Wuxia é um género literário e cinematográfico que mistura fantasia e artes marciais. Wu significa “marcial” ou “militar” e xia, significa “honrado” ou “herói”. Com uma origem que se perde no tempo, as histórias Wuxia contam as lendas de guerreiros de artes marciais, que com um grande sentido de honra, muito estudo e supressão dos seus próprios sentimentos em nome de um bem superior, conseguem ultrapassar todas as adversidades. Heróis de Outrora, Heróis de Agora é uma retrospectiva cinematográfica de como o século XXI (2000-2010), foi repescar estas estórias milenares e as actualizou aos dias de hoje, sem desprezar os seus antigos valores.

Se um poema for um filme, Herói é o tal. Se uma história de amor puder ser contada em película, Herói dá-lhe vida. Se há Herói cuja estória mereça ser contada ela é do guerreiro Sem Nome. Numa época de carnificina, na qual todos lutam pelo poder, um homem ousou desenhar um projecto que unificasse todos os territórios que constituirão a futura China, debaixo do mesmo céu. Ele é o rei de Qin (Daoming Chen), um homem impiedoso que não conquistou o seu lugar sem derramar muito sangue. Ele é odiado pelos ociosos e por aqueles cujas vidas subjugou. São contratados os melhores assassinos para o matar. Por momentos, parece que todos estão contra ele, até que um pequeno oficial é conduzido à sua presença, jurando ter morto os seus principais opositores. Inicialmente, afastado como um logro, o guerreiro Sem Nome (Jet Li) apresenta as armas dos assassinos Céu, Espada Quebrada e Neve Flutuante. A atenção do rei está garantida. Segue-se uma estória, aparentemente, impossível, contada em flasbacks por Sem Nome.

É dado início ao mais belo poema visual alguma vez contado em filme. Zhang Yimou e o seu cinematógrafo, Christopher Doyle, pintam a estória sem esforço visível. Cada capítulo é marcado por cores diferentes: vermelho, verde, azul e branco – Paixão? Esperança? Justiça? Pureza? Em poucos filmes ocorre um efeito sinestésico semelhante. Queremos banhar-nos na cor azul e se fecharmos os olhos, com atenção, conseguimos cheirar a outonal cor vermelha. Mas por que é mais do que um festim dos sentidos, somos brindados com um elenco de luxo, encabeçado pelo que seria à partida o elo mais fraco: Jet Li. Uma escolha feliz. Apesar de ter poucas falas, ele tem o exterior duro de um guerreiro e a aura de quem tem um grande segredo dentro de si. Ademais, temos o prazer de o ver com outra grande estrela do Kung Fu, Donnie Yen, no papel de Céu. Em 2002, o ocidente estaria longe de imaginar quão épico é o proporcionar de um confronto entre Li e Yen, já que à época, este último era um quase desconhecido fora da Ásia. A sua luta é também a melhor em todo o filme, a despeito de uma coreografia de elevada qualidade, uma vez que só estes dois actores são praticantes de artes marciais na realidade. A completar o elenco de assassinos estão Tony Leung (Espada Quebrada), Maggie Cheung (Neve Flutuante) e Zhang Ziyi (Lua), uma jovem aprendiz que sente mais do que respeito pelo seu mestre. Perfeição. Se Tony Leung e Maggie Cheung partilhavam entre si, pelo menos meia dezena de filmes icónicos a nível mundial, a Zhang Ziyi era ainda aclamada pelo seu desempenho em O Tigre e o Dragão. Ela, que se tem revelado uma verdadeira força da natureza em filmes wuxia sucessivos. Apostas seguras portanto. Se alguma crítica pode ser atribuída a tão excelso elenco esta terá por alvo Daoming Chen com o seu rei condescendente, longe do líder sanguinário que a estória pressupõe retratar.

Mas falava-se de uma estória de amor. Espada Quebrada e Neve Flutuante demonstram, nos escassos minutos de romance, um enlevo maior do que muitos filmes românticos. Lua também ama Espada Quebrada com uma paixão juvenil e inexperiente. Mas o amor dos seus mestres é sólido e constante, a despeito da interferência de terceiros. A sua estória de amor já viu muitas luas. Quem veja tal ternura e ardor nos olhares trocados entre eles, dificilmente, imaginará Espada Quebrada e Neve Flutuante como os assassinos mais cruéis que alguma vez atravessaram os sete reinos. Talvez seja na força dos seus corações e na sua constância que retirem as suas forças. Como personagem secundária essencial à compreensão da narrativa entra a composição de Tan Dun, que em 2001 recebeu um Óscar precisamente pelo épico wuxia O Tigre e o Dragão. Entenda-se que a composição deste artista evoca mais emoções, com os seus acordes, que muitos actores bem dirigidos. A música dos créditos finais de Herói, Yearning for Peace, uma fusão de lirismo clássico com os fortes tambores chineses, é o melhor testamento à visão de Yimou e do rei de Qin: “Unir todos os reinos debaixo do mesmo céu”. Mas Yearning for Peace, pode ter ainda um significado simbólico, o do desejo da serenidade no amor que advém com o tempo e a dedicação. Herói é arte, está acima do cinema, é uma obra completa que se transcende a todos os níveis. Existe o cinema wuxia depois de Herói, um que dificilmente conseguirá igualar o sucesso do seu antecessor, talvez apenas pela mestria do próprio Yimou. Uma pesada herança mas uma que significa um excelente prelúdio para o cinema wuxia do século XXI.

10/10

Ficha Técnica:

Título Original: Ying xiong

Realizador: Zhang Yimou

Argumentista: Zhang Yimou, Bin Wang e Feng Li

Elenco: Jet Li, Tony Leung, Maggie Cheung, Zhang Ziyi e Daoming Chen

Género: Aventura, Acção, Drama

Duração: 99 minutos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.