Escrito e realizado pelo jovem cineasta português Vicente Alves do Ó, Florbela debruça-se sobre a vida atribulada da poetisa Florbela Espanca e promete ser um sério caso de sucesso do cinema nacional. Com Dalila Carmo no principal papel, Florbela é a segunda longa-metragem de Alves do Ó, depois de Quinze Pontos na Alma. O restante elenco conta com jovens mas já consagrados actores nacionais, como o são Ivo Canelas, Albano Jerónimo e Rita Loureiro.

Florbela é, antes de mais, um filme arriscado. Como o seria, aliás, qualquer filme que se debruce sobre poetas atormentados. Levar a vida de um poeta, no caso de uma poetisa, ao grande ecrã, pode significar pôr a cabeça a prémio. A não ser, passe a expressão “estado-novista”, que se sabia exactamente o que se quer e para onde se vai.

Estamos, felizmente, perante um desses casos. Florbela não é um filme de época. É, ao invés, um filme de todas as épocas, característica facilmente articulável com a intemporalidade da obra da poetisa que retrata. Mas como, num filme onde as referências à sua obra são quase inexistentes? Esta opção é notória desde os primeiros minutos, e é assumida corajosamente a partir daí. Não há selecção de trechos de poemas para promover leituras posteriores, apenas reverências a espaços à capacidade lírica da poetisa, somente para não fazer esquecer a figura com que estamos a lidar.

Talvez por isto em Florbela seja mais importante o que não é dito do que o que é dito. Os diálogos, não sendo especialmente brilhantes denotam, infelizmente, alguma extemporaneidade, observação que não é, de todo, extensível à cinematografia, aqui servida como um quadro que ganha vida e que faz por tudo dizer. Todavia, a qualidade técnica do filme – tida como fundamental para um filme destes – parece ir um pouco além dos seus limites, parecendo consentir uma certa dose de abstracção relativamente à obra de Espanca, que não seria desejável por inteiro.

Afigura-se como positiva a opção por não enveredar por um detalhado registo biográfico de Florbela Espanca, alguém cuja vida espartilhada e recalcitrante deixaria à partida antever uma perspectiva mais ampla da sua (curta) vida. Descartado o biopic, Alves do Ó centra-se naqueles quatro dias de 1927 que Florbela Espanca passa com o irmão em Lisboa, após o final atribulado do seu segundo casamento. Alves do Ó supera o desafio de condensar neste curto período todo um universo desafortunado, desequilibrado e irreverente de Florbela Espanca, e conseguiu-o sobretudo com uma belíssima realização e com um assinalável trabalho de actores.

A espinha dorsal do filme, o triângulo composto por Florbela (Dalila Carmo), o seu irmão Apeles (Ivo Canelas) e o seu terceiro marido Mário Lage (Albano Jerónimo), corporiza notavelmente a enorme tensão emocional que gravita em torno de Florbela. Estes dois homens simbolizam a forte presença masculina ao longo da vida da poetisa (Florbela casou três vezes e só postumamente foi reconhecida como filha pelo seu pai biológico), ambos profundamente apoderados por ela e pelos seus encantos, tão diferentes dos da vida mundana da época, e só possíveis em alguém que no Portugal da década de 1920 se situasse já tão à frente desse tempo.

Com estreia nacional marcada para amanhã, dia 8, Florbela tem tido ante-estreias em vários pontos do país, a primeira das ocorrida em Vila Viçosa, no passado dia 2, vila natal da poetisa. É, em suma, um filme que relembra o potencial do cinema português e o talento que temos entre portas.

7/10

Ficha Técnica:

Título original: Florbela

Realizado por: Vicente Alves do Ó

Escrito por: Vicente Alves do Ó

Elenco: Dalila Carmo, Ivo Canelas, Albano Jerónimo, Rita Loureiro, Anabela Teixeira, José Neves

Género: Drama

Duração: 119 minutos

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.