João Torto ©Filipe Ferreira

Quem nasce Torto…

Quatro atores partem dos quatro cantos da Sala Estúdio. “Eu sou João Torto”, entoa cada um deles, que incorporarão diferentes facetas desta personagem cujo percurso varia entre a História e a Lenda. João Torto voará em cena no Teatro Nacional D. Maria II até 1 de abril.

A luta entre o ‘ser-se capaz’ e o ‘sentir-se capaz’ quando o destino está traçado à partida. Lutar contra a falha para concretizar os sonhos considerados impossíveis. “Vocês estão aqui porque sabem que este homem vai falhar”. Já que se vai falhar, o melhor é tentar fazê-lo da melhor forma possível – esta é a atitude perante a vida deste protagonista.

20 de junho de 1540. Conta a lenda (ou talvez a História) que João de Almeida Torto se lançou do alto da Sé de Viseu para voar com as asas que ele próprio construiu. João Torto era então um pioneiro que desenvolveu o seu trabalho, talvez inspirado pelo trabalho de Leonardo Da Vinci, cujas influências poderão ter sido trazidas por D. Miguel da Silva, Bispo de Viseu, que chegou à diocese em 1540.

Uma ambição desmedida, muito maior que o próprio homem, que nos leva mais alto. Um jogo constante entre as linhas que o próprio corpo desenha, calculadas por fórmulas matemáticas demasiado complexas para serem solucionadas e que acabam por tomar a forma de asas.

Tanto céu” para ser descoberto, nunca antes atravessado pelo ser humano. João Torto quer ser o primeiro a fazê-lo. Cruzar os céus como um pássaro, como o primeiro pássaro amarelo da infância.

Juntar tábuas e cordas para criar algo único que permite andar pelo mundo sem deixar rasto. “Voar não deixa pegada. Ninguém sabe por onde fomos”. O sonho ganha forma, os anseios crescem, não há volta a dar.

No fim, João, eu vou pedir-te para ficar”. Mas não, João não fica. João quer voar, João quer cumprir o sonho. “Fica João”. É demasiado tarde para voltar atrás.

Quando é que ele falha? Que ele cai? Que começa a morrer?”. Ninguém parece acreditar nos sonhos maiores que o tamanho do homem. É preciso tentar, mesmo que pareça impossível.

João Torto é um espetáculo simples mas bonito. Um trabalho que conta a sua história tanto nas palavras como nos silêncios. A personagem dividida pelos quatros atores conjuga-se como um todo na sua densidade e complexidade.

As próprias asas que levaram João Torto ao sonho (e à falha) são construídas ao longo da peça. Somos conduzidos para uma época onde as limitações eram tantas, contudo não deixaram de ser ultrapassadas. É possível dar o salto por cima das maiores adversidades para atingir o sonho, mesmo que a falha seja uma constante no percurso.

Somos, com Leonor Keil, Margarida Gonçalves, Miguel Fragata e Rafaela Santos, também nós João Torto. Queremos voar com o espetáculo, construir as nossas próprias asas, perceber que também podemos falhar. Mas não desistir.

A criação da Magnólia Teatro, com direção artística de Rafaela Santos e dramaturgia de Fernando Giestas, está em exibição de quarta a sábado às 21:15 e aos domingos às 16:15.

Tentar voar. Tentar Sonhar. Mesmo que isso implique falhar. Porque quem nasce Torto, talvez um dia consiga percorrer os céus.

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