O Campo Pequeno, em Lisboa, abriu as portas no passado sábado (dia 10) ao concerto solidário pela Associação Novo Futuro, que apoia crianças e jovens dando-lhes um lar e um ambiente o mais próximo possível do familiar. Deolinda, Ana Moura, Luísa Sobral, António Zambujo, Clã, Cuca Roseta e os Anaquim marcaram presença e ofereceram a sua voz a esta causa.

Com tantos nomes importantes da música portuguesa reunidos, o resultado só poderia ser uma noite bem passada em companhia de um público maioritariamente “familiar”, que fez questão de ajudar esta Associação e levar os seus filhos a participar neste concerto solidário. Mesmo sendo noite de Festival da Canção e, ainda que tivessem sobrado alguns lugares na bancada e mesmo nos lugares sentados da plateia, o Campo Pequeno estava cheio e unido para ouvir tantas vozes lusitanas.

A abrir o espectáculo, por volta das 22h00 deste dia 10 de Março, esteve uma ex-concorrente do programa de talentos Ídolos, Maria Bradshaw, que cantou Chuva, belíssimo tema da fadista Mariza, e ainda Bom Feeling, de Sara Tavares, que começou a espalhar a alegria no público que escutava atentamente.

Seguem-se os sempre animados e bem-dispostos Anaquim, que elucidaram os presentes para a importância de estarem ali a ajudar a causa e as crianças da Associação. Cantaram e bem As Vidas dos Outros, Desnecessariamente Complicado, tema single do novo disco homónimo. Chamaram Manuela Azevedo (Clã) para nos levar ao mundo dos pequeninos com Tom Sawyer. Este intercâmbio com os artistas presentes foi algo constante durante toda a noite.

A jovem fadista Cuca Roseta, que se seguiu, abriu a sua actuação com uma belíssima versão de Estranha Forma de Vida, tema imortalizado por Amália Rodrigues, a quem a jovem apelidou de “uma grande poetisa”. Da canção, os primeiros versos foram declamados em vez de cantados. Foi um dos momentos altos da noite. O silêncio instaurou-se, pois o fado assim o pede, mas ao terminar logo se ouviram aplausos efusivos e uns “até me arrepiei” de vozes de admiração pela grandeza desta jovem voz. Nos Teus Braços, um original da fadista, foi o que se seguiu e não ficou nada atrás da interpretação anterior. Ouviu-se ainda Barco Negro, outro tema popularizado pela grande Amália, mas interpretado hoje por vários fadistas. Cuca Roseta chama ainda Maria Bradshaw para a acompanhar num último fado em dueto, Porque Voltas De Que Lei, referindo-se à jovem como uma voz promissora.

A noite estava calma. Talvez tenha sido impressão ou defeito da localização, mas a cantora que se seguiu a par dos Deolinda e de Ana Moura, foi talvez das mais aplaudidas da noite – Luísa Sobral. A jovem revelação nacional voltou a ser a cereja no topo do bolo pela sua simplicidade e juventude contagiante. Cumprimentou o Campo Pequeno, agradeceu,  agarrou a harpa e começou com o conhecido tema Not There Yet, seguido de Japanese Rose, que retrata a vida de uma jovem que perdeu os seus pais no tsunami do Japão, que ocorreu à exactamente um ano, relembrou a cantora. Um momento verdadeiramente enternecedor e que derreteu até os corações mais resistentes foi o dueto com António Zambujo na canção Inês, que fala do imortal amor de D. Pedro e Inês de Castro. Luísa Sobral despede-se em tom mais divertido com o tema Xico, que fez as delícias dos miúdos e dos graúdos, que completaram a letra no verso “De Espanha nem bom vento nem bom casamento”.

António Zambujo voltou (felizmente) porque só o dueto, apesar de lindíssimo, iria saber a pouco, especialmente para a plateia feminina, que não pôde esconder o agrado nem deixar de aplaudir este jovem fadista que sabe como animar e seduzir os seus ouvintes. Começa com um dos  seus temas mais conhecidos, Zorro, embalando o público. Mostra a alma de fadista com o tema Foi Deus, numa versão sua, diferente da interpretada pela Amália. Não poderia deixar de referir o dueto com Ana Bacalhau em que, numa versão muito própria de A Tua Frieza Gela, em que Ana interpretava uma fria enamorada, que não correspondia ao amor do personagem do alentejano A. Zambujo. O público riu-se, como seria de esperar, quando Zambujo chama “magana” a Bacalhau que teimava em dizer “não” ao seu hipotético amor. O cantor tem ainda a atenção e manifestação de uma grande maioria da audiência quando refere o Benfica num trecho da canção Flagrante.

Tanta beleza e boa música portuguesa estava quase perto do fim, seguiram-se os muito aguardados Deolinda, que cantaram Um Contra O Outro e o também habitual Fado Toninho, tema que os torna conhecidos em 2008 no nosso país, antes de se revelarem ao mundo. De destacar o inesperado mas vibrante dueto das duas Anas, em que a vocalista dos Deolinda chama ao palco a grande voz do Fado, Ana Moura, para cantarem a uma só voz Passou Por Mim e Sorriu, um tema da banda mas que nem por isso destoou, as vozes das duas combinaram na perfeição, dando um ar “mais fado” ao “fado diferente e irreverente” dos Deolinda. Saem do palco num animado Fon-Fon-Fon.

Ana Moura volta para cantar temas seus (Os Búzios, Caso Arrumado)  mas também, para cantar com Cuca Roseta, algo que não é novo, pois já no Cool Jazz Fest do ano passado cantaram o tema Rosa Cor de Rosa de Ana Moura juntas, algo que ninguém pode dizer não combinar, pelo menos não neste caso. Ouviram-se belas vozes do fado a jogar em harmonia e, neste caso, animaram e deram alegria.

Para fechar esta noite solidária estiveram os Clã, banda sempre pronta para cantar em plenos pulmões e fazer saltar e cantar toda a gente, especialmente com o tema recente do álbum Disco Voador, Asas Delta, no qual todos temos “asas nos pés” e podemos voar. Para além disso deixaram todos Embeiçados, passaram pelo tema Amigo do Peito e ainda H2Homem.

Assim terminou a noite. Com a certeza que os fundos recolhidos dos bilhetes revertem para as crianças de um dos lares da Associação Novo Futuro. Iniciativas destas são sempre de louvar e provam que a música tem força mas também tem solidariedade.

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.

Fotografias: Andreia Martins