Um dos discos mais esperados do começo de 2012, Born To Die é o primeiro LP que a norte-americana Lana Del Rey lança após o seu renascimento artístico. Tendo causado furor nas redes sociais com o lançamento da viral Video Games, em Junho do ano passado, Lana só veio a exacerbar esse hype com Blue Jeans e Born To Die, canções que serviram para apresentar aquele que é o seu segundo longa-duração. Born To Die, lançado a 27 de Janeiro, será hoje alvo de review.

Confesso que nunca senti grandes simpatias pela figura de Lana Del Rey. Todo o buzz que rodeou o lançamente de Video Games nunca me contagiou, nem tampouco o surgimento das restantes canções que antecederam este LP. A todas as razões de ordem musical que me levam a desgostar da artista juntam-se ainda várias questões acessórias (falta de “autenticidade”, “hipocrisia musical”, ascensão viral, etc.) que não abonam muito em favor de Lana. Contudo, para esta review eu tentei deixar essas novelas de lado, e concentrar-me na música. Infelizmente, o resultado acabou por ser o esperado; superficial e redundante, Born To Die não me surpreendeu.

Comecemos pelo conceito que envolve este Born To Die, que é o da fusão da um estética vintage da Pop “cheia”, épica e melodramática de Nancy Sinatra ou Cilla Black com uma atitude e postura “gangsta” retirada do Hip-Hop. E se é certo que esta ideia pode parecer à partida interessante, a verdade é que a execução propriamente dita que Lana levou a cabo não me pareceu muito bem conseguida, resultando numa Pop que se limita a ser “catchy”, tendo como reverso da medalha o facto de me ter soado, salvo raras excepções, sensaborona, fútil e vazia de conteúdo.

No que toca aos vocais, Born To Die tem aqui também um registo do qual não fiquei grande fã; arrastada, desinspirada e aborrecida, a voz de Lana só contribuiu para que eu ficasse (ainda mais) de pé atrás em relação a este disco. A isso aliamos as (tortuosas) vezes em que a cantora tenta rappar, ou quando tenta utilizar uma “vozinha” de criança, como podemos ouvir em Off to the Races. Deu-me a parecer que, neste departamento, Lana tentou “forçar” a sua voz para um registo que não lhe é natural, algo que pode ser corroborado pelas suas desastrosas actuações ao vivo em programas como Saturday Night Live ou Jools Holland.

No departamento lírico está, porém, aquele que deve ser o meu maior motivo de descontentamento em relação a Born To Die. Apesar de eu não ser, de todo, uma pessoa que valoriza as letras acima da música, neste LP a escrita das canções está demasiado básica e simplista, tendo de recorrer diversas vezes a clichés do imaginário da Pop Culture de forma descarada. Pior que isso, só mesmo a aura de serventia feminina e até de machismo que envolve grande parte das canções, com uma demonstração de submissão ao homem que contrasta de forma quase insultuosa com a emancipação feminina que artistas como Nancy Sinatra defenderam nas suas obras. Isso, aliado à ideia ultrapassada e kitsch de que o arquétipo da “rapariga mal comportada” é o da mulher que fuma, bebe, veste calções de ganga e sai à noite, faz com que tenha sido uma experiência quase horrífica prestar atenção às letras deste álbum.

Na produção, a cargo de um autêntico “batalhão” de técnicos demasiado grande para discriminar aqui, uma das primeiras coisas que reparei foi no claro “exagero” que foi feito para que a Pop de Lana Del Rey se distinguisse das de outras artistas que são, na sua base, bastante semelhantes à dela (nomes como Florence Welch ou Anna Calvi são os primeiros a surgir). Contudo, esta tentativa de criar uma Pop épica e grandiosa acabou por resultar, a meu ver, numa infeliz colecção de canções ocas, excessivamente melodramáticas e que tentam fazer passar uma ideia (falsa) de que existe algo mais para além da impressão inicial. Em poucas palavras, Born To Die é um álbum que, a meu ver, falha em quase tudo aquilo que tenta alcançar.

Ao nível das canções individuais, confesso que achei o nível das faixas de Born To Die geralmente baixo, se bem que peças como Off to the Races, Million Dollar Man e This is What Makes us Girls conseguem descer a um patamar demasiado fundo para que qualquer adjectivação seja possível sem entrar na escatologia. Porém, não estaria a dizer a verdade se não dissesse que existem raros momentos em que Lana Del Rey consegue fazer uma mistura acertada de sons e influências. A encantadora Dark Paradise, a delicada Summertime Sadness ou a viciante Blue Jeans são, a meu ver, os únicos pontos altos que salvam este disco de apresentar 45 minutos de pura cacofonia.

Em suma, Born To Die acabou por ser tudo aquilo que eu temia que fosse: superficial, pretensiosa e vazia, a música presente neste LP não me fez mudar as ideias que tinha a priori acerca de Lana Del Rey. Não digo que o conceito que gere o disco não seja interessante, e não sou céptico ao ponto de dizer que Lana não tem a capacidade de o tornar viável no futuro; no entanto, a verdade é que, apesar de todas as “maquilhagens” sonoras e de todos os artifícios, a norte-americana não conseguiu mostrar neste álbum mais do que uma Pop banal e frívola que falhou em impressionar-me. No fundo, a minha experiência a ouvir Born To Die foi tão desagradável que nem mesmo no meu estado mais sádico eu recomendaria este álbum a alguém.

Nota Final: 2,3/10

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945