De timbre inconfundível, conhecido por muitos como o “homem de preto” e uma das vozes da música country/folk/blues  dos Estados Unidos, – é Johnny Cash -, o músico que conquistou o lugar de lenda, ao qual o Espalha-Factos dá destaque no Gira o Disco de hoje.

Definiu-se a si próprio como tendo uma personalidade inconstante: “Sometimes I am two people. Johnny is the nice one. Cash causes all the trouble. They fight.” Esta frase faz sentido, mas principalmente quando conhecemos melhor o seu percurso, os problemas que enfrentou na sua vida pessoal e na sua carreira. As drogas e as crises de existência estiveram patentes no seu caminho. Mas há que entender primeiro como tudo começou…

Cash, nascido John Ray Cash, em Kingsland (Arkansas), a 26 de Fevereiro de 1932, provinha de uma família humilde, que, mais tarde se muda para a Dyess, onde os seus pais, ele e o irmão mais velho trabalhavam num campo de algodão, ainda que o pequeno Johnny (com apenas cinco anos de idade) e o irmão, Jack, fossem obviamente jovens de mais para tal.  No ano de 1944 algo de terrível acontece, John perde o seu irmão, ao qual era muito próximo, num acidente de trabalho, enquanto cortava madeira com uma serra, num moinho. Este incidente teve repercussões para toda a sua vida (e mesmo experiência musical). O cantor falou, por várias vezes, que sentia culpa pelo sucedido, isto porque teria estado a pescar nesse dia em vez de estar junto a Jack. Muito provavelmente, por tudo isto, Johnny mantivesse uma elevada religiosidade, cantando (nos primeiros tempos) sobre temas mais “divinos”, ligados à música gospel. Desde pequeno que começa a tocar a sua guitarra e a compor. Durante a infância/adolescência era sobretudo conhecido como Johnny ou John R. pelos amigos e familiares, só quando sai de casa e ingressa a Força Aérea Americana é que passa a ser conhecido como John. Nesta altura, cria a famosa Folsom Prison Blues, tema escrito e composto durante o tempo em que serviu na Alemanha. Uma canção que fala sobretudo sobre a realidade dos presos, aqueles que matam (ou erram na vida) e, de algum modo, vivem arrependidos. Mais tarde, esta faceta humana de Cash prova-se muito forte, já que cantará por várias vezes nas prisões de modo a levar algum conforto e música aos homens encarcerados, que se tornam dos seus maiores fãs.

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Em 1954 Cash casou-se com Vivian Liberto, a sua primeira esposa, na mesma altura que havia sido dispensado do seu trabalho militar. Deste casamento resultaram 4 filhas (Rosanne, nascida em 1955; Kathleen, nascida em 1956; Cindy, nascida em 1959; e Tara, nascida em 1961).  A família viveu durante anos em Memphis, Tennessee, onde o cantor vendia ferramentas e estudava para ser locutor de rádio.

As noites eram preenchidas com a sua banda “Tennesse Two“: o guitarrista Luther Perkins e o baixista Marshall Grant, que o acompanhavam.  Assim que sentiu estar preparado para dar um passo maior, Johnny e a sua banda foram até aos estúdios da Sun Records tentar a sorte. Inicialmente o produtor Cowboy Jack Clement, sugeriu-lhes que voltassem e mostrassem as canções a Sam Philips, que não ficou logo convencido com os seus sons gospel (considerados tristes) e disse a Cash que  fosse para casa e “voltasse com algo que ele pudesse vender”. Persistente, Johnny consegue convencer o estúdio a assinar com eles, após ter cantado as magnéticas Hey Porter e Cry, Cry, Cry, canções lançadas em 1955, que seriam um sucesso nos tops musicais da altura. Em 1957 Johnny Cash foi o primeiro cantor da Sun Records a lançar um álbum inteiro. A sua editora foi a mesma que preparou nomes como Elvis Presley e que se encontrava, nesta altura, a promover Jerry Lee Lewis.

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Ao sentir que a sua carreira estava a ficar constrangida nesta editora, decide, um ano depois, assinar com a Columbia Records, que lhe propôs um óptimo negócio e ajudou no lançamento do sucesso Don’t Take Your Guns to Town, que como não poderia deixar de ser alcançou o primeiro lugar nos tops de música country, durante seis semanas consecutivas. A sua carreira parecia não poder ir melhor durante os anos 60. Porém, quem conhecia bem Johnny, sabia que ele se encontrava a lutar contra o vício por anfetaminas e barbitúricos. Além do vício, o seu casamento não estava a correr como o previsto, o que levaria à separação de Vivian em 1966. Por um período de tempo Cash mora com  Waylon Jennings num apartamento em Nasville, um viciado nas mesmas drogas, o que piora a sua situação. Mesmo vivendo sobre uma bruma de alienação, pessoal e musical, ainda consegue dar a voz ao hit  grande sucesso Ring Of Fire, com letra de June Carter e Merle Kilgore, que era cantada pela irmã de June que, na versão de Cash, chega ao top 20 das músicas pop e ao primeiro lugar no top da música country. O cantor fez o arranjo do trompete, que conta ter ouvido num dos seus sonhos. Ainda nos anos 60 lançou alguns bons álbuns, nomeadamente, Walk The Line (com single de sucesso com o mesmo nome), Bitter Tears Ballads Of The True West, de 64 e 65, respectivamente. O vício não só infernizou a sua vida pessoal e criatividade como causa alguns constrangimentos de comportamento em alguns dos seus espectáculos. Chegou mesmo a passar noites na cadeia devido a este seu problema com as substancias ilícitas, nomeadamente em 1965 em El Paso, no Texas, quando transportava comprimidos de anfetaminas no interior da sua guitarra.

