A luta política requere correlação de forças, e só através de um agente coletivo, de uma força popular, se conquistam direitos e emancipa um povo. Mas há homens e mulheres que se destacam pela sua bravura, coragem e recalcitrância. Zeca Afonso, o músico ativista, é um desses indivíduos. Foi através da canção de resistência que batalhou, recusando-se a aceitar a opressão e a exploração, a ditadura e a subjugação.

Indiscutivelmente, o legado musical de José Afonso vai muito para além da sua intervenção social e política. De bonitas histórias de amor a situações do quotidiano, passando por homenagens a terras portuguesas ou pela ênfase posta nos cantares regionais, Zeca deu um contributo indelével à música portuguesa. Fê-la crescer e prosperar. Contudo, é impossível dissociar a obra artística do homem político. Um homem de causas, honestamente preocupado com o seu povo, incapaz de se vergar e submeter ao poder estabelecido. Um visionário, um libertário, que marcou e marca gerações. É simbólico que, ano após ano, se trauteiem canções do Zeca nas marchas do 25 de abril, ou que pais cinquentões, recordando a vivacidade da luta do artista, deem a ouvir aos filhos os seus discos vinis.

Mas procuremos respostas. Porque terá José Afonso assumido, até ao fim da vida, um combate em torno de causas políticas? Porque terá abraçado, em plena ditadura salazarista, uma batalha duríssima, que comprometeu o desenrolar de uma vida dita normal? Zeca era um altruísta por natureza, um homem com um aguçado espírito crítico, que não podia ficar indiferente à miséria a que votavam o seu povo, à “noite” a que os portugueses foram submetidos durante 48 anos. Zeca buscava inspiração para as suas canções no nosso povo, e a partir daí exaltava as suas vivências e os seus sofrimentos, as suas angústias e os seus anseios.

Nascido a 2 de agosto de 1929 na freguesia da Glória, em Aveiro, viaja logo em 1933 para Angola, onde vive com os pais. Nesta altura cria uma forte ligação a África, que o acompanha ao longo de toda a sua existência. Em 1940 parte para Coimbra, onde ingressa no Liceu D. João III. Estava no quinto ano de liceu quando passou a cantar de forma assídua e, em 1948, entra para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde estuda Ciências Histórico-Filosóficas. Em 1956 acompanha de perto a candidatura de Humberto Delgado à presidência da República, e é então que inicia a sua intervenção política. A música acompanha essa prática, e após a pesarosa derrota de Delgado escreve Os Vampiros, um dos temas fundamentais da sua carreira, que viria a tornar-se símbolo da resistência anti-fascista. Enquanto leciona em vários colégios e escolas, José Afonso segue atentamente a crise académica de Lisboa em 1962, editando em 1963 os primeiros temas de carácter marcadamente político, no seu disco Baladas de Coimbra. Zeca sente aí, pela primeira vez, os meandros da censura. Os Vampiros, canção que espelha a opressão do capitalismo, e Menino do Bairro Negro – inspirada na miséria do Bairro do Barredo, no Porto – são proibidas.

A resiliência que o caracteriza não lhe permite desistir, e Afonso prossegue com a intervenção, ao denunciar os crimes do fascismo e do sistema capitalista. Em maio de 1964 atua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde se inspira para Grândola Vila Morena, o seu mais reputado tema, senha para o avanço do Movimento das Forças Armadas na noite de 24 de abril de 1974, que poria fim à ditadura liderada por Marcelo Caetano. Manifesta-se incessantemente contra o colonialismo, compondo músicas como Menina dos Olhos Tristes, e defende os ideais de independência e socialismo, situação que o torna alvo da polícia política, a PIDE/DGS. Participa ativamente em festas populares e canta em coletividades, sendo várias vezes detido e impedido de exercer a profissão de professor. A batalha que abraçara impelia-o a escrever sobre as arbitrariedades e opressões do regime tirânico, e a evocar a necessidade de solidariedade entre povos. Contrariando a censura e o apagamento histórico, Zeca Afonso avança, até à Revolução. “Sou o meu próprio comité central”, diria um dia. Compreendia porém a necessidade de organização, e de construção de uma verdadeira democracia. Uma democracia dos trabalhadores, dirigida pelos explorados. Após o 25 de abril continuaria a empreender essa luta, a luta contra o capitalismo, contra a exploração, pela democracia operária. Através de canções como Viva o Poder Popular, Dia da Unidade, Chula da Póvoa ou Eu, o Povo, contribuía para esta batalha forjada dia a dia.

“Mandadores de alta finança/Fazem tudo andar pra trás/Dizem que o mundo só anda/Tendo à frente um capataz”. Esta passagem, do tema Índios da Meia Praia, diz muito sobre o músico político que foi Zeca Afonso. O músico fraterno e abnegado, incansável guerreiro na batalha contra as iniquidades, pela democracia, pela reforma agrária, pelo socialismo. 25 anos após a sua morte, vale a pena recordá-lo e mantê-lo vivo na memória coletiva. O ícone de várias gerações, exemplo para muitos ativistas, tem ainda muito a dizer. E as suas canções, mais atuais do que nunca,  entram como um rastilho que incendeia a alma dos portugueses, votados, no século XXI, a uma nova ditadura. Talvez recordar este herói reative a vontade de fazer um novo 25 de abril, o 25 de abril que hoje tanta gente exige e assume como necessidade. Esperemos que sim. Por enquanto, resta-nos insistir. Até sempre, Zeca.

httpv://www.youtube.com/watch?v=ig1ySNy8A4M