo da maneira mais justa possível. Com a constante ameaça à sua autoridade pelo melhor amigo Shane (Jon Bernthal), Rick toma decisões que chegam a colocar a sua vida e a coesão do grupo em risco. Para Shane, a presença de Rick é insuportável, principalmente devido ao triângulo amoroso que se forma em redor dos dois e  de Lori (Sarah Wayne Callies), a mulher de Rick. Toda a tensão explode num final trágico que vem alterar para sempre quem ainda permanece vivo (e que, em rasgos impulsivos, sente que tudo seria mais fácil se estivesse morto).

Na quinta de Hershel (Scott Wilson), o veterinário conservador, novas e velhas personagens vão interagir de forma peculiar. Num primeiro momento, com a chegada de Rick e seus companheiros, a família de Hershel tem um comportamento quase tribal. Há desconfiança e distanciamento. É aqui que percebemos que não foi apenas o número de humanos a ser drasticamente reduzido devido à epidemia. A sociedade e as suas regras entraram em decadência e o desespero para as salvaguardar é substituído pelo conformismo. Já não há lugar para novas relações, pois já não interessa viver, mas apenas sobreviver.

Com o passar do tempo, a familiarização entre todos e a redução do risco da ameaça de mortos-vivos a aproximar-se da quinta, começam a criar-se laços. Afinal, são todos humanos e a luta é comum. Glenn (Steven Yeun), o tímido mas fiel ajudante de Rick, apaixona-se pela filha de Hershel, Maggie (Lauren Cohan). Através desta relação e da cumplicidade criada entre Rick e Hershel, a família acolhe o grupo, que finalmente se vê fortalecido.

Também Dale (Jeffrey DeMunn) fortalece a sua relação paternal com Andrea (Laurie Holden)

Um dos momentos mais surpreendentes da temporada dá-se precisamente no último episódio antes da pausa de emissão da série, entre novembro e fevereiro. Assistir à aniquilação de zombies que se atravessem no caminho dos vivos já se tinha tornado um hábito para o espetador. Afinal, são criaturas horrendas e que de humanas já têm muito pouco. Mas a família de Hershel acredita que um dia esse efeito epidémico possa ser revertido. E, para grande espanto, descobre-se um celeiro onde Hershel guardava mortos-vivos – família, amigos, vizinhos e conhecidos. A partir daqui repensamos todo o cenário que a série nos oferece.

O veterinário invoca Deus nas suas razões para manter uma ameaça tão perigosa tão perto de si e dos seus. Que lugar tem a religião no fim do mundo? Para quem se reza quando a vida se parece tanto com a morte e quem amamos nos surge como criaturas demoníacas? O fio condutor da primeira parte da temporada tem um desenlace pouco consensual, sobretudo pelo destino que a produção atribui a um dos membros mais novos do grupo, Sophia (Madison Lintz).

Rick (Andrew Lincoln) enfrenta um dos muitos momentos decisivos na reconstrução da sua própria personalidade: o polícia heróico enfrenta um dos seus, sendo obrigado a matar Sophia (Madison Lintz)

O final da temporada traz-nos duas premissas para o que vem no outono. A destruição da quinta pela horda de zombies invasora obriga o grupo a prosseguir viagem para rumo incerto. Andrea (Laurie Holden), transformada numa verdadeira arma poderosa contra os walkers, separa-se do grupo na fuga e é salva por uma misteriosa personagem. Esta dá pelo nome de Michonne (interpretada por Danai Gurira na próxima temporada), e podemos encontrá-la na banda-desenhada original, fonte de algumas linhas do argumento da série televisiva. Em entrevista ao canal AMC, Glen Mazzara, produtor executivo, classifica Michonne como “o pior pesadelo de qualquer walker” e promete a construção de uma personagem inesquecível para os espetadores.

A primeira aparição de Michonne, após salvar Andrea do ataque de um walker

Na última cena conseguimos ver ao longe um edifício, nos arredores da floresta onde os sobreviventes se refugiam. Assemelha-se bastante a uma prisão ou forte militar. A pista indica-nos que poderá ter um papel fulcral para o prosseguimento da narrativa, tal como a quinta o teve nesta segunda temporada. O que esconde este sítio? Mais importante, quem esconde este sítio? Walkers encarcerados ou sobreviventes que não olharão a meios para se manter vivos?

O mês de outubro irá trazer a resposta a várias questões. Conseguirá Rick manter a coesão do grupo depois de ter guardado para si que todos estavam infetados com o vírus que assolou o planeta? Como irá Lori conseguir sobreviver com a gravidez? Será que Andrea voltará a reunir-se com o grupo?

Os que ficam vivos enterram amigos, família e vizinhos, num cenário cada vez mais frequente

A season 3 promete. Com o sucesso da série, a AMC decidiu estendê-la para 16 episódios, dando espaço à produção para desenvolver diversas narrativas. No capítulo que terminou a semana passada, despedimo-nos de personagens centrais como o perigoso Shane ou o sensato Dale (Jeffrey DeMunn), provando que nem mesmo os mais fortes ou resilientes estão a salvo num mundo virado do avesso. The Walking Dead tornou-se quase um ensaio de fim do mundo, onde o próprio espetador se identifica com uma ou outra personagem e se questiona: seríamos nós capazes de enfrentar tal ameaça?

Com a destruição da “casa” da segunda temporada, que reservará o futuro para os sobreviventes condenados por um vírus aterrador?