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Vivendo ainda períodos difíceis e marcados pela falta de consciência, o cantor teve força de vontade e quis a reabilitação dos seus vícios. Mudou de casa em Old Hickory Lake Handersonville, também no Tennessee, onde assiste ao desastre de um dos seus grandes amigos, Roy Orbison, cuja casa desabou com dois dos seus filhos no interior. Afectado com esta tragédia, Cash inicia uma enorme renovação na própria vida, lutando contra as drogas que o estavam a destruir. Conta com a precisosa ajuda de amigos, nomeadamente da amiga e amada June Carter que, mais tarde, se demonstra ser o verdadeiro amor da sua vida, a quem dedica a balada Flesh and Blood. June era também uma cantora conhecida na altura, tornar-se-ia sua esposa em 1968, quando Cash faz o pedido durante uma actuação de um festival em Ontario.

Já “fora de perigo” e das tendências suicidas que enfrentou durante o processo de reabilitação, lança nesse mesmo ano um dos mais reconhecidos álbums ao vivo: Johnny Cash at Folsom Prison e, em 69, além do nascimento do seu filho John Carter Cash lança Johnny Cash at San Quentin. A partir desta altura Jonnhy teve o seu próprio programa na ABC (que decorre até 1971) onde convidou nomes como Neil Young ou Bob Dylan, que foi um grande amigo seu com o qual gravou o dueto Girl From The North Country.

Manteve sempre a sua imagem de marca: o “homem de preto”, como lhe chamavam, demarcava-se das vestes coloridas ou brancas usadas na época pelos seus colegas do panorama country. Em 71, esta sua tendência levou a compor a canção Man In Black, que explicava na perfeição a sua opção: “I wear the black for the poor and the beaten down, / Livin’ in the hopeless, hungry side of town, / I wear it for the prisoner who has long paid for his crime, / But is there because he’s a victim of the times“. Nesta altura já não tinha a fama de sempre, mas uma autobiografia com o mesmo nome da canção de 1975, vendeu ainda 1,3 milhão de cópias. Teve um papel activo no cinema e em séries televisivas, participando como actor.

Infelizmente, durante os anos 80 Cash volta ao vício das drogas, sob pretexto de aliviar as dores de um ferimento que teve no estômago. Quando acabou o contracto com a Columbia Records, ainda lançou com a Mercury Records, mas que foi considerado negativo pela crítica. A religião católica, que professava, esteve presente um pouco por toda a sua vida e carreira, sendo que escreveu em 1986 o seu único livro Man in White sobre a conversão do apóstolo São Paulo. Nos anos 90 chega ainda a gravar com o selo American Recordings um último álbum em casa (com o mesmo nome), onde constam versões de músicas do cantor Tom Waits. Depois deste, lançado em 94, em 1996 lança ainda, Unchained, que inclui versões da música Rusty dos Soundgarden e Rowboat de Beck. Este álbum ganha o Grammy de “melhor álbum country”, o que causa controvérsia, pois foi o produtor Rick Rubin que o ajudou, quando a indústria country o teria rejeitado, daí surge a polémica imagem de Cash na capa da revista Billboard, a mostrar o seu dedo do meio, ironicamente agradecendo a ajuda prestada a toda essa indústria.

O álbum de 2000, American III: Solitary Man, foi lançado no contexto da doença degenerativa de Cash, o síndrome de Shy-Drager, diagnosticada em 1999. A canção I Won’t Back  Down de Tom Petty consta nesse álbum e é uma resposta ao mal que enfrenta nos seus últimos anos. A famosa Hurt, original dos Nine Inch Nails, pertence ao álbum de 2002:American IV: The Man Comes Around e vence, em 2o04, o Grammy de melhor videoclip. Foi considerado ainda, pela NME, um dos melhores videoclipes de todos os tempos, oito anos após a morte do cantor. O seu último álbum preparado em vida foi Unhearted, de 2003, mas apenas foi lançado dois meses após a sua morte.

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Após June Carter ter falecido em 2003, devido a complicações da cirurgia que fez ao coração, Johnny morre pouco depois, aos 71 anos de idade, no dia 12 de setembro desse mesmo ano,  quando se encontrava hospitalizado em Nasville. June e John, que em tantas ocasiões cantaram lado a lado, repousam eternamente juntos no Hendersonville Memory Gardens, perto da sua terra, em Hendersonville, Tennessee.

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Para além de todos os tributos por outros cantores e obras lançadas sobre o cantor, destaca-se o filme Walk The Line de James Mangold, de 2005, no qual se retrata fielmente parte da sua vida e obra, até ao casamento com June Carter, no qual Joaquin Phoenix é Johnny e  Reese Witherspoon revive June, papel que lhe vale o óscar de melhor actriz esse ano. O álbum póstumo de 2006, A Hundred Highways, chega ao primeiro lugar nos tops nos EUA, provando o valor eterno desta lenda do rock ‘n’ roll, que tem o seu nome na Country Music Hall of Fame, na Rock and Roll Hall of Fame, e ainda na Gospel Music Hall of Fame.

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945