Na semana em que se assinalam os 25 anos da morte de Zeca Afonso, relembramos a sua história, a sua música e outras curiosidades daquele que é considerado um dos grandes músicos de intervenção da revolução de 25 de abril de 1974, que terminou com a ditadura salazarista.

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, mais conhecido por Zeca Afonso ou José Afonso, nasce em Aveiro, a 2 de agosto de 1929. Em 1933, por insistência da mãe, viaja para Angola, onde permanece durante três anos e inicia a instrução primária. Depois de um ano em Aveiro, em 1937 volta a África com os pais, desta vez para Moçambique. Um ano depois vai viver com um tio para Belmonte que, devido aos seus ideais salazaristas, o obriga a vestir o uniforme da Mocidade Portuguesa.

Em 1940, José Afonso vai viver para casa de uma tia em Coimbra. É aí que faz os seus estudos, no Liceu D. João III e é também aí que, como bicho – designação da praxe coimbrã para estudantes liceais – começa a cantar. Em 1949, integra o curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Nesse mesmo ano visita Angola e Moçambique com o Orfeão Académico da Universidade de Coimbra, que integrara ainda antes de iniciar o ensino superior.

Em 1953, no mesmo ano em que nasce o seu filho José Manuel (teria ainda uma filha, Helena), edita o seu primeiro disco, com fados tradicionais de Coimbra. Durante a faculdade dá explicações e faz revisão de textos no Diário de Coimbra. Após dez anos de vida académica, em 1963 conclui os seus estudos, com uma tese sobre Jean-Paul Sartre: «Implicações substancialistas na filosofia sartriana». Contudo, já em 1957 iniciara a sua atividade como professor em Mangualde. Também nesse ano atua em Paris, no Teatro Champs Elysées, com Fernando Rolim, António Portugal, David Leandro, Sousa Rafael e Levy Baptista – músicos com quem gravaria, em 1960, uma serenata para o Festival da Eurovisão.

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É em 1964, quando atua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, que se inspira para escrever Grândola Vila Morena, uma das suas músicas mais conhecidas por ter sido escolhida (março de 1974) para mote da revolução pela liberdade, em 1974. Em 1967, depois de voltar de África onde estivera três anos, o Partido Comunista Português (PCP) convida-o a integrar o partido, o que José Afonso recusa. Durante a primavera marcelista (1968-1970), o músico participa ativamente nos inícios do movimento sindical e nas diversas ações dos estudantes de Coimbra. Em Abril de 1973, depois de vários espetáculos proibidos pela Policia Internacional de Defesa do Estado (PIDE/DGS), José Afonso é preso e fica na prisão de Caxias até finais de Maio. Durante o Período Revolucionário em Curso (PREC) teve também ação interventiva, especialmente no movimento revolucionário LUAR, com o qual estabelece uma colaboração estreita. Em 1976 apoia a candidatura presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho, um dos mentores da revolução que pôs fim a ditadura de Salazar um ano antes.

É em 1982 que começam a surgir os primeiros sintomas da esclerose lateral amiotrófica que levaria à morte do músico e professor. Em 1983 daria ainda um concerto no coliseu já com algumas debilidades, no qual participam também Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre e Janita Salomé. Nesse mesmo ano publica um testamento político – Como Se Fora Seu Filho, em colaboração de Júlio Pereira, Janita Salomé, Fausto e José Mário Branco.

José Afonso morre a 23 de Fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, vítima da doença que lhe fora diagnosticada no ano anterior.

Zeca Afonso, como a maioria o conhece, deixa para os demais um grande legado de músicas, poemas, publicações e um espírito de intervenção e revolução característicos da época em que viveu. Muitos são os cantores ou grupos que se inspiram no músico, nos seus ideais ou mesmo nas suas canções: reinventando-as, adaptando-as aos tempos e problemas modernos ou criando novas composições nelas inspiradas.