São incontáveis os contributos da obra de Zeca Afonso, como magistral liricista e poeta, como refulgente activista político, como prelúcido compositor, como humano. A infinita riqueza do seu espólio transcende as preposições limítrofes de género, de credo ideológico ou espiritual, reunindo-nos sobre a alçada da música portuguesa, do canto português tradicional, como foi idealmente criado.

Nascido nos campos, tecido pelas gargantas rudes dos trabalhadores agrícolas, o canto da “pobre ceifeira” veio galvanizar os camponeses na sua labuta, minorando as árduas condições laborais e refinando os profícuos laços entre os membros da comunidade, que, após um longo e fastidioso dia de trabalho, se uniam nas tabernas e adegas, cantando à desgarrada, criando o cantar alentejano, as modas da Beira Baixa, os cânticos transmontanos.

Este papel fulcral de registo do antigo, do popular, de difusão generalizada da nossa fecunda cultura rural é outro dos apanágios do grande cantautor José Afonso, assim como de Michel Giancometti, etnomusicólogo corso, que se interessou, largamente, pela cultura musical portuguesa, viajando pelo Portugal profundo, de gravador em riste, registando cantigas populares, ou ainda de Fernando Lopes-Graça, efusivo compositor clássico, que aliou às épicas melodias sinfónicas o timbre típico das aldeias.

Começando a sua divulgação pública com os cantares de Coimbra, onde se destacou pela sua luta associativa antifascista, Zeca gravou vários fados coimbrões, sumptuosamente inspirado por António Menano, mítico barítono do universo académico. Rodeado pelos seus camaradas universitários, discorre, copiosamente, sobre as serenatas, os cantares à desgarrada, todo o universo típico daquele tempo.

Em 1970, após várias tentativas musicais, lança o álbum Traz Outro Amigo Também, que contém a pérola Moda do Entrudo, um popular cântico da Beira Baixa, que invoca a vontade de refúgio nos altos precipícios da serra, “eu quero ir para o monte/ Onde não veja ninguém/ Que no monte é que estou bem”, fugindo ao cárcere do confronto colonial.

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No ano seguinte, com a edição de Cantigas do Maio, Afonso publica a faixa homónima, com refrão da Beira Alta, um lamentoso choro, personificado pelo soldado que parte para a guerra, para decrépita barbárie colonial, despedindo-se da sua amada e de sua mãe, que carpe “Minha mãe, quando eu morrer/ Ai chora por quem muito amargou./ Para então dizer ao mundo/ Ai Deus mo deu ai Deus mo levou.”

Por último, Chula da Póvoa. Se há canção de gritante poder reivindicativo e acutilante escarninho social, aqui a temos. Editada em 1976, no disco Com As Minhas Tamanquinhas, já após a Revolução dos Cravos, vilipendia, com tamanho à vontade, as figuras da autoridade que se dessacralizam, imbuídas no mar revolto de Zé Povinho.

O papel de Zeca Afonso, no antigo panorama musical, é de absoluta preponderância, ainda que humilde, sobre os seus compatriotas revolucionários. Ombreando com Inti Illimani, Quilapayun ou Victor Jara, demonstra-nos a relevância incontestável do antigo saber na convivência diária. Até sempre.