É sexta-feira. Mais um dia do MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa a trazer aquilo que de melhor se faz no cinema de animação em Portugal e no mundo. O dia fica marcado por cinco sessões de filmes em competição, nas categorias de trabalhos de Estudantes, Super-Shorts e Internacional. Destaque ainda para a última sessão no Cinema S. Jorge que trouxe Fritz the Cat, o já clássico filme americano de 1972 assinado por Ralph Bakshi.

ESCOLA ALEMÃ – KONRAD WOLF

Ainda que defraudada pela paupérrima afluência registada (contavam-se pelos dedos as pessoas presentes na sala), a sessão dedicada à Hochschule für Film und Fernsehen Konrad WolfKonrad Wolf Academy For Film and Television – foi mais uma aposta ganha do festival.

Revisitando filmes remotos inspirados na técnica associada ao realizador alemão, alternados com as mais recentes películas produzidas nesta Universidade – algumas datavam já de 2012 -, ficou patente a importância da influência de Wolf na construção e criação das animações germânicas contemporâneas.

O conjunto de curtas-metragens contou com títulos como Chump and Clump, de Stephan Sacher e Michael Herm, The Fork (Me), de Katharina Nedermeier, My Happy End, de Milen Vitanov, Return, de Anna Blaszczyk, ou Never Drive a Car When you’re Dead, de Gregor Dashuber.

Desde a ideia de amor platónico entre cão e cauda-viva, com quem o animal partilha experiências únicas e momentos verdadeiramente íntimos, até à aventura de uma melga com o sangue que suga para sobreviver, passando por um original piano-automóvel que se move cidade fora e atrai todo o tipo de transeuntes (góticos ou punks, músicos ou dementes), o cinema de animação alemão eleva-se, ombreando com as melhores produções britânicas ou japonesas.

Destaque especial para Hinterland, de Jakob Weyde. A história de um urso habitante de uma vivenda numa ilha, rendido à mais sofisticada tecnologia, que repentinamente vê o seu “Mac Guffin” ser roubado por um insolente pássaro. Compreendendo a necessidade de o seguir para reaver a máquina, depara-se com um cenário que já havia recalcado: o contacto com a natureza, o tatear da floresta, o saborear do mel oriundo das colmeias… Esta dicotomia apoquenta-o, e fá-lo reflectir. Mas a escolha acaba por ser fácil. Um urso será sempre um urso, e a natureza é inevitavelmente a sua principal preocupação.

Desenhos animados como rascunhos inacabados, traços desordenados e personagens com infinitas singularidades: são estas as principais características da Escola de Animação de Brandenburg, que, bebendo dos ensinamentos de Konrad Wolf, desenvolve um admirável trabalho de produção animada.

BEST OF BRISTOL ANIMATION SCHOOL

Numa sessão dedicada à apresentação do resultado final do concurso de animação da Universidade de Bristol, as expectativas dos espectadores foram certamente preenchidas. Ainda que uma parte das curtas-metragens apresentadas se resumisse à exploração de piadas simples – como Smokey the Monkey, When I Grow up I Want To Be a Bankrobber ou Doom Farm -, a dinâmica e o bom-humor dessas películas permitiram aos presentes soltar umas belas e longas gargalhadas.

As peripécias de desastrados ladrões de bancos, a atribulada aventura de um macaco roubado de um laboratório ou uma sinistra quinta, testemunha de acontecimentos macabros, foram momentos que marcaram a sessão e revelaram a destreza, originalidade e inovação intrínseca a estes talentosos alunos de Bristol. Tempo ainda para algumas animações “clássicas” e CGI, como The Escape, que retrata o passeio urbano de um jovem skater, contornando obstáculos e incoNveniências, até à altura em que cai e… se transforma em borboleta. Uma bela mostra da melhor animação produzida na Grã-Bretanha, e momento para reforçar um facto indesmentível: os ingleses são peritos em desenhos animados. As obras-primas falam por si.

COMPETIÇÃO SUPER-SHORTS

Cerca de 60 curtas (mesmo muito curtas, em média com cerca de 1 a 2 minutos) em apenas 97 minutos, era o que nos trazia a Competição Super-Shorts. Um conceito inovador e cativante, que conseguiu manter o público a aplaudir no final de todos os projectos apresentados.

A variedade de temáticas, opções gráficas e modos de contar histórias é o que mais surpreende na junção destes trabalhos enquanto todo. A prova de que a animação é um género rico, capaz de fazer os espectadores soltar as maiores gargalhadas mas também de fazê-los reflectir sobre assuntos importantes.

A Competição Super-Shots mostrou que o cinema de animação é um habitat natural para os contadores de histórias.

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL 4

Dez filmes, dois deles nacionais, juntavam-se àqueles que concorrem pelo Prémio Internacional. Para quem acredite que a animação se resume a desenhos animados com finais felizes e estereotipados, está redondamente enganado. A prova está nos vários trabalhos que integraram esta secção.

Histórias com grande componente dramática, algumas delas entrando num registo bastante sombrio, mostraram que o cinema de animação é um género onde praticamente tudo se pode integrar. Depois há ainda a animação que aposta no humor e que consegue cativar pela simplicidade dos recursos que utiliza. Alguns dos trabalhos mostram-se bastante surpreendentes.

Os Olhos do Farol, do português Pedro Serrazina, traz uma história de perda e compreensão contada pelos silêncios das personagens.

http://www.youtube.com/watch?v=51CRLrvvU1Y

Sebastian Cosor apropria-se do famoso quadro de Edvard Munch, O Grito, e traz uma interpretação absolutamente genial e divertida sobre o que poderá estar por detrás da famosa obra.

Por fim, o argentino Luminaris de Juan Pablo Zaramella traz-nos animação camuflada no próprio mundo real, com uma história de sonhos e amor em que o humor é elemento central.

O MONSTRA regressa este sábado trazendo como destaque a Competição Portuguesa para o Prémio SPAutores/Vasco Granja, criado nesta 11.ª edição. Para as 21:30 fica marcada a sessão de encerramento com um espectáculo de Noriko Morita e com a entrega dos prémios aos filmes vencedores.