As irmãs Pega Monstro apresentaram, no passado sábado, no Kolovrat – que sótão! -, o seu primeiro longa duração. A dose de insistente rebeldia mantém-se, mas agora menos desengonçada. Surpreenderam pela positiva.

Kolovrat é o lote 79 da rua D. Pedro V, a caminhar para o Bairro Alto. Discreta e aconchegante, recheada de mobília antiga. A acústica era péssima, mas também não era para ali chamada. Os amigos da «fetra» compareceram em peso, mas para a sala ter enchido (e ter acabado o vinho no bar), é porque há cada vez mais gente que paga para ver as Pega Monstro.

Foram os Putas Bêbedas que aqueceram o soalho. Sujos, descomprometidos e indisciplinados. Foram favorecidos pela impercetibilidade das letras pornográficas e estúpidas e pelo curto tempo de atuação, que não permitiu que nos fartássemos da quase total monorritmia (apesar do destaque positivo que a bateria teve). As músicas são repetitivas mas robustas – até pelo voluntário e ininterrupto feedback -, o ideal para começar a entrar no espírito.

Pouco mais de meia-hora depois, as irmãs Júlia e Maria Reis saem da primeira fila para tomarem conta das operações, com o alto patrocínio do «tio» B Fachada, distinta figura na plateia (e produtor do disco). Ganharam espaço no circuito alternativo porque se borrifam para as convenções musicais e todas as regras de construção lírica. Mas perceberam que a aceitação da insubordinação é sol de pouca dura e, com muito mérito, esforçaram-se por melhorar, sem comprometer o seu código genético.

O que vimos foi um concerto com (pouca) cabeça, tronco e membros. A guitarra e a bateria estiveram seriamente coordenadas e nas músicas do novo álbum não apostaram tanto na desafinação vocal. Sejamos francos: música má é música má mesmo que o seja propositadamente. O aperfeiçoamento é muito bem-vindo – o som é mais coeso e os acordes mais elaborados, tal como as letras (mantendo o estilo minimalista, quase todas têm uma ou outra expressão absolutamente convincente). As Pega Monstro estão mais atinadas.

Carocho, Lisboa-Porto e, claro está, Paredes de Coura foram as mais cantadas e aplaudidas. Como pontos fracos há que registar a forma pouco ambiciosa como aproveitaram o encore, que devia ter sido mais forte e demorado, e o facto de os refrãos se repetirem demasiadas vezes: seria benéfico se não acontecesse em todas as músicas.

Os tempos dos serões em família em casa para ver o Festival da Canção fazem parte do passado. Quem trocou a emissão deste ano pelo sótão acolhedor do Kolovrat não fez a escolha errada. O festival já não é o que era e as Pega Monstro são o que nenhuma banda portuguesa ainda foi.

Pode ter sido dado a entender, mas as Pega Monstro fazem questão de realçar que não fazem música a pensar na aceitação que possam ter: “se isto não é música então faz tu uma canção / e se eu desafino canta lá tu, ó meu cabrão”, reza a Fetra.

Parabéns, meninas.

Texto por Pedro Pereira e Rita Sousa Vieira
Fotos por Rita Sousa Vieira