Parece que hoje é vez de mais uma homenagem no âmbito da rubrica Gira o Disco, um espaço cultural onde, ao longo de várias semanas, será recordado o legado de alguns dos maiores nomes musicais de todos os tempos. Ele foi um dos pioneiros do Rock’n’roll e uma importante influência na emergência do rock das décadas posteriores ao seu tempo. Hoje é vez de um brinde ao artista que foi Buddy Holly.

Só quero dizer que quando tinha dezasseis ou dezassete anos de idade, fui ver Buddy Holly actuar no Duluth National Guard Armony e estava a tês metros de distância dele… ele olhou para mim. E eu só tive aquele sentimento de que ele – não sei como nem porquê -, mas sei que ele esteve ali connosco durante todo o tempo que levámos a gravar este disco“. Contou Bob Dylan em1998, quando fazia o seu discurso de agradecimento após vencer o Grammy de Álbum do Ano por Time Out Of Mind, referindo-se ao espectáculo de 31 de Janeiro de 1959, duas noites antes da morte de Holly.

Buddy Holly foi um cantor e compositor norte-americano que produziu alguns dos mais influentes trabalhos da cena do rock. Já perito em vários géneros musicais, tornou-se logo aos 16 anos, um músico experiente. Embora o talento e a carreira precoces, a vida do artista foi algo breve. Autor de verdadeiros sucessos como Everyday e Peggy Sue, Buddy era uma estrela em ascensão quando, em 1959, um trágico acidente aéreo provocou o seu desaparecimento prematuro.

Buddy Holly, nome artístico de Charles Hardin Holley, nasceu a 7 de Setembro de 1936 em Lubbock, no estado norte-americano do Texas, como o mais novo de três irmãos. A sua família deteve, desde muito cedo, uma grande influência sobre o interesse que Buddy viria a demonstrar pela música, sendo que, ainda bem jovem, aprendeu a tocar uma variedade de instrumentos com a ajuda dos irmãos mais velhos: ele aprendeu a tocar piano e violino em idade precoce, enquanto os seus irmãos lhe ensinavam o básico da guitarra, além de que os seus pais sempre se mostraram favoráveis ao crescente talento musical do filho.

Aos 5 anos de idade, venceu um concurso de talentos ao cantar o tema Have You Ever Gone Sailing (Down the River of Memories). Mais tarde, aos 12 anos de idade, Buddy Holly gravou, com a ajuda de um gravador amador, uma versão de My Two Timin’ Woman de Hank Snow, fazendo-se já notar a sua capacidade para cantar, embora em altura de mudanças vocais, devido à puberdade.

Os tempos passam e aos poucos Buddy Holly vai encontrando e definindo a sua posição na cena musical. Depois de assistir ao concerto que Elvis Presley deu em Lubbock, em 1955, Holly começou a adoptar um estilo rockabilly, caracterizado por um forte ritmo acústico, acompanhado de um baixo percussivo. Entretanto, não demorou muito tempo até que ele, juntamente com os seu amigos Bob Montgomery e Larry Welborn, viessem a abrir concertos de outros artistas de renome, como Bill Haley & His Comets e até mesmo Elvis Presley. A partir daqui, o nome de Buddy Holly viria a crescer cada vez mais até ao que hoje conhecemos dele.

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Naquele tempo – hoje, em alguns casos, ainda assim é -, a integração de um nome no cenário do rock’n’roll obrigava à adopção de um certa rebeldia, e com Holly não foi excepção. Apesar de todo o apoio por parte da família, tendo os pais, inclusive, transmitindo-lhe muitas vezes ideias para músicas e tendo escrito, aliás, uma carta para a edição do jornal de Lubbock em defesa dos amantes adolescentes do rock’n’roll, Buddy Holly nunca se teria tornado um pioneiro desse estilo musical se não tivesse enveredado por uma dada postura de rebeldia e independência.

