Wuxia é um género literário e cinematográfico que mistura fantasia e artes marciais. Wu significa “marcial” ou “militar” e xia, significa “honrado” ou “herói”. Com uma origem que se perde no tempo, as histórias Wuxia contam as lendas de guerreiros de artes marciais, que com um grande sentido de honra, muito estudo e supressão dos seus próprios sentimentos em nome de um bem superior, conseguem ultrapassar todas as adversidades. Heróis de Outrora, Heróis de Agora é uma retrospectiva cinematográfica de como o século XXI (2000-2010), foi repescar estas estórias milenares e as actualizou aos dias de hoje, sem desprezar os seus antigos valores.


No século XVI nasceu um dramaturgo que seria considerado um dos melhores da sua época. Este autor, ainda hoje, considerado por muitos o melhor dramaturgo em toda a história da humanidade, foi William Shakespeare. Uma das suas obras mais emblemáticas é Hamlet, a estória de um príncipe dinamarquês, que vê o seu tio matar-lhe o pai e, em seguida, casar-se com a sua mãe para usurpar o trono. Cinco séculos mais tarde e um continente depois, Hamlet sofreu uma metamorfose em estilo wuxia.


Inimigos do Império é uma adaptação livre, ocorrida na China do século X, uma época de grande convulsão política, denominada de Cinco Dinastias e Dez Reinos. O império encontra-se em estado de choque com a morte inesperada do Imperador. O seu irmão Li (You Ge), apressa-se a preencher o lugar vazio e a chamar a si todos os ministros e generais para lhe prestarem vassalagem, a despeito do falecido imperador ter deixado um herdeiro em idade adulta. Pelo palácio circulam rumores que Li terá envenenado o próprio irmão para lhe roubar o trono. A viúva do imperador, a imperatriz Wan (Zhang Ziyi), é apanhada na luta pela sucessão e envia protecção ao enteado Wu Luan (Daniel Wu). Ela tem fortes motivos para suspeitar que Li possa atentar contra a vida do único obstáculo à sua legitimação como imperador. Entretanto, Wu Luan ainda não recebeu as notícias da morte do seu pai e leva uma existência boémia. Nada das preocupações do futuro líder do reino. Com a chegada de assassinos enviados por Li para o matar, e o anúncio da morte do seu pai, Wu Luan deixa a lassidão a que se abandonara e fixa-se num único objectivo: vingança! Li, numa demonstração de vaidade, decide organizar um banquete para consumar a sua vitória apesar do ressentimento pela morte do seu irmão ainda estar fresco na mente de todos os que o rodeiam. Sem o suspeitar, o banquete acaba por se tornar a ocasião ideal para os seus inimigos lançarem ardis e outros engenhos para ascender ao poder.

Inimigos do Império representa em termos visuais, o melhor de uma superprodução de Hong Kong. A banda-sonora de Tan Dun, a cinematografia de Li Zhang, a direcção artística de Tim Yip, a montagem de Miaomiao Liu, o departamento de caracterização e o guarda-roupa estão impecáveis. Até os planos da câmara de Xiaogang Feng, tudo é luxo, tudo é perfeição. Sempre estudado, nada deixado ao acaso. E é tudo o que torna Inimigos do Império tecnicamente perfeito que o torna artificial. Inimigos do Império é como uma obra de teatro, com diálogos e gestos exagerados que nunca são tão visíveis como na cena introdutória onde a escola de representação é atacada por cavaleiros negros. Assiste-se a uma chacina. As espadas rompem a carne dos actores que caem mortos teatralmente sem grande resistência. A cena é reminiscente do teatro japonês Kabuki, através da técnica Chūnori, na qual os actores são elevados no ar presos por arames, numa dança coreografada. Novamente, pretensiosismo e ostentação. Inimigos do Império tem a essência de uma peça de teatro disfarçada pela produção de uma longa-metragem. E como é de máscaras que se trata, aquela que melhor as enverga é a imperatriz Wan de Zhang Ziyi. Como uma jovem viúva rodeada de inimigos, veste a máscara que melhor lhe convém para assegurar a sua sobrevivência. Esta personagem está na base das maiores maquinações do enredo. Em tempos prometida ao príncipe Wu Luan, Wan foi obrigada a abdicar de sonhos de felicidade conjugal quando o imperador virou as suas atenções sobre ela. Teria tudo aquilo que sempre almejou em termos materiais, mas estaria para sempre condenada a uma inclinação incestuosa pelo enteado. Máscara do conformismo. Quando o principal obstáculo à sua felicidade morre, a vontade dela é mais uma ignorada e é convidada a ceder ao ardor de Li, sob pena de perder o que alcançou. Máscara da falsidade. Qing (Xun Zhou) é a nova prometida de Wu Luan. Pura e angelical, como Wan, antes da sedução do poder. E a rival tem a parcialidade de Wu Luan, o que a afasta para sempre do romance que sempre cobiçou. Máscara da inveja. E o selo de imperatriz? Admitirá ela, que alguém lho retire? A ela que abdicou de tudo? Existirá algum homem, amor verdadeiro ou logro que supere a sua ânsia de poder supremo? Máscara de calculismo. Ser ou não ser, eis a questão.


Em comparação com a imperatriz Wan, todas as outras personagens parecem recortadas de cartão. Li, inicialmente, uma criatura maléfica revela-se um tolo. Por sua vez, Wu Luan, é muito pouco tentador para o peso e consequência que tem na trama. É um boémio, que age por impulso, sem percepção do futuro. E Qing, bem, ela é tão inocente que se torna ridículo. Mas a sua Ofélia não é uma de resignação. Ela é desafiante e firme no seu amor até ao final.

Infalível nos ademais aspectos técnicos, só o argumento fica aquém da qualidade de um épico de Hong Kong. Mesmo Zhang Ziyi, uma actriz habitual no género wuxia e que mais uma vez dá um ar da sua graça em breves cenas de artes marciais belissimamente coreografadas, teve de trabalhar e espremer até ao tutano a sua personagem. Ainda assim, persiste a dúvida se a imperatriz manipuladora e calculista não devia ter sido interpretada por uma actriz mais madura, uma Gong Li, por exemplo. A inspiração para esta película adveio de Shakespeare, mas pouco tem das emoções cruas que o dramaturgo retratou no século XVII. No firmamento dos épicos wuxia Inimigos do Império brilha com uma luz ténue. É pois fogo-de-vista, oco por dentro. O resto é silêncio.

6/10


Ficha Técnica:
Título Original: Ye yan
Realizador: Xiaogang Feng
Argumentista: Gangjian Qiu, Heyu Sheng
Elenco: Zhang Ziyi, You Ge, Daniel Wu e Xun Zhou
Género: Acção, Drama
Duração: 131 minutos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.