Não é terror mas cumpre muito bem a função de aterrorizar, arrepiar, fazer-nos tremer como qualquer filme do género. The Grey – A Presa chegou às salas de cinema como muito mais do que um filme sobre sobrevivência. Está aí para testar os nossos limites.

Depois de filmes interessantes como Narc (2002), Um Trunfo na Manga (2006) ou, mais recentemente, Soldados da Fortuna (2010), Joe Carnahan continuou o bom trabalho e oferece aos fãs de cinema um filme cheio de emoções fortes. Quando se está perante um segurança/caçador de lobos que, depois de um desastre de avião, se vê como a presa dos animais que é pago para matar, a ironia não poderia ser maior, e a expectativa também não. E quando é Liam Neeson que veste a pele desse homem a fasquia eleva-se mais ainda. The Grey – A Presa faz-nos sentir tudo: o acidente, o acordar nos destroços no meio do nada e as tentativas de sobrevivência, lutando contra os lobos, o frio e os próprios fantasmas de cada um.

A história é simples. Um grupo de trabalhadores embarca numa viagem de avião, mas este despenha-se numa zona remota do Alasca. Do acidente, apenas sobrevive uma pequena minoria, e, de entre eles, Ottway (Liam Neeson), um segurança/caçador de lobos, vê-se obrigado a liderar o grupo de sobreviventes na sua luta pela vida e pelo regresso a casa. Feridos e no meio de um clima impiedoso, o grupo tem de escapar tanto ao gelo, como a uma alcateia de traiçoeiros lobos que espreitam por todo o lado e que querem fazer deles a sua presa. Antes que o tempo se esgote, estes homens terão de lutar pela sua vida, entre perigos e recordações.

O argumento aparentemente está já muito gasto, filmes com histórias de luta pela sobrevivência não faltam por aí, mas The Grey – A Presa mostra os acontecimentos de forma diferente, bem mais aterradora. Os clichés estão lá, mas a abordagem dura, sem receios de mostrar tudo, faz com que eles não estraguem, nem de longe, o produto final.

 

The Grey – A Presa começa com um ambiente taciturno, que faz prever que o que se segue não será, de todo, feliz, e esse mesmo ambiente estende-se a todo o filme, numa mistura de recordações, medos e incertezas. Assistimos a um acidente de avião como se nós mesmos lá viajássemos: sentimos a grande turbulência, os estrondos, a falta de oxigénio, o pânico… Todos os sons, todas as imagens, bem à nossa frente vão deixar qualquer um muito longe da sua zona de conforto. E sentimos a própria sala de cinema, literalmente, a tremer, o que talvez nos faça interrogarmo-nos se não estaremos mesmo dentro daquele avião.

Por entre as esplêndidas e geladas paisagens do Alasca, acordamos com o protagonista no meio dos destroços, dos corpos sem vida e de pouco mais de meia dúzia de sobreviventes. A partir daqui, o objectivo é conseguirem regressar a casa a salvo, mas nada se revela simples. Os lobos vão acompanhar toda a jornada destes trabalhadores e, como já se espera, vão fazendo vítimas. É inevitável que o espectador se sinta incomodado e tão assustado como as personagens do filme. E é bem provável que aconteçam alguns saltos da cadeira durante o visionamento de The Grey – A Presa, já que o suspense está muito bem conseguido e os sustos são recorrentes.

Ottway, o protagonista, é uma personagem complexa, que parece viver das lembranças do passado, que nos são apresentadas por inúmeros flashbacks. E há duas grandes ironias em Ottway: ele é o caçador que se torna a presa e, ao mesmo tempo, é o homem que, ao início pensa no suicídio, mas que se depara com a obrigação de sobrevivência sua e dos seus colegas. E são estas mesmas ironias que fazem que o protagonista questione a existência de Deus em diversos momentos do filme. Por um lado, completamente descrente, mas por outro com a esperança de um sinal.

 

E é entre recordações, memórias, discussões que vamos conhecendo os outros sobreviventes do acidente. As suas famílias, os seus medos e fraquezas, tudo vai sendo revelado nos momentos de maior terror, e estamos perante interessantes personagens, cada uma com algo que a distingue das outras.

Liam Neeson mostra como foi a mais acertada escolha para interpretar Ottway, dando lhe a coragem e o desespero que o caracteriza, e soma mais uma às excelentes interpretações com que já conta. Destaque também para a prestação, ainda que curta, de Joe Anderson, como o caricato Flannery, e para Frank Grillo como Diaz.

O suspense mantém-se até ao fim, e deparamo-nos com um final de grande nível (aconselho a aguardar na sala até ao final dos créditos para saber mais), que virá confirmar que assistir a The Grey – A Presa não foi tempo perdido. Joe Carnahan realizou um filme que se distingue por tão bem mostrar a crueza daquela realidade, que abafa o argumento pouco original. Não é para se ver de ânimo leve: joga com as emoções, com os medos, e fá-los vir à superfície. Depois de ver The Grey – A Presa, uma coisa é certa, pelo menos nós sobrevivemos.

7.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: The Grey

Realizador: Joe Carnahan

Argumento: Joe Carnahan, Ian Mackenzie Jeffers

Elenco: Liam Neeson, Dallas Roberts, Frank Grillo, Dermot Mulroney, Nonso Anozie, Joe Anderson, Ben Bray, James Badge Dale, Anne Openshaw

Género: Acção, Aventura, Drama

Duração: 117 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

 *Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.