Mais do que música, trata-se de uma filosofia musicada. Citando os próprios, «Indignu é um copo de sede que queremos matar a qualquer preço / Indignu é todo aquele pão que deitamos fora por não nos apetecer / Indignu é todo aquele mundo que nos sufoca e corta as asas». Com uma filosofia radicada em espantar, através da música, a parvulez do consumismo e do materialismo a que o mundo está sujeito, a banda barcelense fantasia-se, sempre na língua de Camões, por uma sonoridade arrepiante e bastante característica.

Nascido em Barcelos, em inícios de 2004, e com várias formações ao longo da sua vida, o grupo nortenho é atualmente composto por um quarteto: Afonso Dorido [guitarra, voz e melódica], Jimmy [guitarra, voz, xilofone, órgão vintage e kazoo], Mateus [baixo e piano] e Ketas [bateria].

Na sua fase embrionária, o projeto musical fundado por Afonso Dorido, José Duarte e Xico, ia sobrevivendo de vários showcases em FNACs pelo norte do país.

Com várias atuações ao longo de dois anos, o grupo lança, em 2007 e após a saída de um dos seus fundadores, José Duarte, o seu primeiro EP, Manifesto Anormal do Fundamento. A melhor maneira que a banda solucionou para fazer chegar o seu primeiro registo a um maior número de pessoas foi colocá-lo, mais tarde, disponível para download gratuito no seu site – prática comum em Portugal. Apesar de não ter singrado de forma evidente no panorama da música portuguesa alternativa, foi aqui que os Indignu começaram a escrever a sua ode ao poder instrumental e à sua própria metafísica.

Com uma instrumentalidade demolidora, ensopada pela raiva do desalento face a um mundo podre, a enaltecer um lirismo simples e eficaz, produziram-se, neste EP, belas músicas como Alma Nova e Enquanto assim for. Ao longo de todo o Manifesto Anormal do Fundamento estabelece-se uma ligação agreste entre a componente vocal [a cabo de Xiko] e a componente sonora que, quando misturadas simultaneamente, conferem uma paisagem única ao grupo barcelense. Com aroma a Post-Rock e passagens fugazes pelo rock progressivo, foi a partir deste momento que os Indignu começaram a sobressair no panorama musical do império Bracarense.

[Ainda] Escondidos da montra da música alternativa nacional e após a saída de Xiko, antigo vocalista e fundador da banda, Indignu conhece a sua atual formação. É com esta nova formação que se reúnem em dezembro de 2008 e decidem começar a trabalhar num LP. Tendo como génese criativa a temática/problemática da mutação [não no seu sentido biológico], o quarteto nortenho acabou por edificar um álbum extremamente coeso, perspicaz e estonteante. Falamos, pois claro, de Fetus in Fetu. O álbum foi lançado em 2010 e centra-se no ativismo social da banda.

Fetus in Fetu retrata um álbum recheado de magia, facto esse que explana inteiramente os 6 anos de espera para que a banda Barcelense lançasse o seu primeiro LP. Desde o lançamento de Manifesto Anormal do Fundamento até ao lançamento deste registo nota-se, indubitavelmente, uma evolução tremenda. Indignu tornou-se mais maduro, explosivo, gritante e completo.

Pautado por um lirismo simples e eficaz, a mensagem veste-se nos tímpanos sem querer desnudar deles. Versos como «O capitalismo suicidou-se, não há mais motivos para o combater», da música Prenúncio tornam-se uma das imagens de marca do registo.

Contando também com pequenos tesouros como Suicida Oração, Carruagem dos Magistrados e o conto sónico Curta-metragem, que nos aparece divido em três pequenos episódios [a espera, a saída e a efetivação], o registo conta com a colaboração do poeta valter hugo mãe e de Nuno Rancho na faixa mais célebre do registo, Duzentas promessas para um mundo melhor.

É sob a inspiração do conceituado poeta nortenho que os Indignu exponenciam, ainda mais, a sua música para outro patamar. Com Nuno Rancho na voz, dá-se alento ao poderio instrumental dos barcelenses e arquiteta-se o ponto alto do álbum. Simplesmente arrasador. Dá-se uma fusão crua e sem piedade entre a vertente instrumental, poética e vocal e condimenta-se uma sonoridade exímia.

Envolvendo os ouvintes num arco-íris musical, onde as tonalidades do post-rock ganham vida e cor face a tudo o resto, cantam e tocam filosofias de uma maneira sublime, elucidando o ouvinte para o seu potencial gritante ao longo de todo este Fetus in Fetu.

Escondidos da ribalta por demasiado tempo é agora que os Indignu se assumem como uma banda de destaque no panorama do rock alternativo português, fazendo-se luarejar mais do que nunca . Radicados numa filosofia musicada que flui naturalmente, sem ser pré-fabricada, sem ser arquitetada, afirmam que «Indignu é todo aquele mundo que nos sufoca e corta as asas». Mas quem levanta voo acabam por ser os ouvintes, invadidos pela alma assombrosa com que o quarteto cessa a sua fome e o seu vomitar idealista.

Agora, depois do lançamento da relíquia de Fetus in fetu, aguarda-se ansiosamente pelo seu irmão. Este feto não morrerá, seguramente, sozinho.