Diretamente da França, o Fantasporto trouxe-nos uma peça cinematográfica ambientada na Turquia e pautada pelo surrealismo do New Wave dos anos 60. L’Immortelle é “um turista numa terra de sonho”.

Alain Robbe-Grillet (1922-2008) é simultaneamente o autor e realizador desta obra. É um dos grandes nomes da literatura francesa e não resistiu à tentação de passar da escrita para o ecrã. Os seus trabalhos são manifestações de rutura com a cinematografia clássica, e vê neste filme a sua estreia como realizador. Robbe-Grillet conseguiu com este trabalho de 1963 uma nomeação para o Festival Internacional de Filmes de Berlim.

L’Immortelle abre o seu enredo com um professor francês que consegue uma vaga numa escola na Turquia. Recém-chegado ao país, prepara-se para passar uma temporada de dois anos, ou talvez mais. O Homem, interpretado de forma irreverente por Jacques Doniol-Valcroze, espelha alguém retraído que entra num mundo que não lhe pertence, onde se sente alienado. Para isso muito contribui o facto de ele não conseguir comunicar-se com os turcos. Ele, e também nós enquanto espectadores, não compreendemos, não temos legendas. Somos meros passageiros numa terra que não é nossa.

Chegado a Istambul, o Homem procura o caminho para a terra onde vai dar aulas. Mas cruza-se com uma imigrante francesa, a charmosa e misteriosa Mulher (Françoise Brion). A partir daí, ele vê-se a deambular pelos pontos históricos da cidade, e a deixar-se seduzir pela sua guia. Somos mergulhados num evidente choque cultural, em que as mulheres são meros peões numa cultura masculina. Mas a Mulher insiste em ser um híbrido dos dois mundos: independente, livre, mas ao mesmo tempo apta a fazer a dança do ventre ou a ter a fragilidade de alguém que foge de algo.

É um filme sobre deceção e fechamento. O Homem não consegue que a Mulher se abra com ele, que lhe diga sequer o nome e a morada. Ela é livre, di-lo de forma sistemática, mas prende-se a si mesma por dentro. Ele, apaixonado, tenta em vão entrar no seu mundo.

As personagens e os figurantes dispõem-se pelo espaço de forma estática e muito geométrica. Muitas vezes ficam parados como objetos inanimados. Nunca ficamos a saber os nomes concretos dos protagonistas, já que a ambiguidade das cenas impede-nos de ter uma leitura linear. As cenas são cortadas de forma abrupta, e criam propositadamente os chamados erros de continuidade. O realizador brinca de forma brilhante com as técnicas do cinema, vira-as de cabeça para baixo, contudo consegue manter uma coesão global no filme.

Tudo está em sintonia para transmitir um ambiente lento: as câmaras estão arrastadas, grandes planos que duram muito tempo, longos momentos de silêncio. Mas, em contraste, há um vazio, como se algo faltasse, há uma desconfiança, como se não soubéssemos de tudo. E assim é. Como turistas que somos neste filme, ficamos a saber apenas de parte da história. Não nos pertence esta história. A Mulher estaria talvez envolvida num esquema de tráfico de mulheres na Turquia. A Mulher possivelmente morreu num acidente de carro que foi provocado.

O filme divide-se em duas partes, sendo que na última repetem-se cenas passadas, mas com frases que não tínhamos ouvido, com olhares que não tínhamos visto. L’Immortelle apresenta-nos uma memória turva ao lançar diferentes versões dessas cenas, que podem parecer ambíguas ou contraditórias. Mas, a dada altura, podem mesmo cansar o espectador, ou serem excessivas. O intrigante nesta peça é justamente a falta de resolução, ao mesmo tempo que pode ser afirmado haver um claro fechamento da história. As cenas são ambíguas de forma propositada, dão frações de verdades, que o espectador reconstrói à sua maneira. Transparece a ideia de que, durante todo o filme, nunca pertencemos à história, somo apenas um visitante.

7/10

Ficha Técnica:

Título original: L’Immortelle

Realizado por: Alain Robbe-Grillet

Escrito por: Alain Robbe-Grillet

Elenco: Françoise Brion, Jacques Doniol-Valcroze

Género: Drama

Duração: 101 minutos