A 20 de fevereiro de 1967 nascia, em Aberdeen, Washington, aquele que viria a ser um dos maiores símbolos do rock contemporâneo.

Se o hard rock construído por bandas como AC/DC, Def Leppard ou Guns n’Roses ganhou notoriedade na década de 1980, os anos 1990 ficaram inevitavelmente associados ao surgimento de uma inovadora sonoridade. O grunge, com génese no movimento artístico da cidade de Seattle, propunha-se a desbravar terreno  e alargaria os horizontes de uma geração mergulhada num profundo marasmo, descrente no futuro e indiferente aos estímulos do presente. É deste movimento que emerge Kurt Cobain, uma das figuras mais carismáticas do panorama musical do século XX, e incontornável personalidade do imaginário rock.

O seu trabalho, indissociável do trabalho desenvolvido pela banda que criou em 1987 – os Nirvana -, foi como o germinar de uma semente plena de raiva, angústia, energia e vigor. Uma semente que se distinguia das restantes, e que representava o grito de revolta de uma geração. Com um percurso artístico admirável, Kurt viveu, indubitavelmente, uma vida de excessos, que o conduziu a uma morte precoce e ditou a fugacidade da sua carreira. Se Cobain fosse vivo, faria agora 45 anos. Por este notável percurso, e pela obstinação com que encarou a sua curta passagem, vale certamente a pena prestar-lhe uma homenagem.

Mas voltemos ao início. Nascido a 20 de fevereiro de 1967 numa família de classe média baixa, Kurt Cobain cresceu na pequena cidade de Aberdeen, no Estado de Washington. Durante um longo período, esse foi o seu habitat natural, a bolha onde se escondeu e dentro da qual se protegia.  O músico foi um representante da última geração inocente da América, a última a viver num mundo de fantasia permanente onde não havia desenhos animados violentos, onde todos viam a Rua Sésamo.

O seu fascínio pela música despertou cedo, tal como a sua apetência para tocar instrumentos. Empurrado pela tia, Mary Karolyn Earl, que no Natal de 1974 lhe ofereceu um bombo de bateria, Cobain começou por se apaixonar pela coleção de discos antigos doados pela mesma parente. A par do desenvolvimento desta paixão, Kurt formava-se enquanto jovem, enquanto adolescente com personalidade vincada. Um acontecimento particular foi decisivo na construção do seu ser: no final de um dia de escola, caminhava por um bosque, com dois colegas. Ao longe, numa árvore, distinguiram um vulto. À medida que se aproximaram dele, o cenário clarificou-se. Um ramo, uma corda, um corpo. Era o corpo do irmão mais velho de um dos seus melhores amigos, que assim decidira pôr termo à vida. Os traços de intempestividade, agressividade, extravagância e bipolaridade foram traços que o acompanharam ao longo dos seus 27 anos de existência, e que em muito se deveram esta tragédia que testemunhou na infância.

Na escola secundária, a ilustração sobrepõe-se à música. Pondera seguir artes, mas os péssimos resultados não auguram nada de satisfatório. Desenhando extraterrestres de membros longuíssimos ou Batmans ensaguentados, Kurt Donald Cobain cria o seu próprio mundo e liga-se aos estímulos que o rodeiam, encerrando-se numa redoma que o liberta e isola dos humanos. Visivelmente deprimido, frequentemente destroçado e desmoralizado, toma uma decisão. Aos 17 anos abandona a roulote que habita com o pai e passa a viver na rua. Durante dois anos, Kurt abriga-se principalmente sob a ponte de Aberdeen, onde se embrulha em caixas de cartão para suportar o frio da noite. Essa experiência está descrita na melancólica Something In The Way, canção do álbum Nevermind. É também nesta altura que Cobain enceta os primeiros contactos com o universo da droga. A fraqueza de espírito que revelava encontrava aqui um instrumento de negação da violenta realidade a que tentava escapar.

Com uma visão cada vez mais definida sobre a importância que adquiria para si a música, Kurt escreve letras, diversas letras que espelham a falta de crença no presente e a impossibilidade de achar o seu lugar no mundo. Pungente e revoltado, o jovem aposta na bateria e na guitarra, canalizando a dor que sentia para o aprimorar de competências numa das áreas que mais apreciava. Fã devoto de Ramones, Beatles ou Queen, chega a hora de formar a sua própria banda. Em 1987 surgem os Nirvana, primeiramente como Skid Row, para conquistarem o universo. Afectos à nova sonoridade de Seattle e conotados com a irreverência associada ao movimento grunge, a banda corre o mundo e destrona fronteiras, agregando uma legião de seguidores capazes de tudo pelos seus ídolos. De camisa de flanela e All Stars, Kurt Cobain impera e torna-se figura central da última década do século. Enquanto mantém uma relação conturbada com a cantora e atriz Courtney Love, Kurt excede-se nas doses de heroína que consome, vislumbrando-as como uma forma de reduzir a pressão que agora sente sobre os ombros.

Mas a ascensão foi tão rápida quanto a queda. Depois de monopolizar o estrelato, e após três discos com um extraordinário êxito – Bleach, Nevermind e In Utero – , a depressão e a instabilidade da sua personalidade assumem contornos dramáticos. Com uma digressão a decorrer na Europa, que se inicia com a passagem pelo Pavilhão Dramático de Cascais, Cobain crê estar num beco sem saída: Courtney ameaça deixá-lo, e este, desamparado, droga-se para amenizar a dor. Mas essa dor superou-o, e matou-o. Kurt cancela o resto da digressão na Europa, e foge para os Estados Unidos, refugiando-se em casa. Algumas horas depois de chegar, e ao som de R.E.M., Cobain aponta uma caçadeira e dispara sobre si próprio. Assim terminava a efémera existência de um dos mais importantes e reconhecidos artistas musicais da História.

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