Wuxia é um género literário e cinematográfico que mistura fantasia e artes marciais. Wu significa “marcial” ou “militar” e xia, significa “honrado” ou “herói”. Com uma origem que se perde no tempo, as histórias Wuxia contam as lendas de guerreiros de artes marciais, que com um grande sentido de honra, muito estudo e supressão dos seus próprios sentimentos em nome de um bem superior, conseguem ultrapassar todas as adversidades. Heróis de Outrora, Heróis de Agora é uma retrospectiva cinematográfica de como o século XXI (2000-2010), foi repescar estas estórias milenares e as actualizou aos dias de hoje, sem desprezar os seus antigos valores.

Quando o nome John Woo é referido, o mais provável é virem-nos à memória imagens de explosões, destruição de veículos e propriedade pública massiva. Esse período da sua carreira pode não ter sido o mais feliz em termos de aclamação crítica mas foi bem divertido. Filmes como Operação Flecha Quebrada ou A Outra Face representam uma época remota de Hollywood na qual o fogo-de-artifício ainda era fogo-de-artifício, nas grandes cenas de acção se recorria a duplos e as imagens digitais serviam para melhorar e não para substituir tudo o que poderiam ser considerados gastos que roubassem dinheiro ao marketing e às grandes estrelas. O que poucos sabem sobre este realizador é que antes de Hollywood, ele já tinha realizado clássicos como Crime em Hong Kong, de 1986, e O Matador, de 1989, redefinindo o género do thriller policial.

Na fase ulterior da sua carreira, John Woo regressou ao cinema que o viu nascer e onde aperfeiçoou a sua arte: Hong Kong. Ele realizou o épico wuxia de artes marciais Red Cliff (2008-2009) de 280 minutos, considerada por muitos a sua obra derradeira. Depois deste blockbuster, Woo entregou-se à produção e co-realização de Reino de Assassinos com Chao-Bin Su, que também escreveu o argumento.

Reino de Assassinos inicia-se com um prólogo animado, especialmente em voga hoje em dia. O filme anteriormente referido em Heróis de Outrora, Heróis de Agora, Su Qi-Er – A Lenda recorre a este mesmo artifício. Conta-nos esta introdução que, há muito tempo atrás, viveu um monge chamado Bodhi que aperfeiçoou a arte do Kung Fu ao nível da excelência. Diz que quem possuir o seu corpo poderá tornar-se o maior mestre de artes marciais à face da terra.

Motivada pelo poder, um clã de assassinos denominado Dark Stone inicia uma campanha sangrenta para encontrar o cadáver, cujos restos foram entretanto, dispersos e escondidos para ocultar o segredo. Após um último golpe, no qual Drizzle (Kelly Lin), a assassina mais poderosa do clã acaba por ficar na posse de uma parte do corpo do monge, ela decide abandonar a vida de terror e foge. Ela submete-se a uma operação para alterar a sua aparência e muda de nome para Zeng Jing (Michelle Yeoh). Para completar a transformação e o clã lhe perder o rasto, inicia uma vida nova como uma vendedora ambulante insuspeita na localidade de Nanjing. Lá, resiste às investidas da Tiazinha Cai (Paw Hee-ching) para que aceda a contrair matrimónio com um dos muitos solteirões da terra e à atracção inesperada pelo homem do correio Jiang Ah-sheng (Jung Woo-sung). Quando ela se entrega, por fim, a uma vida de felicidade conjugal e abandona por completo as artes marciais, um acontecimento inesperado revela a sua verdadeira identidade e coloca no seu encalço, o clã de assassinos.

Michelle Yeoh, a actriz malaia e chinesa, lidera o numeroso elenco internacional com a elegância e poder habituais. Depois de O Tigre e o Dragão que lhe concedeu, finalmente, a aclamação crítica e sucesso de bilheteira internacionais, Yeoh retoma um papel natural. Como Drizzle, a rainha reinante das artes marciais em Hong Kong, interpreta uma assassina disposta a deixar a vida de maldade para levar uma existência pacífica. Uma escolha complicada de alcançar pois, enquanto ela existir, será a assassina mais poderosa que o clã já teve e um perigo eterno para este. Além de que ela possui o segredo do esconderijo do cadáver do monge. Como escapar sem contar toda a verdade ao seu amado? Como evitar que Ah-sheng seja apanhado pelos assassinos?

