Quatro atores partem dos quatro cantos da Sala Estúdio. “Eu sou João Torto”, entoa cada um deles, que incorporarão diferentes facetas desta personagem cujo percurso varia entre a História e a Lenda. João Torto voará em cena no Teatro Nacional D. Maria II até 1 de abril.

A luta entre o ‘ser-se capaz’ e o ‘sentir-se capaz’ quando o destino está traçado à partida. Lutar contra a falha para concretizar os sonhos considerados impossíveis. “Vocês estão aqui porque sabem que este homem vai falhar”. Já que se vai falhar, o melhor é tentar fazê-lo da melhor forma possível – esta é a atitude perante a vida deste protagonista.

20 de junho de 1540. Conta a lenda (ou talvez a História) que João de Almeida Torto se lançou do alto da Sé de Viseu para voar com as asas que ele próprio construiu. João Torto era então um pioneiro que desenvolveu o seu trabalho, talvez inspirado pelo trabalho de Leonardo Da Vinci, cujas influências poderão ter sido trazidas por D. Miguel da Silva, Bispo de Viseu, que chegou à diocese em 1540.

Uma ambição desmedida, muito maior que o próprio homem, que nos leva mais alto. Um jogo constante entre as linhas que o próprio corpo desenha, calculadas por fórmulas matemáticas demasiado complexas para serem solucionadas e que acabam por tomar a forma de asas.

Tanto céu” para ser descoberto, nunca antes atravessado pelo ser humano. João Torto quer ser o primeiro a fazê-lo. Cruzar os céus como um pássaro, como o primeiro pássaro amarelo da infância.

Juntar tábuas e cordas para criar algo único que permite andar pelo mundo sem deixar rasto. “Voar não deixa pegada. Ninguém sabe por onde fomos”. O sonho ganha forma, os anseios crescem, não há volta a dar.

No fim, João, eu vou pedir-te para ficar”. Mas não, João não fica. João quer voar, João quer cumprir o sonho. “Fica João”. É demasiado tarde para voltar atrás.

Quando é que ele falha? Que ele cai? Que começa a morrer?”. Ninguém parece acreditar nos sonhos maiores que o tamanho do homem. É preciso tentar, mesmo que pareça impossível.

João Torto é um espetáculo simples mas bonito. Um trabalho que conta a sua história tanto nas palavras como nos silêncios. A personagem dividida pelos quatros atores conjuga-se como um todo na sua densidade e complexidade.

As próprias asas que levaram João Torto ao sonho (e à falha) são construídas ao longo da peça. Somos conduzidos para uma época onde as limitações eram tantas, contudo não deixaram de ser ultrapassadas. É possível dar o salto por cima das maiores adversidades para atingir o sonho, mesmo que a falha seja uma constante no percurso.

Somos, com Leonor Keil, Margarida Gonçalves, Miguel Fragata e Rafaela Santos, também nós João Torto. Queremos voar com o espetáculo, construir as nossas próprias asas, perceber que também podemos falhar. Mas não desistir.

A criação da Magnólia Teatro, com direção artística de Rafaela Santos e dramaturgia de Fernando Giestas, está em exibição de quarta a sábado às 21:15 e aos domingos às 16:15.

Tentar voar. Tentar Sonhar. Mesmo que isso implique falhar. Porque quem nasce Torto, talvez um dia consiga percorrer os céus.