Desde 22 de janeiro, todos os domingos até meados de março, o Espalha-Factos vai recordar um ator ou uma atriz, que tenha marcado a sua época, mas que caiu em esquecimento ou não foi suficientemente reconhecido. Percorreremos atores de diversas décadas, até à atualidade. Falaremos da sua vida, carreira, papéis mais icónicos e do legado que deixaram.

Com cerca de 56 filmes, 10 nomeações aos Óscares e uma vida digna de um filme de Hollywood, Paul Newman é o ator em destaque no A Recordar de hoje. Paul Leonard Newman nasceu a 26 de Janeiro de 1925 em Shaker Heights, nos Estados Unidos. Filho de um comerciante de artigos desportivos, Newman ingressou na marinha americana e só depois de ter pedido dispensa das suas funções conseguiu iniciar os seus estudos no Kenyon College.

Foi a interpretar pequenos papéis nas peças da escola que a paixão pelo teatro e  pelo cinema despertou. Após terminar o colégio, inscreveu-se em duas escolas profissionais de atores: primeiro a Yale School Drama, depois mudou-se para Nova Iorque, onde entrou na famosa escola de formação de atores Actors Studio, dirigida por Lee Strasberg.

A sua primeira aparição no grande palco da Broadway, na peça Picnic (1953), valeu-lhe o seu primeiro contrato com a Warner Brothers, que apostou no seu talento levando-o para o grande ecrã. Ninguém diria que o seu primeiro filme, The Silver Chalice (O Cálice Sagrado), estreado em 1954, poderia ser um início de carreira com o pé esquerdo. A sua primeira interpretação foi considerada tão desastrosa, que o ator estreante publicou um pedido de desculpas formal sobre a sua performance, ocupando uma página inteira de jornal.

Contudo, a segunda chance no mundo do cinema conseguiu provar que a interpretação anterior não fez justiça ao seu talento. Em Somebody up there likes me (Marcado pelo Ódio) de 1956, Newman deu vida ao jogador de boxe Rocky Graziano e a sua atuação foi muito apreciada pela crítica. Pela primeira vez, Paul Newman tinha conquistado o público e a partir desse filme foi sempre a somar sucessos.

Os filmes que receberam maior reconhecimento na sua carreira foram Cat on a Hot Tin Roof (Gata em telhado de zinco quente) e The Hot Long Summer (Paixões que escaldam), cujas atuações foram contempladas com o prémio de melhor ator no Festival de Cannes. No fim da década de 50, Paul tornou-se a estrela do cinema americano, sendo líder de bilheteiras nos filmes que estrearam na década seguinte. Destacam-se, nos anos 60, os três filmes nomeados para os Óscares: The Hustler(1961), Hud (1963) e Cool Hand Luke (1967).

Em The Hustler (A vida é um jogo), Newman interpreta Eddie Felson, um talentoso jogador de snooker com uma personalidade autodestrutiva. O sucesso do filme levou a que Martin Scorcese realizasse a sequela em 1986, intitulada The Color of  Money (A cor do dinheiro), também protagonizada por Paul Newman. Este filme recebeu apenas o Óscar de melhor direção artística, apesar das nomeações nas várias categorias, como a de melhor filme, melhor ator, melhor atriz, melhor ator secundário e melhor argumento adaptado. The Hustler foi também premiado como melhor filme nos BAFTA de 1962.

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Em Hud (O mais selvagem entre mil), realizado por Martin Ritt, Paul Newman encarna um jovem rebelde desprovido de caráter e escrúpulos. Hud conseguiu arrecadar mais Óscares que o anterior, contudo Paul Newman não conseguiu ser o feliz contemplado e levar o prémio para casa. Melvyn Douglas recebeu o Óscar de melhor ator secundário e Patricia Neal o de melhor atriz, sendo Paul Newman o único ator nomeado no filme a não ser premiado pela Academia.

Também em Cool Hand Luke (O presidiário), Paul Newman não ganhou o Óscar de melhor ator, ficando-se apenas pela nomeação. Já o seu companheiro de cena George Kennedy arrecadou o prémio de melhor ator secundário. Neste filme, Newman é Luke Jackson um ex-soldado condecorado que é preso na Geórgia por ter causado tumultos na cidade, danificando parquímetros. As regras da prisão são tão severas que quando a sua mãe morre, Luke é impedido de prestar a sua última homenagem, sendo preso numa cela solitária.

Paul Newman também deu cartas a nível de realização, com o filme Rachel, Rachel (Raquel, Raquel), um drama que estreou em 1968. Baseado na peça a Jest God de Margaret Laurence, o filme retrata a história de Rachel Cameron, uma professora solteirona que vive com a sua mãe viúva num apartamento, em cima da funerária do pai. Rachel e sua amiga Calla decidem participar numa reunião espiritual com o reverendo Wood e num dos convívios a professora acaba por revelar o sentimento que nutre pelo pregador, que não é claramente correspondido. Quando o seu ex-colega de escola Nick chega à cidade, Rachel apaixona-se e explora finalmente a sua vida sexual. Contudo Nick apenas a considera um caso esporádico e foge da relação quando pensa que ela está grávida.

Este filme, com um enredo chocante, concedeu pela primeira vez a Paul Newman o Globo de Ouro de melhor realizador. Nomeado dez vezes para os Óscares na categoria de melhor ator, só em 1986, com o filme The Color of Money (A cor do dinheiro) de Martin Scorcese, Newman conseguiu finalmente o reconhecimento da Academia pelo seu trabalho, ganhando a estatueta dourada. Curiosamente, no ano anterior tinha recebido um Óscar especial pela sua carreira, mas o gosto de ganhar um prémio pela performance num filme tornou-se mais gratificante.

Depois de conseguir o prémio de melhor ator e o Óscar pelos anos de trabalho na indústria cinematográfica, Newman afastou-se do grande ecrã, fazendo menos filmes nas décadas de 90. Tornou-se proprietário de uma fábrica de molhos e condimentos, intitulada Newman’s Own, revertendo os lucros para Instituições de caridade e para a sua equipa de trabalho.

O derradeiro filme da sua carreira, que teve a aclamação da crítica, foi Road to Perdition (Caminho para a Perdição), realizado em 2002. Paul Newman trabalhou ao lado de atores como Tom Hanks, Jude Law e Daniel Craig e conseguiu concorrer aos Óscares, neste caso como ator secundário.

Vítima de cancro no pulmão, o ator negou publicamente ser portador desta doença, mantendo em sigilo o seu tratamento. Ao saber das poucas semanas de vida, o ator decide encerrar as sessões de quimioterapia e retirar-se para o seu lar em WestportPaul Newman acaba por morrer a 26 de Setembro de 2008, deixando um legado de filmes inconfundível.

Apesar do Óscar de melhor ator e o Globo de Ouro na categoria de melhor realizador, Paul Newman poderia ter sido mais reconhecido pelas suas maravilhosas performances. Só perto do final da sua carreira é que recebeu os prémios dignos do seu talento, quando nos anos 50 e 60 era dos melhores atores e mais aclamados por cada filme cumprido. O reconhecimento veio tarde, mas chegou ainda durante a sua vida. O mérito de Paul Newman nunca será esquecido e os seus filmes eternizaram-se no cinema, sendo ainda vistos por várias gerações.