Depois de “meio século comido pela traça” (Sérgio Godinho), desabrochou, a mando dos cidadãos, a Revolução dos Cravos, proclamada em ombros, pelas ruas e campos da pátria, guiada pelos coros de Grândola Vila Morena, Milho Verde ou Venham Mais Cinco. A torrente de mudança não se confina, no entanto, à sua prévia proclamação na melodiosa voz de Zeca Afonso, nem às radicalizações supérfluas do Período Revolucionário em Curso. A revolução consciencializante fazia-se no exílio, nos estúdios improvisados, na voz surda de quem não consente.

Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, (…) do Porto (…).” (FMIJosé Mário Branco)

José Mário Branco (c) Reinald

Nascido a 25 de maio de 1942, no Porto, José Mário Branco é, ainda hoje, um dos filhos bastardos da revolução, ainda que dos seus principais impulsionadores, ofuscado, aos olhos de Zé Povinho, pela, igualmente soberba, música de Zeca. Ostensivamente perseguido pela PIDE, é obrigado a exilar-se em França, em 1963, onde se funde com o movimento intelectual esquerdista de emigrantes lusos, de que fazem parte Luís Cília e Sérgio Godinho, ambos fulgurantes cantautores. Ali, vivem o maio de 68, maravilhados com a força do associativismo estudantil.

Luís Cília nasceu em Angola, na cidade de Nova Lisboa, hoje Huambo. Foi incentivado, pelo poeta Daniel Filipe, a musicar poesia, realidade que assola o início da sua carreira como instrumentista, dedicando o seu primeiro disco ao liricismo português, já em Paris, para onde parte, em 1964. Aqui, edita algumas das suas mais pulcras baladas, como Não Me Peçam Razões, um poema de José Saramago, ou O Desertor, retratando, cabalmente, a sua vivência.

 

 

 “ (…) Boa noite, gente de todas cores e feitios e medidas (…).” (A Vida é Feita de Pequenos NadasSérgio Godinho)

Sérgio Godinho

A 31 de agosto de 1945 nasce, numa singela casa do Porto, Sérgio Godinho. Homem de uma plêiade de capacidades, dáo salto para a Suíça, como estudante de psicologia e, mais tarde, cerra amarras em França, onde, encorajado pelos seus camaradas e amigos, se assume como voz do povo, cantor reivindicativo por excelência. Em 1971, colabora com Zé Mário, que publica o álbum Mudam-se os Tempos, Muda-se as Vontades, estreando-se Sérgio com Os Sobreviventes, que tem o catársico tema Que Força É Essa, demarcando, claramente, a sua visão do quotidiano português.

Marcadamente rural, entre videiras, cães domésticos e belas alamedas arborizadas com vista para o rio” foi a infância de Adriano Correia de Oliveira, nascido em Avintes, a 9 de abril de 1942, ínfima parte da prosápia subleva que não se exilou. Participante ativo da luta estudantil, começou a sua incursão pela cantiga popular nos claustros de Coimbra, celebrizando o poema Trova do Vento que Passa, de Manuel Alegre, que, rapidamente, deflagrou como hino do movimento académico. Muito do seu imaginário prende-se, justamente, com o socialista Alegre, publicando vários dos seus textos, inclusive, o álbum O Canto e as Armas, só com textos seus.

Adriano Correia de Oliveira

Em 1974, eclode a revolução popular, perpetrada pelos revoltosos militares, libertando a massa popular, que vê cair os grilhões da opressão salazarista, abraçando o incólume paradigma da democracia direta. Retorna Sérgio Godinho, eufórico, retorna José Mário Branco, acompanhado de Luís Cília, caindo nos braços de Adriano, de Zeca, proclamando, a uma só voz, o auspicioso futuro de Abril.

Nesse mesmo ano, Sérgio Godinho edita À Queima-Roupa, um manifesto insurrecto que exige “a paz, o pão, habitação, saúde, educação”, que “só há liberdade a sério quando houver liberdade de decidir, quando pertencer ao povo o que produzir” (LiberdadeSérgio Godinho). Em 1975, no pleno apogeu do movimento associativo, Mário Branco junta-se a Fausto Bordalo Dias e, ombreando com muitos camaradas fabris, criam o Grupo de Ação Cultural – Vozes na Luta!, envolvendo-os nas reformas necessárias após o período ditatorial, uma vez que, como proclamam, A Cantiga É Uma Arma.

http://www.youtube.com/watch?v=fdkNNvW3ap0

Em 1982, Adriano morre, vítima de hemorragia esofágica, ternamente albergado pelo colo materno. Zeca dedica-lhe a faixa homónima do seu álbum de 1985, Galinhas do Mato. Com a entrada do Fundo Monetário Internacional no nosso país, em 1983, José Mário Branco edita FMI, um texto escrito em 1979, aquando da primeira epopeia monetária ao nosso país, que espalha, causticamente, a ação desta organização – Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem, como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos…
É o internacionalismo monetário!”
. (FMIJosé Mário Branco)

Sucedem-se gravações atrás de gravações, renúncias de rendição ao capital económico e trovas várias sobre o nosso bucólico país. É inglória a tarefa de explicitar, paulatinamente, a relevância dos incontáveis contributos destes homens para a Revolução de Abril, ou para o acicatar de velhos sonhos, a que a aventura popular se propôs. Mas nunca é demais relembrar quem, filantropicamente, batalhou por um congruente amanhã.