O actor coreano Jung Woo-sung, uns bons dez anos mais novo, interpreta a sua contraparte romântica, um aparente homem simples, enamorado pela nova habitante da localidade. As suas interacções e Paw Hee-ching proporcionam bons momentos de humor e descontração, antes que o céu se abata sobre eles. Em nenhum momento, o romance soa a falso ou improvável.

O clã de assassinos é constituído pelo Wheel King Cao Feng (Wang Xueqi), a Folha Turquesa Ye Zhanqing (Barbie Hsu), Lei Bin (Shawn Yue) e o Mágico (Leon Dai). O líder do clã, Cao Feng é durante a maior parte do filme o seu verdadeiro mistério. Para um combatente tão mortífero, a procura desesperada pelo corpo de um morto, um mito na verdade e a procura de uma nova assassina para substituir a que perdeu, demonstra enorme fraqueza para quem possui tanto poder. A actriz e cantora de Taiwan, Barbie Hsu, representa Ye Zhanqing a escolhida para substituir Drizzle. Ela é uma ninfomaníaca e uma viúva negra, mais venenosa com as palavras do que com a espada ainda pouco treinada, mesmo que sejam poucos os homens que lhe sobrevivem. A sua maior ânsia é a de liberdade, o seu maior medo, o de ser encurralada. E o argumento encontra um modo extremamente inteligente de resolução da fobia desta personagem, num sentido não metafórico. Lei Bin é, por sua vez, um homem de família que não hesita a recorrer ao homicídio como modo de sustentar a sua família e o Mágico, o personagem menos desenvolvido, em termos de guião é o mais interessante de assistir em combate e infelizmente aquele de que vemos menos. As suas espadas são bolas de fogo e invoca cordas que se elevam no vácuo e o fazem desaparecer no nada. Truques muito engraçados que não disfarçam as suas insuficiências em combate. Reino de Assassinos não tem o esplendor visual dos filmes de artes marciais do início do século como O Tigre e o Dragão ou Herói mas é igualmente eficaz. Os combates, a despeito da utilização habitual de arames estão mais perto do verdadeiro Kung Fu do que de uma coreografia muito próxima de um bailado. E nessas cenas, podemos verificar como nunca a assinatura de Woo como as numerosas e cuidadosamente coreografadas cenas de combate, efeitos de câmara lenta e impasses mexicanos. Se dúvidas houvesse de que John Woo perdeu o fulgor, sugiro pois a visualização de Reino de Assassinos, as suas manias estão todas lá e ainda bem.
O argumento de Chao-Bin Su constitui a maior força de Reino de Assassinos. O espectador consegue acompanhar a estória que não é demasiadamente intrincada como, por exemplo, The Lost Bladesman, no qual é preciso quase um doutoramento em literatura chinesa para se conseguir acompanhar as reviravoltas e as personagens que não cessam de aparecer. Também é de notar o trabalho do elenco internacional escolhido a dedo, entre naturais da China, Coreia do Sul, Taiwan e Malásia, todos fizeram um grande trabalho de representação, num filme falado na totalidade em mandarim. No máximo, a grande revelação pode soar a improvável, senão mesmo uma fraude para alguns espectadores. Depois de uma construção tão incrível e credível, determinadas motivações surgem como patéticas. Tanta dor e desespero por aquilo? Aí, a melhor resposta que posso atribuir é a necessidade intrínseca de criar personagens trágicas, distantes da caricatura. E Reino de Assassinos, com as cenas de luta espectaculares, boas actuações, argumento sólido e o carisma da eterna Michelle Yeoh, escapa ao mínimo denominador comum que se poderia esperar deste filme: pancada até mais não!

7/10
Ficha Técnica
Título Original: Jianyu Jianghu
Realizador: Chao-Bin Su e John Woo
Argumentista: Chao-Bin Su
Elenco: Michelle Yeoh, Jung Woo-sung, Wang Xueqi, Barbie Hsu, Kelly Lin, Shawn Yue, Leon Dai, Paw Hee-ching, Li Zonghan, Chin Shih-chieh, Ma Shuliang, Angeles Woo e Matt Wu.
Género: Acção, Drama, Comédia
Duração: 117 minutos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.