Wuxia é um género literário e cinematográfico que mistura fantasia e artes marciais. Wu significa “marcial” ou “militar” e xia, significa “honrado” ou “herói”. Com uma origem que se perde no tempo, as histórias Wuxia contam as lendas de guerreiros de artes marciais, que com um grande sentido de honra, muito estudo e supressão dos seus próprios sentimentos em nome de um bem superior, conseguem ultrapassar todas as adversidades. Heróis de Outrora, Heróis de Agora é uma retrospectiva cinematográfica de como o século XXI (2000-2010), foi repescar estas estórias milenares e as actualizou aos dias de hoje, sem desprezar os seus antigos valores.

A Maldição da Flor Dourada é um épico de 2006, que foi, à data o filme mais caro da história do cinema chinês. Este foi o último filme do sonho em technicolor, que foi a trilogia wuxia de Yimou iniciada com Herói em 2002 e, dois anos depois, O Segredo dos Punhais Voadores. Foi precisamente a primeira obra que representou o expoente máximo da trilogia, não obstante a qualidade elevada dos filmes seguintes. Em A Maldição da Flor Dourada, Yimou retoma temas dos filmes anteriores tais como triângulos amorosos, honra e traição.

A Maldição da Flor Dourada é uma adaptação da peça de teatro Tempestade de 1934 da autoria de Yu Cao. Esta obra encontra eco em dramaturgos tão importantes como Ibsen, Shakespeare e do período clássico, Sófocles. Porém, chamar-lhe tragédia é um eufemismo.

Na véspera do Festival do Crisântemo, o palácio recebe a visita do Imperador Ping (Chow Yun-Fat), retornado de mais uma campanha militar. Ele chama a si todos os seus filhos: o príncipe herdeiro Wan (Liu Ye), o prodígio Jai (Jay Chou) e Yu (Qin Junjie), o mais novo e carente de atenção. A reunião da família imperial, pela primeira vez em muito tempo, faz brotar a desconfiança de que irá finalmente, anunciar o primeiro filho como seu sucessor. Esta notícia deixa o médico imperial Jiang (Ni Dahong) particularmente satisfeito, pois ele conhece a ligação entre a sua própria filha Chan (Man Li) e Wan, o provável sucessor de Ping. Mas no palácio, nem todos exultam com este regresso, nomeadamente a Imperatriz Fénix (Gong Li). Durante os longos anos de ausência do imperador, entregou-se a uma paixão incestuosa com o enteado Wan. Ela teme pela sua vida, tanto mais que é obrigada pelo imperador a tomar um remédio a todas as horas. A saúde de Fénix deteriora-se a cada momento e ela começa a demonstrar uma obsessão pouco natural pelo festival, passando, o dia a bordar centenas, senão mesmo milhares de crisântemos.

Yimou rende-se como nunca, ao fatalismo. Ele pegou numa história dramática e enlouqueceu com ela. Uma história antiga, de resto muito similar à de Inimigos do Império, que teve a infelicidade de estrear no mesmo ano, depois da estreia do referido filme. Não fosse a estreia dessa obra, com a estrela internacional e favorita chinesa Zhang Ziyi que também entrou em O Segredo dos Punhais Voadores de Yimou, A Maldição da Flor Dourada teria ainda maior aclamação.

É uma curiosa obsessão, aquela que grita pelo uso abundante de todo o espectro de pigmentos. Os cineastas de wuxia do novo milénio tiram partido de toda a palete de cores que não raramente contrasta com temas negros. Esta acaba por infundir-lhe ainda mais frequentes vezes, um sentimento de esperança inútil, devido à predilecção geral por narrativas de teor dramático. Zhang Yimou é o mais emblemático destes realizadores e aquele que marcou definitivamente o wuxia do novo milénio com visuais que evocam quadros impressionistas. Quando pensamos em wuxia, é o pictórico de Yimou que nos vem à mente, a sua assinatura. Uma imagem interessante se se considerar que a pintura chinesa do séc. X, particularmente durante a dinastia Tang, período no qual, A Maldição da Flor Dourada ocorre, era monocromática ou desbotada de todo.

 

Após dois filmes de grande sucesso junto da crítica e do público, Zhang Yimou dedica-se a novas obsessões. O guarda-roupa é mais opulento que nunca e historicamente incorrecto. Tudo a bem do que fica melhor na tela. As cenas de luta são focadas com um ponto de vista quase microscópico. As lâminas tocam-se, raspam-se e repelem-se, com um pormenor que na verdade não acrescenta nada. Idealmente seriam planos médios ou de conjunto, que permitissem contemplar a coreografia elaborada a que os filmes de Yimou já nos habituaram. Também a montagem está aquém do esperado. A transição de cenas perdeu suavidade e já não existe a fluidez dos filmes anteriores. Por fim, existe um acrescento dispensável de imagens digitais na batalha final de dimensões homéricas.

A maior vitória da direcção de Yimou vai para o casting de Gong Li, que não participava num filme deste cineasta desde 1991, em Esposas e Concubinas. A câmara de Yimou tem uma relação muito especial com Li. Sempre que a narrativa parece perder o fulgor, ela encontra a face da actriz e o plano aproximado faz esquecer essas dificuldades. Ela é a âncora do filme. Gong Li, verbaliza mais com um olhar que muitos actores num monólogo. Um antagonista menos forte que Chow Yun-Fat seria devorado pela capacidade de representação desta actriz. Ele desempenha o único personagem que resiste à histeria colectiva. Exceptuando um brutal acesso de cólera que produz um dos espancamentos mais brutais vistos em película, ele permanece calmo, gélido até. E a troca de esgares viperinos entre o seu Ping e a imperatriz Fénix produz dos poucos momentos de sanidade e realismo na relação do casal real. Pois, que o resto é palavreado de circunstância gerado por duas criaturas unidas num casamento de conveniência. Com dois filhos em comum, eles parecem dois estranhos, que pouco mais tiveram do que as núpcias que geraram os seus descendentes. Tirando Jay Chou, poucos actores conseguem preencher o ecrã e rivalizar com os actores veteranos.

A Maldição da Flor Dourada não é mais do que um ressentimento que cresce fora de proporções e produz um efeito dramático de grande escala. Um equívoco, um exagero que se torna mais improvável a cada segundo e que leva a uma conclusão sórdida. Para a audiência do cinema do século XXI, torna-se difícil digerir alguns momentos histriónicos. Contudo, o quadro geral é de deslumbramento perante a última obra wuxia de Yimou. Um autor.

7/10

Ficha Técnica:

Título Original: Man cheng jin dai huang jin jia
Realizador: Zhang Yimou
Argumentista: Zhang Yimou e Yu Cao
Elenco: Gong Li, Chow Yun-Fat, Jay Chou, Liu Ye, Man Li, Ni Dahong e Qi Junqie
Género: Acção, Drama
Duração: 114 minutos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.