Foi um thriller psicológico de Espanha que abriu o primeiro dia da III Mostra de Cinema Fantástico – Syfy Fest, que teve lugar ontem, dia 16 de Março, à noite no emblemático Cinema São Jorge, em Lisboa. Dictado foi o filme de abertura, que contou com a presença do realizador Antonio Chavarrías.

O filme, que se poderá colocar entre o thriller e o terror psicológico, esteve em competição para o Urso de Ouro no 62º Festival de Cinema Berlim, no passado mês de Fevereiro. Mais do que assustador, é perturbador, e centra-se no quão frágeis podem ser as crianças, e no quanto o que acontece na infância pode marcar a idade adulta.

Dictado conta a história de Daniel (Juan Diego Botto) e da sua mulher Laura (Bárbara Lennie), um jovem casal de professores que acaba de sofrer um aborto. Depois de Mário, um amigo de infância de Daniel, se suicidar, o casal aceita acolher em sua casa a filha deste, Julia (Mágica Pérez). Algumas das acções da criança começam a ser entendidas como ameaçadoras para Daniel, e fazem despertar nele medos e sentimentos de um passado que tinha decidido enterrar. Para o realizador, esta é uma história negra sobre a infância e o peso que tem no mundo dos adultos.

Antonio Chavarrias apresenta-nos um argumento com uma premissa muito forte e com segredos muito bem guardados. Dictado não é um filme de sustos, mas sim um filme que procura os nossos medos, os monstros do passado e, por que não dizer mesmo, as nossas brincadeiras de criança, a que o título internacional Childish Games, faz alusão. Mesmo a palavra Dictado remete para isso, já que é o título canção que todas as crianças do filme cantam para se protegeram desses “monstros”.

Duas personagens muito bem construídas – o protagonista Daniel e a pequena Julia – são os pontos mais fortes desta longa-metragem espanhola. No decorrer da história fazemos uma desconstrução de Daniel, à medida que nos vão sendo apresentados intercaladamente o seu presente e a sua infância, em específico os momentos que passou com a nova companheira do pai e os seus dois filhos, Mário e Clara. E é nessa conjugação passado/presente que descobrimos o que atormenta o protagonista, essas memórias desenterradas com a chegada de Julia, que também vão surgindo nos seus recorrentes pesadelos. Para Daniel, parece haver sempre algo que se “intromete”, por assim dizer, na sua felicidade. Primeiro, a chegada da outra mulher e os seus filhos, que se colocam entre ele e o seu pai, e, mais tarde, o acolhimento de Julia, que vem destabilizar a relação com a mulher.

A pequena órfã é quem mais nos surpreende no decorrer do filme, deixando-nos também a nós confusos e perturbados, tal como a Daniel. Ela é um óptimo exemplo de como as crianças são frágeis, podendo tornar-se mesmo assustadoras.

De destacar são as interpretações de Juan Diego Botto, como Daniel, que nos consegue deixar tão perturbados como ele, e tão bem faz transparecer o desespero por apagar aquelas recordações tão dolorosas que julgava esquecidas, que se transformam, a dada altura, numa espécie de loucura; e a pequena Mágica Pérez, que se porta como gente grande, no seu primeiro papel. A criança é muito credível e deixa-nos incomodados, perante a sua prestação tão intimidatória. Vamos ter exactamente as mesmas dúvidas que Daniel acerca dela.

No meio de um bom argumento, surgem alguns clichés típicos dos filmes de terror que tiram alguma originalidade a Dictado. As famosas cenas na banheira ou sobre o que estará por detrás da cortina repetem-se, e nem a casa de campo isolada de tudo escapa. Apesar destes momentos já tão vistos, o filme de Antonio Chavarrías tem momentos e personagens que devem ser apreciadas e valorizadas.

Inocência e maldade misturam-se nestas brincadeiras de crianças, que nos mostram quão cruéis e, ao mesmo tempo, vulneráveis estas podem ser. Dictado foi uma óptima escolha para o primeiro dia do Syfy Fest, que continuou com um cocktail com o realizador. A Mostra de Cinema Fantástico continua no Cinema São Jorge até Domingo.

7/10

Ficha Técnica:

Título Original: Dictado

Realizador: Antonio Chavarrías

Argumento: Antonio Chavarrías a partir da história de Sergi Belbel

Elenco: Juan Diego Botto, Bárbara Lennie, Mágica Pérez, Nora Navas, Àgata Roca, Marc Rodríguez

Género: Thriller, Terror

Duração: 95 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

 *Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.