Um filme que promete narrar a amizade entre um rapaz e o seu cavalo faz-nos, inevitavelmente, torcer o nariz, mas há que ter em atenção que é Steven Spielberg quem o assina e todos sabemos que este merece um olhar ponderado. Cavalo de Guerra não é filme de Óscar, mas está uns furos acima da média no panorama dos nossos dias, apesar das suas falhas estruturais.

A premissa é simples, o filme conta-nos a história do jovem inglês Albert (Jeremy Irvine) e de Joey, o cavalo da família, que o rapaz treinou e viu crescer. A Primeira Guerra Mundial rebenta e os dois veem-se obrigados a separar-se indefinidamente, sabendo que as hipóteses de se reencontrarem são quase nulas, uma vez que o animal passa a ser pertença da cavalaria britânica, na luta contra os alemães.

Não é necessário muito esforço para simpatizar com a história desde o seu arranque. Acompanhados pela banda sonora de John Williams – quem mais? –, vemos crescer a amizade entre o cavalo e a personagem de Irvine, estreante nas longas-metragens, que, não perfeito, se mostra capaz de cumprir com o mínimo que lhe é exigido. Até então, a obra conquista-nos pela inocência própria que nos faz gostar de Spielberg. O pior é o que está para vir.

Tudo o que é característico no cinema clássico do cineasta está presente – seja o drama familiar e o olhar intimista, sejam as grandes proporções latentes no cenário de batalha – e a intenção que o realizador tem de nos fazer vivenciar a guerra através do olhar do cavalo é boa, mas é também nesse ponto que as expectativas saem defraudadas, pois tão depressa vemos em cena momentos com um potencial infindável, como logo lhes é definitivamente apagada a chama.

Tom Hiddleston e, sobretudo, Benedict Cumberbatch estão impecáveis nos breves instantes em que preenchem a tela, embora desaproveitados numa sequência que tanto tinha para dar e que morre pela praia. O mesmo sucede com a jovem principiante Celine Buckens e Niels Arestrup, numa curta história de neta e avô – e que, inegavelmente, nos traz Heidi à memória.

É inevitável que o cavalo deixe marcas em todos por quem passa, pela sua persistência, bravura e lealdade, como seria de esperar. Mas não é nesta previsibilidade que assenta o principal problema – pois, quando quer, Spielberg sabe manusear o previsível –, a questão está no modo como toma as rédeas de uma forma algo desconexa. Aquilo a que assistimos não é mais do que um misto de eventos onde, por sorte (ou não) do acaso, o mesmo cavalo está envolvido. É lamentável – e, por vezes, sofrível – ver como as boas intenções deste veterano do cinema vão por água abaixo, pela inconsistência com que o filme aos poucos se desenrola.

Pelo meio, temos poderosas e convincentes cenas de guerra de uma forma tão bela que poucos para além de Spielberg conseguem transportar para o grande ecrã, com provas mais do que dadas anteriormente, e é aí, e na beleza das várias cenas aleatórias que do nada surgem, que Cavalo de Guerra, ainda que recheado de incongruências, nos consegue de certa forma conquistar e fazer valer a pena as mais de duas horas de filme. É crucial vê-lo como uma obra de várias histórias com um único ponto em comum, o cavalo, porque dele se retiram lições, quer por bem, quer por mal.

Não é merecedor do Óscar de Melhor Filme e está longe de ser um dos trabalhos mais inspirados de alguém que já nos presenteou com E.T. – O Extraterrestre e Tubarão – chegamos ao ponto de questionar quem será a personagem principal, se o cavalo, o seu dono ou algumas das figuras que pelo meio se introduzem –, mas devemos ter o cuidado de não o colocar no mesmo patamar de Guerra dos Mundos, pois tem os seus momentos; encaremo-lo como uma espécie de O Resgate do Soldado Ryan familiar com um cavalo. Acima de tudo, é um capricho de quem tem o poder de fazer o que lhe dá na gana.

6.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: War Horse

Realizador: Steven Spielberg

Argumento: Lee Hall, Richard Curtis

Elenco: Jeremy Irvine, Emily Watson, David Thewlis, Benedict Cumberbatch

Género: Drama, Guerra, História

Duração: 146 minutos