Depois de quatro anos sem lançar nenhum disco de estúdio, Madonna regressa com MDNA e com o selo da Interscope Records. Trata-se do primeiro lançamento da artista fora da Warner Bros. Records, depois de trabalhos que acumularam vendas extraordinárias e primeiros lugares em qualquer tabela ao longo de 25 anos. É lançado mundialmente hoje, 26 de março, e é alvo de crítica por parte do Espalha-Factos.

O novo trabalho da Rainha da Pop pode ser visto como uma mão cheia de músicas sem aparente lógica na tracklist ou pode ser considerado o “Ray of Light de 2012”, de acordo com o jornalista de música italiano Mario Fegiz. Esta comparação é, no mínimo, um exagero, uma vez que MDNA não chega aos calcanhares deste disco de 1998, quer na sonoridade quer nas composições, extremamente fracas. Todo o burburinho da crítica tem fundamento, uma vez que estamos diante de um bom álbum de música pop, mas isso não garante que estejamos perante um álbum assim tão bom de Madonna, principalmente se tivermos em conta o lugar icónico que ocupa na pop culture mundial.

Começando com a capa do disco, MDNA relembra o trabalho icónico de True Blue. O disco de 1986 é completamente limpo, desprovido de exageros em relação a programas de edição e transparecendo juventude. MDNA é o inverso: recheado de cor, manipulação e com uma juventude forçada (veja as duas capas na imagem em baixo). É esta característica que não coloca a Material Girl num lugar favorável ao longo do disco. Para tentar conquistar um novo público, vemos uma Madonna a tentar rejuvenescer cada vez mais. Diriam muitos que anda a “beber a alma de todas as pessoas jovens”, dado o seu aspeto cada vez mais jovem aos 53 anos de idade. Utilizar produtores e cantores comentados pelos media, como é o caso de Nicki Minaj ou M.I.A. neste último álbum, contribui ainda mais para a introdução forçada de juventude em todo este trabalho.

Madonna

Girl Gone Wild, a primeira música, vai buscar inspiração a Cyndi Lauper, uma das rivais de Madonna nos anos 80. Com uma simplicidade extrema, redutora a nível de composição e sonoridade, o segundo single não consegue ser um bom início para o que espera o ouvinte ao longo de cinquenta minutos. A colocação do Ato de Contrição, conhecido da era Like a Prayer, vai contra o espírito de reinvenção defendido pela artista ao longo dos 30 anos de carreira.

Gang Bang, escrita com Mika, contém uma teatralidade magnífica, sem qualquer medo de represálias, repetindo à exaustão a palavra “bitch”. O intermédio com dubstep, juntamente com as repetidas vezes em que canta “You had to die for me, baby” são de génio. Produzida por William Orbit, The Demolition Crew e pela própria cantora, trata-se provavelmente de uma das melhores faixas.

A viagem continua com I’m Addicted, música que explica o nome do álbum. MDNA possui um triplo entendimento: o nome Madonna, o ADN da artista e também a droga MDMA ou ecstasy, capaz de oferecer sensações eufóricas de amor a quem toma. Em mais uma tentativa de gerar controvérsia, predominante em toda a sua carreira, a rainha já conseguiu alcançar o desagrado de alguns setores da sociedade, denotado na recriminação de Lucy Dawe, porta-voz de um grupo anti-drogas. Em relação à música, não passa de sonoridade elevada. A voz da cantora é um adereço no meio de sintetizadores, efeitos e auto-tune.

Numa mistura de sensações chegam ao ouvinte Turn Up The Radio e Give Me All Your Luvin’, esta a primeira música a ser lançada para promover o disco. As duas músicas, produzidas por Martin Solveig, trazem uma brisa fresca e recheada de boas energias, um alívio depois das últimas três faixas. Contêm uma produção medíocre para os que esperam uma obra-prima pop, mas são bastante audíveis para os menos exigentes.

Para além de Some Girls, curiosa e de qualidade pela sonoridade techno, e de I Don’t Give A, que conta com a participação da rapper Nicki Minaj, a qualidade do álbum começa a partir do momento em que William Orbit assume os créditos da produção.

MDNA

Produziu I’m a Sinner, uma lembrança terrível da canção Beautiful Stranger e longinquamente Ray of Light, e também a fabulosa Love Spent. Com uma leve melodia e uma das melhores composições do disco, Love Spent leva os admiradores numa viagem no tempo. Escutar o nome de Orbit na produção do disco antes do lançamento soou a garantia de um bom trabalho a caminho, mas constata-se a falta de reinvenção ou de novas sonoridades.

Masterpiece, vencedora do Globo de Ouro e presente no último filme realizado por Madonna, junta-se à lista de melhores baladas na carreira da artista. Com uma pequena batida ao longo dos quatro minutos, canta-se sobre um amor perto da perfeição, sobre alguém que abdicou de tudo para poder viver esse amor. “It hurt so much/To be in love with a masterpiece” é uma das melhores partes da letra. Masterpiece está presente na banda sonora de W.E, filme escrito e realizado por Madonna.

Falling Free, a última canção da edição simples do disco, é um toque à música My Substitute For Love e um sopro ao trabalho no filme Evita. Com um instrumental de orquestra, praticamente angelical, é a forma mais brilhante de terminar o álbum.

MDNA é um bom trabalho para todos os apaixonados da música pop. É melhor do que Hard Candy, mas não ultrapassa Confessions On A Dance Floor ou até mesmo Music. A Rainha da Pop não dita novas tendências e prefere persegui-las para alcançar um novo público. Resta esperar para ver se esta é a aposta indicada. Afinal, de Madonna esperam-se os sinais para novas épocas da música pop e não uma mera reedição de modas já conhecidas.

Os jovens das redes sociais, que nasceram e cresceram nos anos 90, não são os mesmos que viram a mulher com um vestido de noiva e o cinto Boy Toy a apresentar Like a Virgin. Ou seja, não conhecem Madonna como o ícone subversivo e poderoso que subiu ao trono da música mundial, e isso pode fazer com que a cantora não pareça mais que uma caricatura, a forçar juventude e a replicar fórmulas de sucesso já conhecidas. Não deixa de ser um bom disco pop, mas parece que a alma não está lá.

Classificação final: 6,5/10

Veja o teledisco do segundo single, Girl Gone Wild, realizado por Mert and Marcus:

httpv://www.youtube.com/watch?v=tYkwziTrv5o