No último dia da III Mostra de Cinema Fantástico – SyFy Fest foram exibidos quatro filmes com cenários pós-apocalípticos e criaturas sobrenaturais , nomeadamente Atrocious, Hell, Stake Land e Lobos de Arga. No Espalha-Factos vamos dar destaque a dois dos filmes apresentados: a longa-metragem alemã Hell e o filme de terror indie Stake Land.

Os dois filmes têm como pano de fundo um ambiente catastrófico, cuja preocupação com a sobrevivência é imperativa, como também desenvolvem a sua acção durante uma viagem de carro, sendo considerados road movies. Contudo as diferenças entre os dois filmes são muito significativas.

Hell

O filme de baixo orçamento do realizador alemão Tim Fehlbaum, Hell, tem uma história mais consistente e gradualmente vai captando a atenção do espectador com os vários planos de pormenor, que criam suspense ao longo das cenas. A longa-metragem, que ganhou o prémio de melhor filme na secção de cinema fantástico no Fantasporto 2012, narra a história de três sobreviventes: Leonie, Marie e Phillip, que habitam num planeta Terra arrasado por tempestades solares, cujos recursos são escassos. A busca incessante por água e comida é o principal objetivo deste filme, que explora a sobrevivência e as relações humanas numa situação limite.

O filme é construído através de momentos extremos. Por um lado, apresenta cenas longas que mostram o quotidiano dos sobreviventes e a sua tentativa de angariar mais recursos para subsistir. Por outro, possui planos demasiado rápidos nas cenas de perseguição, que evocam maior tensão pela sua intensidade dramática. Infelizmente nestas cenas, o espectador sente-se perdido com os movimentos bruscos e panorâmicas alucinantes da câmara, que, em vez de seguirem a acção, incorporam em excesso o pânico das personagens, tornando as cenas pouco perceptíveis.

Um dos pontos positivos do filme é o bem sucedido climax da história. A acção, que parecia muito calma e rotineira, a meio do filme é quebrada por um acontecimento que dá origem a uma viragem no enredo pouco expectável. É esse “turning point” inovador, que faz com que este filme seja tão surpreendente, conseguindo abordar os limites do ser humano.

Outro dos aspectos interessantes da história é a tentativa de sensibilizar a audiência para assuntos da actualidade, que podem ter consequências trágicas.Os problemas ecológicos como o aquecimento global são a causa para o cenário catastrófico representado em Hell e o filme consegue projectar o espectador para uma realidade que pode não estar muito distante se a humanidade não preservar a natureza. Hell, que significa brilho em alemão, leva-nos a pensar em algumas questões: Como será o mundo se não houver recursos? Será que é possível evitar esse cenário catastrófico?

8/10

Ficha Técnica:

Título Original: Hell

Realizador: Tim Fehlbaum

Argumento: Tim Fehlbaum, Oliver Kahl e Thomas Woebke

Elenco: Hannah Herzsprung, Lisa Vicari, Lars Eidinger, Stipe Erceg

Género: Terror, Ficção Científica,Thriller

Duração: 89 minutos

Stake Land

Ao contrário de Hell, o filme indie de Jim Mickle, Stake Land, leva-nos para um ambiente ainda mais sangrento, cujo principal inimigo não são as condições climatéricas, mas criaturas sobrenaturais que invadem os Estados Unidos. Numa época em que os vampiros são retratados de uma forma sedutora e atraente, Stake Land faz o inverso e regressa ao passado, quando representa esses seres imortais como monstros sedentos de sangue, cujas almas perdidas estão aprisionadas em zombies. Tal como um vírus ou uma praga, quem é atacado por estas aberrações e, tem a sorte (ou azar) de sobreviver, torna-se um vampiro que apenas vive para beber sangue humano.

O filme está repleto de clichés. Temos o típico caçador de vampiros, chamado Mister, que tal e qual o Van Helsing possui um vestuário muito pouco original, as famosas estacas e um chapéu de justiceiro, e  um rapaz, que devido às circunstâncias desastrosas da sua vida, intitula-se como discípulo do caçador de vampiros. Stake Land peca também pela repetitividade das suas cenas, que não revelam nada de interessante até ao final do filme. Durante a longa viagem de carro para o Norte da América, a história é sempre a mesma. Os personagens param para descansar numa povoação ou numa floresta e são atacados por vampiros, que se assemelham aos zombies do videoclip de Michael Jackson, Thriller.

Muitas situações apresentadas no filme são totalmente irreais, mesmo para o género cinematográfico em que a longa-metragem se insere. A existência de uma grávida no grupo de caçadores de vampiros torna-se bizarro, para não dizer impossível. A facilidade como as personagens encaram a morte e caçam os vampiros como um desporto de diversão, leva o espectador a não entrar na história como se esperaria. Também a falta de rigor na caracterização dos vampiros, ajuda a perder a credibilidade destas criaturas. A banda sonora, quase romântica, não se adapta ao género de filme, levando a que certas cenas que deveriam ser encaradas com alguma seriedade se tornem cómicas com um tom ridículo.

A parte mais interessante do filme são os pequenos pormenores políticos e religiosos que fazem um paralelismo com o mundo actual, criticando os Estados Unidos. Entre muitos exemplos, temos as seitas religiosas, que aceitam os vampiros como criaturas divinas e as usam para atacar os humanos infiéis, a breve referência ao Médio Oriente como sendo uma terra infestada de vampiros contaminados pelos americanos, e o Canadá, que no filme é considerado o Novo Eden, o lugar de salvação para os americanos.

Devido às piadas pouco refinadas e aos clichés esperados, Stake Land não consegue alcançar tanto impacto como o filme precedente Hell, ficando apenas por ser uma cópia de muitos outros filmes cuja temática dos vampiros já foi abordada vezes sem conta.

E assim termina mais um Festival Syfy no Cinema S. Jorge. Para o ano o canal de televisão trará mais filmes com muitas surpresas.

4/10

Ficha Técnica:

Título Original: Stake Land

Realizador: Jim Mickle

Argumento: Jim Mickle Nick Damici

Elenco: Connor Paolo, Nick Damici, Michael Cerveris, Danielle Harris, Sean Nelson

Género: Terror

Duração: 98 minutos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.