Casa cheia, um ambiente intimista, a expectativa de ver subir ao palco uma das melhores bandas da actualidade. Um presente. Um verdadeiro presente. Foi assim que os The Gift se apresentaram o novo álbum, Primavera, e o seu antecessor, Explode, na noite única, no Centro Cultural de Belém.

Os primeiros acordes de Black tocaram e o silêncio instalou-se no Grande Auditório do CCB. Os espectadores esperavam por este momento há muito tempo. À medida que as cortinas abriam, víamos o cenário todo composto. Apenas faltava a vocalista, Sónia Tavares, que logo subiu ao palco onde foi recebida pelos fortes aplausos dos espectadores com a música La Terraza.

Meaning of Life e Les Tulipes de Mon Jardin (The perfect you), mostraram outro lado da banda portuguesa. Um lado mais adulto, mais sério e, ao mesmo tempo, com lições de vida. Sempre de sorriso na cara, Sónia Tavares interagia com o público contando algumas histórias da banda formada em 1994, pois assim é que o concerto podia “ficar mais completo”, comentou.

Quando as coisas são demasiado belas, as palavras tendem a desgastá-las. Simples e bonito. É esta a melhor maneira de caracterizar este concerto. Foi assim a primeira parte do espectáculo. Um ambiente calmo, envolvente. Sentia-se música, sentia-se poesia. Uma noite comovente. Uma voz quente e poderosa que nos abraçava e não nos queria largar – e nem nós queríamos ser deixados.

Ao longo de toda a apresentação desta Primavera, fomos levados às várias estações do ano. Neste álbum, Sónia Tavares e os seus músicos esforçaram-se por dar ao público a leveza das palavras conjugadas numa melodia enternecedora, quente. Havia empatia entre os espectadores e os músicos. Um elo de ligação foi criado e isso foi sentido nas duas variações do tema de sucesso e homónimo Primavera, que fechou esta primeira hora em grande.

A segunda parte arrancou também em grande. Com um ar mais jovial e colorido, uma explosão de cores encheu o CCB. RGB, Race is Long, Made for You e Suit Full of Colors fizeram as delícias dos espectadores que ainda puderam pular da cadeira e bater o pézinho. A cantora recuou até 2003 para cantar Driving You Slow, a música que lançou os The Gift para o panorama internacional e ainda Fácil de Entender, de 2006, que conquistou o coração do público.

Esta foi uma parte menos emotiva, mas muito mais animada. A adrenalina corria nas veias dos músicos que não pararam de entreter o público, que não pararam de surpreender e, sobretudo, que não pararam de mostrar a sua qualidade, o seu trabalho e a sua grande paixão.

 httpv://www.youtube.com/watch?v=oJP-NTQm_7w&feature=related

Sempre com sentido de humor apurado e com uma interacção com o público fantástica, a banda portuguesa preencheu a noite de ontem de uma maneira incrível e realmente autêntica. Confesso que não gostava dos The Gift porque as suas músicas não tinham qualquer significado para mim. Com estes dois álbuns apercebi-me do grande potencial que este grupo tem, da fabulosa voz de Sónia Tavares que nos faz arrepiar em canções improváveis, das ligações que se estabelecem entre as coisas mais pequenas. Os The Gift encheram-me as medidas e, se pudesse, voltaria a repetir a noite de ontem. Mais uma vez, única, fantástica e cheia. Sobretudo cheia. De cores, de memórias, de música, de amor.

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945