As guerras são sempre dramáticas, seja qual for a época em que ocorram. O filme de estreia do ator Ralph Fiennes (O Paciente Inglês, A Lista de Schindler) no domínio da realização comprova essa mesma ideia. Os problemas com que a sociedade hoje se depara sempre foram os mesmos durante séculos, e, por isso, é possível usar um texto antigo e recriá-lo num cenário contemporâneo. Os protestos do povo contra o Estado, a desconfiança perante os políticos ou heróis de guerra, que vangloriam os seus feitos para alcançar o poder, esmagando as massas, são os vários temas intemporais que o filme Coriolano retrata de uma forma muito peculiar.

Baseado numa peça de Shakespeare com o mesmo nome, o filme enfatiza o caráter épico da guerra, com aclamações aos deuses e uma linguagem arcaica que remonta às antigas civilizações. Porém todas as personagens têm uma indumentária moderna e a arquitetura também denuncia essa contemporaneidade.

Caius Martius ´Coriolano` (Ralph Fiennes), um reverenciado e temido general romano, encontra-se em conflito com a cidade de Roma e os seus concidadãos. Pressionado por Volumnia (Vanessa Redgrave), a sua mãe, uma mulher ambiciosa e controladora, ambicionando a poderosa posição de Cônsul, ele está relutante em insinuar-se junto às massas, cujo voto necessita para assegurar o cargo. Mas quando o povo se recusa a apoiá-lo, a raiva de Coriolano gera um motim que termina na sua expulsão de Roma. O herói banido, de orgulho ferido, alia-se então ao seu maior inimigo, Tullus Aufidius (Gerard Butler), e prepara a sua vingança.

A linguagem do filme, num inglês mais “arcaico” é um dos pontos mais importantes de Coriolano, que pode ser considerada uma vantagem ou fraqueza. A linguagem não se associa diretamente ao ambiente e à época em que tudo decorre. Os discursos complexos de exaltação, com uma carga excessivamente teatral, por vezes, dispersam o espectador, que necessita de uma maior atenção para apreender tudo o que é dito. Apesar disso, são esses diálogos tão shakespearianos que dão um caráter ainda mais épico a todo o filme.

Esta espécie de mistura de duas épocas faz-nos, por vezes, não saber em qual delas estamos. Apesar destas caraterísticas, que para uns podem ser uma força, para outros fraqueza, toda a história de Coriolano é poderosa. Pode dizer-se que está-se perante uma excelente adaptação do texto de Shakespeare. A traição e a vingança percorrem o filme do início ao fim, estejam elas presentes na relação entre Coriolano e Aufidius, ou entre o protagonista e a sua cidade.

Outro elemento que fascina é a complexidade da personagem principal Coriolano. Primeiramente odiado, depois aclamado e, no final, complacente, a evolução do protagonista na história é muito interessante e inesperada, fazendo oscilar a opinião acerca da personagem durante todo o filme. O público estabelece, quer queira, quer não, uma relação amor-ódio com o protagonista, que, por um lado, é implacável e, por outro, fascinante. A mudança que acontece quando Coriolano é expulso de Roma é de tal forma radical, que ele coloca o orgulho de parte para se aliar ao inimigo, esquecendo toda e qualquer ligação emocional que ainda mantinha na sua cidade.

Ralph Fiennes, para além de nos surpreender com a excelente realização, dá mais uma vez provas da sua qualidade como ator, com uma interpretação fantástica. Destaque também para o restante elenco, principalmente para Jessica Chastain, como Virgilia, a doce e dedicada mulher de Coriolano; Vanessa Redgrave, na pele da rígida e ambiciosa Volumnia; e Gerard Butler, com uma interpretação bastante convincente, na pele do inimigo a quem o protagonista se alia, Tullus Aufidius.

Fiennes estreia-se assim da melhor maneira na realização, executando um grande filme. A utilização, por diversos momentos, da hand camera transporta-nos para o cenário de guerra, para as manifestações, e coloca-nos no centro dos confrontos “épicos”. A direção de fotografia, a cargo de Barry Ackroyd, faz igualmente um ótimo trabalho.

Coriolano é uma excelente experiência cinematográfica que agradará certamente a quem gosta do género. Um protagonista apaixonante e a presença de Shakespeare, aliados a boas cenas de guerra e de emoção, marcam a estreia de Ralph Fiennes dos dois lados da câmara.

7/10

Ficha Técnica:

Título Original: Coriolanus

Realizador: Ralph Fiennes

Argumento: John Logan a partir da peça de William Shakespeare

Elenco: Ralph Fiennes, Gerard Butler, Brian Cox, Jessica Chastain, Vanessa Redgrave

Género: Drama, Thriller, Guerra

Duração: 122 minutos

*Texto escrito por Inês Moreira Santos e Sara Alves