No seu penúltimo dia, a edição de 2012 do Fantasporto trouxe o filme Keyhole, a história de uma casa ensombrada por fantasmas e escravos do passado.

Escrito e realizado por Guy Maddin, este filme canadiano foi filmado no ano de 2010. Não é um thriller criminal, não é um filme de terror, não é uma comédia, não é um romance, não um filme de gangsters. Sim, há quem arrume este filme numa dessas gavetas, mas é difícil estabelecer rigorosamente o que é Keyhole. Um filme a preto e branco, passado numa casa assombrada de memórias, gangsters e um pai de família/protagonista do filme Ulysses Pick (Jason Patric).

Ulysses regressa a casa após um longo período de ausência e encontra todo o seu gang à sua espera. Mas ele está focado num só objetivo: percorrer toda a casa, divisão a divisão, até conseguir chegar à sua mulher Hyacinth (Isabella Rossellini). É esta viagem que forma a coluna vertebral do resto do filme. A cada divisão que ele percorre, descobrimos novas facetas da sua família.

Quando Ulysses entra novamente em casa, traz consigo a jovem Denny (Brooke Palsson), que será a sua guia nessa viagem, e ainda um jovem rapaz amordaçado, que na verdade é o seu último filho sobrevivente, Manners (David Wontner), que Ulysses não consegue reconhecer. Durante a sua jornada, o protagonista irá defrontar-se com vários inimigos, vivos ou mortos, entre os quais o pai de Hyacinth (Louis Negin), nu e acorrentado à cama dela.

Há um lado muito obscuro nesta peça cinematográfica, mas o coração do filme está na jornada emocional da família Pick, que se entrelaça com um universo muito surreal e incerto, em que temos dificuldade em sequer distinguir quais as personagens que estão vivas ou mortas. Este mundo que se abre na casa dos Pick é inundado por traições e práticas sexuais sórdidas. É um filme que joga com as suscetibilidades, onde a nudez e as referências sexuais são frequentes, mas usadas na dose adequada, sem cair em excessos.

Mas o humor existe. Basta pensar quando Ulysses recebe um choque na cadeira elétrica e, ao sair, diz “I feel charged!”. As referências sexuais foram também usadas como objeto de humor. O público riu-se. O filme soube alternar, de forma intrigante, momentos muito sórdidos e obscuros com outros de humor leve e subtil.

A direção, a imagem, o som são competentes. Conseguem cativar e, por vezes, deixar o espectador fora de si. Longe de se enquadrar numa narrativa convencional, Keyhole cai frequentemente numa dimensão demasiado abstrata.

6/10

Ficha Técnica:

Título original: Keyhole

Realizado por: Guy Maddin

Escrito por: Guy Maddin

Elenco: Jason Patric, Isabella Rossellini, David Wontner, Brooke Palsson, Louis Negin

Género: Drama, Thriller

Duração: 93 minutos