Formados em 1995 por Nicolas Godin e Jean-Benôit Dunckel, os Air são um duo de Electronica francês que, a par de nomes como Daft Punk ou Cassius, chegou à fama nos anos 90, tendo para isso contribuído o grande sucesso do seu primeiro LP, Moon Safari (1998). 14 anos e 5 álbuns depois, os Air  lançaram, no passado dia 6 de Fevereiro, o seu sétimo disco de originais, Le voyage dans la lune, que é o tema do artigo de hoje. 

Quem conhece bem os meus gostos musicais sabe que eu sou um grande fã da Electronica francesa, e que admiro nomes como Daft Punk, Cassius, Jean Michel Jarre e mesmo os próprios Air, pela forma como estes artistas/grupos produzem uma música singular que é, em iguais medidas, dançável e complexa. Assim sendo, é normal que eu tenha ficado com as expectativas em alta para este Le voyage dans la lune, especialmente por ser o sucessor de Love 2 (2009), um álbum que me agradou bastante. Porém, depois de ouvir o disco, não consegui deixar de sentir um sabor amargo na boca, pois apesar de não ser um mau LP, Le voyage dans la lune não consegue ir acima do nível mediano.

Conceptualizado e concebido para servir de banda-sonora de Le Voyage dans la lune, o pioneiro filme mudo francês de ficção científica, datado de 1902, o sétimo disco dos Air vem na linha daquilo que o duo tem vindo a desenvolver ao longo da sua carreira, de fusão de uma Electronica de pendor mais Ambient com o Rock e a Pop. Contudo, este LP mostra um significativo “salto em frente” nesse campo, com os Air a caminharem para um som mais analógico e “orgânico”. Isso faz com que tenhamos em alguns momentos de Le voyage dans la lune momentos em que a Electronica é “abafada” quase por completo pelo Pop-Rock.

Ao nível da produção, a cargo de Godin e Dunckel, Le voyage dans la lune consegue trazer-nos uma estética habilmente equilibrada entre o polido e o “sujo”, atingindo um meio-termo muito aprazível ao ouvido. Nas letras, todas elas relacionadas com o conceito subjacente do álbum, não há erro nenhum a apontar, algo que também acontece no departamento vocal, onde tanto os Air como as convidadas (Victoria Legrand, dos Beach House, e Au Revoir Simone) têm participações notáveis e execuções irrepreensíveis, que muito me agradaram.

Porém, este Le voyage dans la lune está, a meu ver, carregado de falhas que perturbaram a minha experiência e macularam a minha visão do disco. A encabeçar a lista de defeitos do LP está, sem dúvida, a impressão que tive de que este registo não funciona como um todo coeso e único. É possível que este álbum conceptual só consiga fazer passar essa mesma impressão quando combinada com o filme para a qual serve de banda-sonora, mas a verdade é que, enquanto obra isolada, Le voyage dans la lune soou-me a algo demasiado disperso e mal organizado para conseguir retirar dele uma história coerente.

Aliado a isso está um problema flagrante de consistência das canções. Apesar de ser certo que estão presentes em Le voyage dans la lune peças com muita qualidade e extremamente cativantes, a verdade é que neste disco existe também um número considerável de faixas bastante medianas e irrelevantes, que fazem com o álbum pareça uma autêntica “montanha-russa” nesse departamento. Todos estes defeitos fizeram com que a minha opinião do sétimo disco dos Air fosse, de certa forma, corrompida.

Na hora de apontar canções favoritas, vejo-me obrigado a referir a frenética Seven Stars, a cerebral Cosmic Trip, ou aquela que é, a meu ver, a peça superior de Le voyage dans la lune, Parade, uma efusiva e electrizante faixa. No lado “negativo” da balança encontram-se, na minha opinião, Moon Fever, Who Am I Now? e Lava, que foram de longe as peças que me impressionaram menos.

Resumindo, Le voyage dans la lune é uma ousada tentativa de criar uma obra conceptual assente num filme com mais de 100 anos, uma iniciativa diferente e que exigiu grande coragem por parte dos Air. Contudo, apesar de me agradar esse espírito intrépido por parte do duo, a verdade é que o disco, em sim, acaba por ser demasiado mediano, não passando muito acima do nível “mediano”. Assim, Le voyage dans la lune acaba por ser, a meu ver, a pior obra do duo francês, e uma grande desilusão face ao seu esplendoroso antecessor. Porém, os seus pontos altos servem para matar as saudades daqueles que são, como eu, grandes fãs dos Air.

Nota Final: 6,3/10

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945