Chegados ao terceiro dia da Monstra – Festival de Animação de Lisboa -, o evento decorreu de uma forma verdadeiramente dinâmica, proporcionando aos espetadores intensos momentos de lazer e divertimento. Embora problemas técnicos tenham dificultado a exibição de um dos filmes, nada impediu que a animação se propagasse e impusesse. Terceiro dia, três destaques: a Escola Alemã Kunsthochschule kassel, Winter Days, de Kihachiro Kawamoto e Little Punk (título original Der kleene Punker), de Michael Schaack.

 

Winter Days

No City Alvalade, a sessão das 17h00 decorreu com alguns percalços. Por problemas técnicos só foi projetada a primeira metade do filme japonês Winter Days, perante o claro descontentamento dos espetadores presentes.

No Dia Mundial da Poesia, Winter Days foi (ou deveria ter sido, se tivesse passado na íntegra) a escolha mais acertada, um filme que junta cinema de animação e poesia japonesa. Foram 35 os realizadores de animação de todo o mundo que colaboraram neste projeto de Khiachiro Kawamoto, que passou para o grande ecrã a famosa coleção de Haiku, de Matsuo Basho. O filme foi apresentado por Noriko Morita, realizadora em retrospetiva nesta edição do Monstra, e pela realizadora de um dos segmentos.

Na primeira parte de Winter Days (a que passou na sessão), vemos como cada um dos 35 realizadores passou para animação alguns versos, inicialmente apresentados. Cada um trabalhou um minuto de animação do filme e o resultado é deveras interessante, com as mais variadas animações e interpretações do que é dito no poema. Ficou a faltar a segunda parte da longa-metragem, onde ficaríamos a conhecer os testemunhos dos realizadores e o porquê das suas escolhas.

Der Kleene Punker

Às 21h45 foi altura de Michael Schaack, realizador e produtor alemão, demonstrar toda a sua genialidade com a longa-metragem Der Kleene Punker (Little Punk). Uma sessão com afluência significativa, ainda que muitos lugares se tenham conservado vazios. Relembrado a uns e dado a conhecer a outros, Der Kleene Punker, filme animado de 1992, conta a história de um jovem rapaz rendido ao estilo de vida e à cultura punk. Numa confusa e barulhenta urbe, plena de estímulos e ambientes ecléticos, o jovem habita uma lixeira onde constrói o seu próprio mundo, e inventa passatempos.

Acompanhado pelos seus três amigos, mantêm uma banda com instrumentos improvisados – desde um alfinete a um ancinho – e cultivam um quotidiano incerto, instável, diletante. Assolados pela falta de dinheiro e de comida, e discriminados pelo seu modo de vida (totalmente distante dos preceitos sociais intrínsecos ao status quo), cometem uma série de pequenos delitos e exploram estratégias que lhes permitam contrariar essa escassez, mas sem nunca abdicar da cultura a que se renderam. Mais do que dinheiro, o seu sonho é ser uma verdadeira banda de heavy metal. Pouco importa o que os outros pensam, ou a perseguição do polícia trapalhão. Afinal são apenas jovens irreverentes, revoltados com a injusta e putrefacta sociedade berlinense. Jovens que não se submetem às lições de moral veiculadas pelos “cidadãos de pleno direito”.

Após mais um dia eletrizante e de grande vigor, a quinta-feira reserva novidades impossíveis de ignorar. É esperar para ver.

Artigo escrito por Daniel Veloso e Inês Moreira Santos