A abertura do concerto de Bill Haley & His Comets por parte de Holly chamou a atenção da Decca Records que rapidamente assinou contrato com ele, surgindo aqui a sua grande oportunidade até então. Posteriormente, Holly formou a sua própria banda, mais tarde conhecida como The Crickets, que consistia, na altura, em Niki Sullivan, na guitarra, Joe B Mauldin, no baixo, Jerry Allison, na bateria e Holly, na voz e na guitarra. Depois da banda ter viajado até Nashville para gravar com o produtor Owen Bradley, aventura que acabou fracassada, devido às restrições do produtor face à gravação dos temas, Buddy Holly começou a gravar nos estúdios de Norman Petty, em Clovis, no Novo México. De entre as músicas que por ali gravou, destacam-se a lendária That’ll Be The Day e as famosas Rave On e Oh Boy.

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Depressa Petty tratou de entrar em contacto com algumas editoras, pois acreditava que os temas poderiam tornar-se em grandes sucessos. Entretanto, a banda norte-americana é contratada pela Brunswick Records e, quase que simultaneamente, surge outra gravadora, desta vez a Coral Records, com quem Buddy Holly assina contrato como artista solo. Este facto colocou-o numa posição incomum e exclusiva, pois agora tinha dois contratos assinados ao mesmo tempo, tendo gerado alguns desentendimentos entre as editoras.

That’ll Be The Day acabou por ser lançado como single a 27 de Maio de 1957 e em Agosto do mesmo ano surge outra grande oportunidade: Buddy Holly & The Crickets são contactados para actuar no lendário Apolo Theater, verdadeiro espaço dedicado à música negra norte-americana. Face a isto e embora não tenham ocorrido protestos mais sérios, foi difícil aquele público exigente, maioritariamente negro, aceitá-los como os primeiros “brancos” a pisarem o palco daquele salão de música. Tratava-se de um recinto inteiramente dedicado ao Rhythm & Blues e a banda de Buddy Holly pertencia ao mundo do rockabilly. Ainda assim, o espectáculo foi um êxito.

Corre o ano de 1958 quando Buddy Holly conhece aquele que viria a ser o grande amor da sua vida, Maria Elena Santiago, com quem acaba por se casar. Pouco tempo depois, abandona a parceria com Petty, separa-se dos The Crickets  e é então que inicia a sua carreira a solo.

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Já em 1959, Holly enceta uma histórica digressão de três semanas, Winter Dance Party, juntamente com outros míticos nomes como Ritchie ValensBig Bopper e Dion & The Belmonts. Jamais era de prever que o fim do ícone estava próximo. Depois de um concerto em Iowa, a 2 de Fevereiro, Buddy, Ritchie e Bopper apanham um avião para viajar até à cidade onde o concerto seguinte iria ter lugar, mas o pior estava mesmo para acontecer. Pouco depois de levantarem voo, o avião caiu, culminando na morte dos músicos e dos restantes passageiros. Buddy Holly desaparece assim prematuramente, aos 22 anos de idade.

Quanto aos The Crickets, estes continuaram na estrada e a actuar como banda, tendo-se dado ao longo dos tempos várias mudanças na sua formação. O colectivo veio a terminar na década de 70, mas volta a reunir-se nos anos 90, estando a banda junta até hoje.

Buddy Holly deixou um vasto legado e é importante que tal não caia em esquecimento, a sua música era sofisticada e uma novidade para o tempo em que inseriu, graças por exemplo, à introdução de novos instrumentos ao rock’n’roll, à sua notabilidade como guitarrista e às suas harmoniosas e algo complexas composições e melodias. Holly abriu caminho para nomes como John Lennon, Paul McCartney, Bob Dylan, Mick Jagger, Alan Clarke, entre outros, sendo que a sua obra foi uma peça indispensável ao progresso da música mundial ao longo do tempo.

httpv://www.youtube.com/watch?v=YwHrx0r0t2s&feature=related

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.